Lógico que as crianças são influenciáveis e aprendem tanto com o que elas vêem quanto com o que elas ouvem.
A questão aqui é:
Como vou contar para o meu filho ou sobrinho que sou lésbica?
É possível contar sem chocar?
Para falar a verdade não acho que haja necessidade de contar nada.
Nós temos essa coisa de querer contar, querer revelar para que fique esclarecido e tenhamos tranquilidade com o que nos incomoda.
A questão da homossexualidade foi falada a primeira vez em minha casa quando na escola os meninos começaram a chamar um menino de boiola. Quando chegou a casa meu filho perguntou o que era boiola e expliquei exatamente assim:
- Primeiro não gosto desta palavra boiola, mas chamam de boiola um homem que gosta de outro homem. Ou seja, em vez de namorar com mulher ele prefere namorar outro homem. Na escola, os meninos fazem isto mesmo, eles criticam quando percebem que um menino gosta de meninos. Mas isto não é certo e espero que você não chame nenhum colega seu de boiola, nem de bicha e muito menos de viado. Cada pessoa é de um jeito e temos que aceitá-las como elas são. Tem homem que gosta de homem. Tem mulher que gosta de mulher. Homens e mulheres que gostam do mesmo sexo são considerados homossexuais. O que importa na verdade, é que eles são seres humanos como todos os outros. Você entendeu?
Ele ficou me olhando e disse que tinha entendido muito bem e que era feio então o que os colegas estavam fazendo ao chamar o menino de boiola.
Agora, será que se eu chegar para ele e falar:
- Eu não gosto de homem, gosto é de mulher!
O que será que ele vai pensar? Como vai reagir diante disto?
Tenho certeza que isto iria de certa forma chocá-lo.
Falar na carinha dele?
Chegar e falar que gosto de mulher?
Que sou lésbica?
Não vejo o menor sentido em fazer uma coisa destas com a pouca idade que ele têm.
Vocês acham que ele vai me amar menos se eu falar? Tenho certeza que ele não deixará de me amar.
Outro dia ele me falou que eu tenho que arrumar um namorado. Quase desmaiei de susto, mas aproveitei e perguntei para ele na maior traquilidade:
- E se eu não quiser arrumar um namorado? E se eu preferir arrumar uma namorada?
Sabe o que ele me respondeu?
- Ai eu não sei mãe, mas sei que cada um é que sabe do seu destino!
Balancei a cabeça e respondi divertida.
- Boa resposta! Cada um é que sabe do seu destino! Cabeça não foi feita só para usar chapéu, é para pensar mesmo.
"Se não sabes, aprende; se já sabes, ensina."
Confúcio
Assunto encerrado e ele não falou mais sobre isto comigo. Não sobre namoro.
O que acho bom para o futuro dele é dar todo o conhecimento possível. Por isto ensino tudo que posso sobre música, cinema, assuntos gerais de cultura, informática, leitura, boa educação, como tratar as pessoas bem e principalmente o sexo feminino. Ensinei que mulheres precisam ser muito bem tratadas, que precisam e gostam de carinho e sem temor mostrei a ele como as mulheres dão sorrisos lindos ao serem sempre elogiadas.
Quando vamos ao supermercado, as moças dos caixas ficam todas olhando para ele e dando sorrisos. A maioria delas o cumprimenta e ele dá abraços e beijos justamente porque é um menino muito carinhoso.
Ao mesmo tempo tenho o cuidado de sempre recomendar que ele não deixe estranhos tocarem nele de forma intima. Já expliquei que alguns adultos são pessoas que gostam de abusar de crianças e que ele precisa se proteger destas pessoas. Não estou criando um menino bobo e alienado. Explico tudo à medida que as situações vão acontecendo na vida dele. Não sou de ficar floreando. Explico a questão para que ele entenda, pense, assimile a e aprenda.
O vocabulário dele é muito rico. Usa no dia a dia palavras que nem eu costumo usar. Às vezes pergunta o significado de uma palavra nova que escutou na escola ou na televisão. Mas no geral assimila tudo muito bem. Noto que ele tem uma visão do mundo bem aberta.
Agora está passando por aquela face de querer tudo que os outros colegas tem. Chega em casa e pede como se fosse possível dar para ele todos os presentes de uma vez num só natal. Preciso sentar e conversar explicando que não dá para dar tudo. Que vai ganhando aos poucos. Que tem aniversário para ganhar presentes, o dia das crianças e natal. Às vezes ele entende na hora, de outras chora e reclama. As atitudes são bem normais como todas as crianças reagem.
Agora a questão de ter escrito este texto foi uma só. Não é de forma alguma anormal ser lésbica. É certo que vivemos num mundo cheio de preconceitos e de gente que odeia homossexuais.
Isto já começa a ser incutido na cabeça das crianças na escola quando elas passam a chamar os colegas de boiolas e as meninas de sapatonas.
Agora essas crianças não nascem sabendo essas palavras, elas aprenderam em casa ouvindo os pais, amigos dos pais e outros parentes se referindo assim as pessoas. É por isto que o preconceito nunca acaba. Quando uma criança vê o pai chamando outro homem de boiola ele repete essa atitude. Crianças são cópias do que presenciam. Até certa idade são papagaios que repetem tudo o que escutam dos pais.
Quando meu filho chamou um irmão dele de boiola tive uma conversa de mais de uma hora com ele. E ai ficou aquele papo de criança de jogo de empurra:
- Ele me chamou primeiro. Ai chamei também. E bla, bla...
Nossa! Tem que ter paciencia para essas horas, mas é extremamente importante sentar, conversar olhando no olho e fazer entender que não pode fazer isto não. Porque é errado atacar os outros. É feio atacar os outros. Cada pessoa que nasce neste mundo recebe um nome ao ser registrada em cartório. É por este nome que ela deve ser chamada.
Se o nome do menino for Carlos, é Carlos que ele se chama!
Não é Boiola, viado, gay, bicha, frutinha, engole rosca, nada disto!
O nome do menino é Carlos!
Se o nome da menina for Joana, é Joana que ela se chama!
No caso da menina não é sapatona, franchona, lésbica, homossexual, anormal, não é nada disto.
O nome da menina é Joana!
Se ensinarmos as crianças desde novinhas a respeitar as diferenças, aos poucos vamos minando o preconceito neste mundo. Temos que começar em algum momento a mudança. Ninguém fará por nós o que só nós podemos fazer.
Antes de qualquer coisa é preciso mudar as cabeças. É muito importante ver a homossexualidade como uma situação normal. Aprendam a se valorizar. Ninguém é anormal por ser homossexual.
A anormalidade está no preconceito e no julgamento das pessoas que não sabem que uma pessoa não muda em nada por causa da sua orientação sexual.
As crianças serão no futuro o que nós dermos de base para elas.
Ninguém nasce sabendo, por isto é preciso ensinar para que elas respeitem tanto homossexuais quanto heterossexuais!
Astridy Gurgel
"Quem assume sua verdade age de acordo com os valores da vida, mesmo enfrentando o preconceito e pagando o preço de ser diferente, passa credibilidade, obtem respeito e se realiza."
Luiz Gasparetto


obrigada amiga
ResponderExcluirbjs Ka
Oi Ka
ResponderExcluirPor nada! Apenas achei que te respondendo com um texto ficaria melhor. Beijos
Astridy