Cássia também não tocava no assunto daqueles encontros com suas exs. Daniela sabia que ajudava com seu silêncio. Se tocasse no assunto ela não poderia fugir como vinha fazendo.
Vanda retornou e Daniela voltou a frequentar a faculdade. A noite ela ia a casa de sua amiga Márcia pegar as matérias que perdeu quando faltou as aulas. Márcia era uma Espanhola muito agradável e se tornaram amigas desde o primeiro dia de aula na faculdade. Também era lésbica, tinha uma namorada Brasileira e era feliz com ela. Cássia dava ataques por causa disto. Daniela ignorava seus protestos tolos. Ela tinha ciúmes até da sua sombra, mas não tinha motivos para isto.
Também ia pouco a sua casa e se ficava um pouco mais, ela logo começava a ligar deixando todos tensos. Talvez ficassem tensos por perceberem que Daniela não se importava com aquele chamado desesperado pelo telefone.
Ninguém dizia nada dela estar dormindo fora de casa. Uma ou duas vezes por semana, Daniela deixava Cássia adormecida voltando para seu quarto.
Ainda assim Cássia achava pouco o tempo que lhe dava. Queria que ela ficasse agarrada a ela dia e noite. Daniela não cedia e brigavam por essa razão. Essas brigas terminavam irremediavelmente na cama. Como a última pelo tempo que Daniela passou na casa de Márcia recuperando as matérias perdidas.
Cássia começou a reclamar quando ela entrou naquela noite.
- Você prefere se agarrar aos malditos livros do que ficar comigo. Fico sozinha muito tempo. Te espero e você demora horas. Não sei mais o que faço. Essa sua amiga é lésbica e isto me enlouquece se quer saber a verdade! – Falava andando pela sala.
Daniela virou as costas indo para o quarto. Lá pegou sua bolsa começando a preparar tudo para ir embora.
Cássia surgiu parando diante dela fora de si.
- O que você está fazendo?
Daniela continuou como se não a ouvisse. Cássia tomou a bolsa de sua mão virando tudo sobre a cama.
- Você não vai sair daqui!
- Não? Por quê não?
- Não! Não vai! Não seja criança! Cresça! Estamos conversando.
- Você não está conversando, está gritando...
- Não sei onde estava com a cabeça quando me envolvi com uma mulher de vinte anos, só podia dar nisto.
- ...
- Eu odeio sentir ciúmes e não gosto de brigar. Mas você não fala comigo. Fico louca quando não responde.
- Você briga à toa...
- À toa? Meu Deus! Você estava na casa de outra mulher até tarde, mas droga! Acha que sou insensível? Você é minha namorada, que coisa! Droga! Droga! Droga!
Era namorada dela? Curioso! Era curioso não ter sido informada sobre aquele assunto, Daniela pensou admirada. Quando tinha sido pedida em namoro que não percebeu?
- Para que esse chilique Cássia!
- Chilique? Mas era só o que me faltava! Depois reclama que eu brigo.
Daniela suspirou olhando-a fixamente.
- Não se preocupe, volto quando você estiver no seu estado normal.
- Estado normal? Você me deixa assim e ainda tem coragem de dizer isto? Estou sempre no meu estado normal...
- Não deve estar no seu estado normal não! Aliás não sei qual é seu estado normal! Sabe por que? Acho um absurdo você ficar nua aqui no escritório. Principalmente na frente de Vanda! Ela é obrigada a ficar vendo você pelada? Coisa mais indecente! Não acreditei o dia que te vi pelada na frente dela! Ela não têm que aguentar isto não! Isto pode ser visto como assedio, viu! Acho isto totalmente ante profissional da sua parte.
- Você está me julgando? – Cássia perguntou se inflamando de raiva – Fico nua onde eu quiser! O escritório é meu e o corpo é meu!
- Certo! O corpo e o escritório são seus! Você pode até achar que pode ficar nua onde quiser, mas não dentro do escritório! Me ajuda, ai, né! Por que isto é, é... à moral! Acho ridículo se quer saber! Essa sua postura é uma vergonha! Até essa cama aqui no escritório é um desproposito! Por que tem que transar aqui? Aqui não é motel! Não tem seu apartamento? Que coisa mais sem lógica!
- Não acho que isto seja da sua conta...
- Ora mas se eu trabalho aqui, e você volta e meia está me arrastando para a cama é da minha conta sim! Tem hora para tudo. Ou você não sabe que tem hora para trabalhar? Tem hora para namorar e hora para ficar nua?
- É mesmo? Quem mais vai me julgar? Vanda? Meus irmãos? O mundo? Todos os advogados que souberem que eu não controlo meu desejo por você? Por que julgar meu comportamento é muito fácil, não é?
- Faça um favor a você mesma, tire está cama daqui e pare de andar nua na frente da sua secretária. Você não é louca, pense melhor no seu comportamento. Uma advogada séria agindo assim é no mínimo uma vergonha para a classe dos advogados... Eu, veja bem, eu quando me tornar advogada jamais terei um comportamento como este seu. Desleixado! Deselegante! Vergonhoso! Vexatorio! Incorreto! Vulgar! É vulgar você sabe, não é? Por que eu não senti tesão nenhum quando te vi nua na sala de espera...
- A droga da porta do escritório fica trancada! Os clientes tem que tocar o interfone para entrar...
- E daí? Mas porque que Vanda tem que ver sua bunda? Ora faça-me um favor, tenha modos, que coisa mais... Mais, ah ô, acho o fim!
- Deixa de ser chata Daniela! Quem é você para me dar lições de moral?
- Eu sou normal, está bom? Apenas isto! Agora vou embora por que estou cansada e não vou ficar aqui perdendo meu tempo com essa briga sem sentido...
- Você não vai sair daqui Daniela! – Respondeu barrando o caminho dela.
Daniela sentou na cama sentida. Aquelas brigas eram um inferno! Não sabia se iria aguentar viver daquele jeito.
- Daniela? Eu não queria brigar com você – Falou sentando perto dela e segurando seu ombro – Você sabe que fico louca de ciúme, não é? Às vezes nem me dou conta do que estou falando. Por isto acabo dizendo tantas bobagens. Mas quando você não está aqui morro de saudades. Nossa! Acho que você nunca falou tanto como falou agora. Se você não quer mais a cama aqui eu vou mandar tirar ela daqui – Prometeu erguendo o queixo dela e buscando sua boca com paixão. Daniela ergueu os braços enlaçando seu pescoço e caindo na cama com ela.
Numa rapidez incrível Cássia tirou suas roupas enquanto Daniela se livrava das dela.
- Não suporto brigar com você – Cássia confessou rasgando a calcinha dela.
- Ai... – Daniela gemeu quando ela abriu suas pernas passando a língua em seu sexo.
- Estava louca para te sentir – Cássia falou gemendo entre as pernas dela.
- Me sente...
A língua entrou deslizando enlouquecida na grutinha quente. Daniela girou o corpo mergulhando nela também. Juntas assim perderam-se uma na outra excitadas. Quando explodiram de prazer, Daniela aninhou-se nos braços dela confessando baixo.
- Não gosto quando você briga assim Cássia. Não brigue mais, por favor!
- Eu sei, desculpe! É que você não chegava e fui ficando ansiosa. Fiquei que não me aguentava, ai quando vi já estava te ligando e só falei besteira.
- Não olho para outras mulheres. Não precisa sentir ciúmes.
- Não olha é? Curioso isto você sendo lésbica. Quero dizer, nós lésbicas olhamos para uma mulher até sem perceber.
- Ainda estou me familiarizando com essa minha realidade.
- Sua orientação sexual Daniela. Quando mais rápido se aceitar mais feliz você será.
- Sim, andei lembrando de umas coisas ontem.
- Que coisas?
- Nunca gostei de brincar com minhas bonecas.
- Isto é clássico! Um dos maiores sinais.
- É. Li sobre isto.
- O que mais?
- Tive uma amiguinha na pré-escola que adorava. Não a largava. Detestava quando ela conversava com as outras alunas.
- Você a queria só para você?
- É isto mesmo.
- Está vendo?
- Vejo sim. Lembrei que fiquei aguada quando minha baba saiu para casar. Chorei semanas querendo que ela voltasse.
- Ainda bem que lembrou dessas coisas. Porque tem lésbica que fica perdida sem entender sua orientação. Não sabe porque gosta de mulher. Tem algumas que fazem analise por anos. E as que pensam que são doentes? Tudo por falta de esclarecimento ou mesmo por não se conhecerem profundamente.
A vida voltou a seguir. Daniela agora atendia alguns clientes adorando a nova fase no escritório. Mesmo que ela não fosse defender o caso, era ótimo pegar a causa e aprender a trabalhar nela. Cássia estava sempre por perto orientando e participando nas conversas dela com clientes novos. Ela se sentia protegida e segura quando isto ocorria. Depois Cássia lhe dava a liberdade de dar seguimento a um caso até o dia de irem a audiência com o Juiz. Então sentava lá acompanhando Cássia brilhar ganhando a causa. Sentia cada vez mais orgulho e admiração pelo trabalho dela. Em sua mente de admiradora, apostava com qualquer pessoa que ela era uma das melhores. Sua admiração era tamanha que não distinguia dos sentimentos que a cada dia aumentavam dentro dela. A admiração era tão forte, que chegava a se emocionar enquanto viajava nas defesas de Cássia diante dos juízes e juízas. Sentia vontade de aplaudi-la quando ela terminava suas defesas. No entanto se continha voltando emudecida com ela para o escritório. Logicamente bem no seu íntimo sabia que era um absurdo pensar que Cássia era uma das melhores advogadas. Ela era uma excelente advogada, essa era a verdade! Nada mais que isto.
Daniela era quieta por natureza. Não apreciava ir para as baladas como as moças da sua idade. Com seu jeito reservado, ainda estranhava aquela explosão que teve com Cássia pelo fato dela ficar nua no escritório. Aquela explosão tinha surpreendido a ela própria. Mas tinha surtido efeito, porque Cássia não apareceu mais nua na frente de Vanda e mandou retirar a cama do escritório. Agora elas dormiam no apartamento dela e só transavam lá.
Quando Cássia não exigia sua presença ou não a convidava para a cama, aproveitava o tempo livre para estudar. Aquela sede de saber aumentava a cada dia mais dentro dela.
Assim os meses passaram calmos e tranquilos. Cássia andava mais calma e menos ciumenta.
Embora Daniela ficasse pouco com sua família, sempre passava por lá para ver a mãe e os irmãos.
Ela nunca se sentiu tão mulher como se sentia agora. Sentia-se viva e profundamente apaixonada por Cássia.
Quatro meses mais tarde, aquela calmaria desmoronou numa sexta-feira quando Cássia a convidou para ir dançar numa boate gay. Daniela não queria ir. Assim como as crianças agem, ela chegou a emburrar para não ter que sair, mas não teve jeito, Cássia insistiu até que foram.
A princípio estava tudo bem. Beberam e dançaram algumas músicas. Nessa noite Cássia estava super animada, tanto que Daniela estranhou seu comportamento.
Enquanto dançavam Daniela percebia que ela olhava para uma ou outra mulher que passava perto delas. Seu coração começou a ficar apertado. Sabia que Cássia nunca tinha confessado o que realmente sentia por ela. Mas acreditava que ela sentia algo muito forte. Acreditava que como ela, Cássia também estava bastante apaixonada. Não sabia porque ela não falava sobre sentimentos, mas como também não era de falar dos seus, não cobrava nada neste sentido.
O que elas viviam era delicioso, especial e muito intenso. Praticamente moravam juntas. Dormia quase todas as noites no apartamento no centro da cidade com ela. Nem se quer estranhou o fato dela não ter feito questão de apresentá-la para o irmão e a irmã, afinal, também não quis apresentá-la para a irmã, para o irmão e para a mãe. Achava que a relação que elas tinham estava segura assim sendo um segredo apenas das duas.
Daniela nunca tinha pensando nessa coisa de segurança num relacionamento, provavelmente por nunca ter vivido nenhum. Aquele era seu primeiro namoro e sua primeira paixão. Era tão inexperiente, que aqueles olhares de Cássia para outras mulheres a deixaram completamente abobada e confusa.
O que ela sabia, a única certeza que tinha é que ali naquele lugar só lhe interessava Cássia. Nenhuma mulher lhe chamava atenção porque não conseguia deixar de adorá-la com seus olhos lindos e apaixonados.
Pararam de dançar voltando para a mesa. Cássia pediu mais uma rodada de drinques olhando em volta. Seus olhos vagavam por todas as mesas de forma curiosa.
Daniela chamou sua atenção perguntando incomodada.
- Está procurando alguém?
- Não! Só estou olhando as pessoas. Tem tanta lésbica que eu nunca tinha visto aqui. Como tem lésbica neste mundo.
- Não reparo nas pessoas – Respondeu acariciando a mão dela por cima da mesa.
- Sei que você não repara, mas admita que o que “é bonito é para ser visto.” Como que não vamos admirar a beleza das mulheres? – Cássia perguntou divertida.
-
- Você é tímida demais, deve ser por isto. Sente vergonha de olhar o corpo de uma estranha. Ora, mas tem cada mulherão que só se fossemos cegas. Não estou dizendo isto para você ficar olhando outras mulheres não, porque nem vou gostar se você fizer isto. Só estou comentando com você.
- Mas você está olhando o corpo de outras mulheres – Daniela comentou sentida.
- Eu? Claro que não estou olhando mulher nenhuma com desejo Daniela. Desejo só sinto por você querida. Entendeu?
- Entendi.
Só sente desejo por mim? Será mesmo? Se fosse não estaria comendo o corpo de outras mulheres com os olhos. Sem vergonha! Está agindo como uma sem vergonha. Não devia ter saído de casa. Estava adivinhando aquilo. Lógico! Algo em seu íntimo lhe disse para não sair e a prova disto estava acontecendo diante de seus olhos.
Cássia sorriu comentando com ela neste instante.
- Vou ao banheiro, não demoro!
Daniela suspirou olhando as próprias mãos. Bebeu distraída seu drinque. Não olhava para ninguém. Uns cinco minutos depois olhou para o relógio incomodada.
Uma moça apareceu neste momento pedindo seu isqueiro emprestado. Ela estendeu o isqueiro sem olhar no rosto dela.
A moça perguntou direta.
- A mulher que está com você é sua namorada?
Daniela olhou na direção do banheiro incomodada sem responder.
A mulher devolveu o isqueiro insistindo maldosa.
- Ela está demorando lá no banheiro não acha?
Desta vez Daniela suspirou profundamente perturbada com a presença da estranha ao lado dela.
- Não tenho nada com isto, mas você é bem novinha, não acho que conheça as sacanagens que rolam nos banheiros das boates. Nem tem fila lá na porta do banheiro.
Daniela olhou para ela neste momento com a expressão fechada. A moça sorriu piscando para ela.
- Você é uma gracinha!
- Não estou disponível! – Daniela respondeu impaciente.
- Nem sua namorada deveria estar!
Ao ouvir isto Daniela praticamente saltou da cadeira. Foi na direção do banheiro cega pela desconfiança que as palavras da mulher colocaram em sua cabeça. Nem precisou abrir a porta. Uma moça estava saindo. Diante da porta aberta, viu Cássia e uma mulher se agarrando num canto. Daniela não conseguiu se mover. Travou a porta com o pé numa atitude quase inconsciente.
Cássia estava com a mão de baixo do vestido dela. Via-se claramente que estava tocando nela de forma íntima. Elas se beijavam ignorando as mulheres que entravam e saiam dali.
A música estava alta demais para que pudesse ouvi-las, mas não conseguia parar de olhar completamente incrédula. Seu estômago começou a revirar. Ela se sentia para morrer. Mil coisas passavam por sua cabeça. Pensou em entrar e arrancar Cássia dos braços daquela mulher, mas se conteve.
Virou arrasada voltando para a mesa desolada. Sentou olhando em volta admirada. Casais de homens e mulheres dançavam animados. A alegria daquelas pessoas destoava completamente do seu estado de espírito. Estava aos arrastos! Estava mortalizada. Uma vontade de sair correndo dali tomou conta dela. Mas não saiu e nem se moveu. Viu algumas mulheres beijando na boca. Nas mesas os casais trocavam carícias ousadas.
O que era aquilo? Que tipo de lugar era aquele que as pessoas faziam intimidades na frente de todo mundo? Seu estômago embrulhava cada vez mais. O que estava acontecendo com ela? O mundo tinha acabado de desabar. Cássia não era apaixonada por ela? Só estava com ela por sexo? Desde o início ela só queria seu corpo? Nada além do seu corpo?
Continua...