domingo, 26 de junho de 2016

Taylor Dayne - Love Will Lead You Back

Conto - Correndo Atrás do Amor! - Capítulo 04.


Rute entrou na galeria Netuno no dia seguinte ao meio dia. Pediu para falar com a gerente, sendo levada até ela.
Laura estava assinando alguns papeis concentrada. Ergueu a cabeça ouvindo o raspar de garganta vindo da porta da sala.
Ergueu a cabeça olhando-a fixamente. Sabia que ela viria. Tinha certeza absoluta deste fato. Mas não se importava. Não se importava com ela, porque sabia que era uma mulher fútil e sem a menor capacidade para fazer Paula feliz.
- Precisamos ter uma conversa Laura! – Rute falou entrando de uma vez na sala.
- Perfeitamente Rute. Sobre o que deseja falar?
- Quero que se afaste da minha mulher!
- Paula e eu somos amigas. Não permite que sua mulher tenha amiga? Você é tão insegura assim?
- Não é insegurança! Posso dar conta dela na cama sozinha.
- Oh querida! Não diga isto! Aliás, devia dizer isto para ela.
- Você é muito atrevida entrando na casa dela, usando suas roupas e dando pra ela feito uma vagabunda...
- Um minuto ai, porque me chamar de vagabunda pega mal para você. – Laura riu saltando da cadeira. – Essa parte foi ofensiva!
- E não dá feito uma vagabunda?
- Na cama você dá pra ela feito uma beata né Rute. – Comentou rodeando-a com um sorriso irônico. – Você agora é cheia de não me toques. Conheço seu tipo cheio de frescuras.
 - Vim apenas te dizer que Paula é minha! Nós vamos nos casar!
- Faço votos que casem mesmo. O casamento não me seduz, não preciso prender uma mulher a laço. Não estou sou desesperada como você.
- Ora sua atrevida! – Gritou erguendo a mão no ar.
Laura a olhou começando a rir do descontrole dela.
- Mas você é muito fora da realidade mesmo! E você é do tipo que bate? Desde quando? Ora faça o favor de sumir daqui sua maluca! Coisa que eu detesto é mulher que vive à custa dos pais.
- Isto é problema meu!
- Seu não, de Paula que vai ter que aguentar uma malandrona nas costas dela. – Comentou morrendo de rir.
- Se voltar a procurá-la eu...
- Você? Diga pelo amor de Deus! Estou com tanto medo do seu poder, da sua fúria, do seu soco poderoso! Não esqueça daquela liminar.
- Você não presta Laura. Sempre soube disto!
- Bom, acho que você vai casar com Paula sim! E desejo que sejam muito felizes! Agora vai correr trecho, vai sua dondoca metida à besta!
- Ah, e você pode muito falar de mim, não é! Sei viu Laura!
- Querida! Eu acordo em geral às cinco horas da manha. Começo cedo à labuta. Não tenho tempo para saracotear em Shopping Center o dia todo não! A vida é dura filhinha!
- O que você diz não me atinge! Só deixe Paula em paz! Nós seremos felizes juntas, só me deixe ter uma vida com ela.
- Hum, falando assim, estou até sentindo pena de você Rute. Então boa sorte com o seu casamento, com a sua mulher, com tudo que você tem direito. Adeus!
- Adeus! – Respondeu saindo furiosa da sala dela.
        Paula foi até a casa de Laura por quatro vezes naquela semana. E mais três vezes até a galeria. Porém, foi somente duas semanas mais tarde que a reencontrou. Laura tocou a campainha em sua casa às onze da noite. Justamente numa terça-feira. Passou por Paula entrando e indo direto até a geladeira.
De lá perguntou alto.
- Não está acompanhada, está?
Paula surgiu na porta olhando-a com adoração.
- Sabe que estou sozinha. Estou cansada de viver tão só. Pensei que você soubesse.
- É um ponto de vista. No seu lugar mudaria isto. Por que não trás a filhinha de papai para te fazer companhia? Ela não vem mais dar para você?
Passou por ela indo para a sala. Jogou-se no sofá dando um suspiro de prazer. Bebeu um longo gole da cerveja e voltou-se para ela com um olhar de pena.
- Por que se martiriza? Mude sua vida e seja feliz Paula.
- Não entendo como consegue ver a vida neste prisma.
- Viver... Viver é a única solução. O que você estranha em mim? Não entende como posso optar pela solidão, é isto? Pois tenho uma consciência bem realista quanto a isto. Quero dizer que só faz bem a mim o que me faz feliz.
- Este desprendimento com relação aos compromissos torna você diferente de todas as outras mulheres que rezam para encontrar um relacionamento duradouro e constante.
- Mas tenho uma parceira constante. - Riu admirada - Você, lógico!
- Se eu mudar minha vida não terá mais está liberdade...
- Por quê? Vai se casar com uma mulher doente? Por Deus, não desejo te roubar de ninguém. Será que precisa complicar tanto sua vida? A mim não incomoda o que deseje para sua vida.
- Acredita que alguém no seu estado normal entenderia suas visitas escassas? – Paula perguntou sentida.
- Nosso corpo é como um relógio. Ele é o único que pode dizer qual é a hora de dormir, de comer e de amar. Venho quando necessito de amor. Entendo meus desejos profundamente. - E se ergueu abraçando Paula. - Não tente me mudar! - Pediu em seus lábios.
- Jura que aquela loira é sua prima?
- Mara? Sim, uma prima muito bobinha que me tomou muito tempo. Sentiu ciúmes? Ah Paula, não sou de ficar pegando as mulheres por ai não. Nem tenho tempo para isto.
- Você não sente ciúmes? - Perguntou agarrando os ombros dela com raiva. - Não lhe dói que eu pense em viver com outra?
- Não me dói não. – Falou sorrindo nos lábios dela. – Queria que eu me matasse desesperada? Por quê? Sei que você vai continuar me recebendo. Se eu não vier vai louca atrás de mim.
- Mas acha certo? O que tenho que fazer para que entenda? Não desejo esta vida insegura. Por que não vem viver aqui? Pode ser livre e tudo ficará bem.
- Você não me ama. - Respondeu se afastando. - O amor é o único motivo real que nos força a mudar nossos sonhos. Se você pensa em trazer outra é porque só deseja cobrir o vazio que sente. Não vai conseguir Paula. Não é assim, é bem mais complicado do que isto. Você acredita que pode escolher entre eu e a sua dondoca fora da realidade?
- Não sei se posso escolher não, você está certa. Quem escolhe é o meu coração. O que sabe do amor Laura?
- Sei tanto que te magoo. - Riu puxando-a para o sofá. - Não me entende não é? Mas me perdoa. Você me perdoa, não perdoa?
- Você é a minha loucura. Nem consigo sentir raiva por muito tempo. Não sei por que nossos caminhos se cruzaram. Eu queria tanto que fosse diferente do que é. - Gemeu entre os lábios entreabertos - Muda por mim Laura... Por favor...
- Não sabe o diz... Não sabe mesmo. – Laura sorriu empurrando-a para o sofá. Tirou as roupas dela e as suas com um brilho intenso nos lábios. Então deitou sobre ela roçando seus sexos excitados.
- Eu vim buscar prazer, você me dá?
- Dou Laura.
- Então abre as pernas. – Pediu se afastando encantada. – Adoro quando você se oferece para mim.
- Laura você não presta, sabia? E eu quero te dar uma vida digna! Quero te dar segurança, uma casa...
- Eu não presto? Tudo bem! Mesmo assim quero que me dê seus gemidos...
- Você nunca fala sério? – Paula perguntou agitada.
- Estou falando agora. – Ela riu abaixando e entrando entre as pernas dela. – Abre que eu quero te chupar. Quando você goza na minha boca eu sinto segurança.
- Ai Laura eu quero conversar agora...
- Quer? – Ela perguntou estremecendo naquele instante. Seus dedos escorregaram para dentro do sexo quente sem parecer ouvi-la.
Paula gemeu sentindo o desejo invadi-la sem poder controlar mais.
- Ai... Você não tem jeito Laura...
- O que você quer é sexo!
- Não é só...
- Ah, eu te mostro. – Laura saltou do sofá correndo até o quarto. Voltou com o óleo na mão.
Paula a olhou excitada, passando a língua nos lábios.
- Vem cá. – Laura a puxou fazendo-a virar de costa para ela. – Sabe como eu gosto e vai me dar.
- Aí eu dou...
- Não quero conversa agora. Quero seus gemidos, quero seu prazer, quero seu gozo, sua safadeza, quero tudo que você guarda para mim.
Laura estava passando o óleo desorientada. Então ajeitou atrás dela, começando a possuí-la lentamente.
- Aí...
- Você dá assim para ela?
- Não vamos falar de outra mulher. – Paula pediu mexendo-se sensualmente para ela.
- Então depois você vai falar.
- Depois eu falo. Aí...
- Rebola gostosa. Rebola e sente como te como com prazer...
- Você é uma tarada... Safada... Cachorra...
- Sou sua cachorra sim! A mais safada! A que você come na hora que quiser. Vou gozar em cima de você. Vou te ensopar com meu gozo...
- Aiiiiiiiiiii...
- Adoro seu gemido...
- Mais rápido, vem...
- Ai gostosa vou gozar agora.
Gozou mesmo e com uma rapidez incrível fez Paula deitar caindo de boca no sexo dela. Chupou-a enlouquecida até que ela gozasse intensamente para ela.
Laura subiu deitando ao lado dela. Abraçou-a perguntando meiga.
- Foi gostoso para você? Eu te machuquei Paula?
- Foi uma delicia. – Falou rindo feliz – Você nunca me machuca. É delicioso como você me pega.
- Então agora me conta. A filhinha de papai gosta assim?
- Eu não sei Laura. Nunca fiz assim com ela.
- E tem vontade de fazer?
- Bem, para ser sincera já pensei nisto.
- Ela não vai deixar! – Laura comentou rindo
- Ora, porque diz isto? – Perguntou voltando-se admirada.
- Paula! Não seja boba! Mulher a gente conhece só de olhar. Não é qualquer mulher que faz isto. Muitas mulheres são travadas, cheias de grilos e vergonhas. Elas podem até querer, mas elas costumam ver isto de uma forma meio machista, como se fosse uma coisa que só os homens podem fazer na cama. Sexo é fantasia, é criatividade, é prazer, odor. As sensações dependem muito da entrega completa. Se não relaxar totalmente não consegue ter o máximo do prazer que se pode ter nesta hora.
- Sim, tem um pouco de verdade nisto. Mas na cama só dá para saber se...
- Então depois que você tentar me conte se ela deixou.
Laura não conseguiu parar de rir e Paula não entendeu a razão.
- Acho que não vou querer assim com ela não.
- Bom, se você morar com ela Paula, na cama vale tudo, não se esqueça.
- Sabe o que me deixa triste?
- O que Paula?
- Você não sente ciúme! Isto acaba comigo! Como pode me dizer para comer outra mulher de quatro?
- Ora! Só disse que ela não vai dar assim pra você. E você transa com ela há mais de um ano. Não falei nada demais. Faz mais de um ano e vocês ficam só no básico? Desculpe Paula, mas deve ser bem monótono com ela.
- Monótono ou não, se você me amasse sentiria ciúmes.
- Não sou este tipo de mulher!
- Ah ta! Vou tomar um banho e deitar. Espero-te na cama. Que coisa mais absurda, meu Deus! – Falou indo aos resmungos para o quarto.
Laura estendeu o corpo no sofá dando um sorriso triste. Era absurdo sim, que ela namorasse com aquela Rute insuportável.
Aliás, seria até capaz de engolir qualquer outra mulher, mas aquela Rute? Tinha uma cisma daquela mulher que não aguentava nem olhar na cara dela.
Conhecia aquela nojenta desde que era criança. Achou bem curioso quando ela fingiu não conhecê-la no dia que cruzaram ali. Conhecia o jogo dela. Ela era esperta fingindo não conhecê-la. Ela sabia que transava com Paula e fazia vista grossa.
Paula, no entanto era muito ingênua e crédula. Não tinha percebido nada. Não tinha percebido que as duas se detestavam, por isto não conversaram nada além daquele comprimento inicial.
Quando entrou no quarto, Paula estava deitada de costa. Laura deitou ao lado dela. Enlaçou sua cintura e ficou quieta assim até adormecer.

Paula acordou na manhã seguinte sozinha. Laura já tinha saído. Sentou na cama com raiva e viu uma calcinha sobre o travesseiro ao lado. Pegou e viu algo escrito de batom. Abriu-a mais para ler direito. Laura tinha escrito na peça íntima.
- Eu te entendo e te amo, Paula.
Atirou a peça longe. Se fosse verdade por que não ficava? Por que não vivia com ela?
Foi para o banheiro e logo para sua a empresa.
        Mesmo pensando seriamente em assumir um compromisso com Rute, Paula não se decidia. Bastava que ela vir com aquela conversa sobre conhecer os pais e dava para trás.
Laura não dava a menor importância para aquelas coisas. Sua mãe morava na cidade e nem sequer mencionava seu nome. Laura não fazia pressão e nem tentava convencê-la usando a família. Dizia logo não e até aconselhava para que encontrasse outra mais disposta. Mas se a amava porque não desejava ficar junto? Não entendia aquela mulher. Começava a sentir coisas que jamais sentiu por outra. Estava meio louca e sem paciência com Rute. Até sabia com quem desejava transar e com quem desejava morar. Não era com Rute. Quanto a isto estava mais do que certa a cada dia.
Ver Laura, no entanto não era mais uma tarefa fácil. Agora passava mais vezes pela galeria. Só que era difícil encontrá-la. Só dias depois do último encontro que a encontrou. Estava saindo da galeria quando trombou nela. Laura sorriu abraçando-a com força. Beijou o canto de sua boca com um sorriso cúmplice.
- Não aguentou esperar?
- Como vou saber quando vai resolver aparecer? – Paula perguntou ansiosa. - Não recebe meus recados? Se pelo menos me ligasse ou...
- Não fique nervosa, detesto telefones e detesto compromissos. Conhece-me tão pouco? Sei o que deseja quando me procura. É só que nem sempre desejo o mesmo ou não estou disponível. Eu dou um duro danado nesta galeria.
- Você é tão egoísta assim? Tem que ser só quando você quer? Que inferno Laura!
Paula gritou chamando atenção dos empregados da galeria e também de algumas pessoas que passavam. Laura encostou-se ao marco da porta erguendo uma sobrancelha.
Pensou e falou tranquila.
- Vamos deixar de nos ver. – Laura falou e saiu andando.
Simples e só. Entrou na galeria e Paula ficou sem fala. Alguma coisa ruiu dentro de seu peito.
Quando deu por si era tarde. Aconteceu que perdeu a paz depois deste aquele momento. Não conseguia nem conversar com Rute normalmente. Não conseguia trabalhar normalmente. Não conseguia fazer nada normalmente. Só conseguia pensar que espécie de amor Laura poderia sentir.
Eram tão simples as coisas para ela! Não compreendia porque a fazia sofrer tanto.
Dois meses haviam se passado e não mais conseguiu falar com ela. Porque conversar até conseguiu nas duas vezes que a procurou, mas nada íntimo. Laura estava sorridente. Sem qualquer ressentimento. Parecia até que aquela separação melhorou sistematicamente toda sua vida. Estes encontros deixaram mágoas profundas em Paula, tanto que ao final dos dois meses decidiu se separar de Rute. Se não bastasse toda a sua dor, foi obrigada a suportar a revolta de Rute. Também isto não foi tão importante. Logo ela desapareceu se conformando diante da frieza de Paula.
Paula vivia uma fase nova. Há quatro meses separada de Laura sua vida era monótona e vazia. Todos os encontros ou tentativas de voltar foram um grande fracasso. Isto a fazia repensar sua vida e seus valores.
Um dia, do nada, cruzou com Laura quando saia de um restaurante. Seu coração disparou quando Laura sorriu abertamente.
- Adoro quando nos encontramos assim Paula. - Confessou segurando o braço dela. - Gostaria de tomar uma cerveja, tem um tempo?
- Vamos agora para minha casa, eu... Nem acredito... Vai mesmo tomar algo comigo?
Laura olhou-a do jeito que olhava quando algo lhe parecia incompreensível, mas logo pareceu entender e sorriu novamente.
- Estaremos muito bem naquele bar. - Respondeu apontando para um Scot Bar em frente. - Como vai indo com sua namoradinha? - Perguntou num tom carinhoso. - Gostaria de ser como ela desejando o conforto e a paz de um lar, mas não nasci para esta carreira. Sinceramente admito as mulheres que renunciam a tudo pela segurança de um casamento e por outro lado morro de pena delas.
- Terminei com Rute! - Respondeu enquanto atravessavam a rua.
Laura se voltou para ela com um olhar misterioso. Balançou a cabeça e entrou no Scot Bar na frente. Paula ajeitou-se ao lado dela. Pediu uma cerveja e um uísque. Ofereceu cigarros a ela. Quando foi acender sua mão tremia descontroladamente.
Laura percebeu o tremor e desviou os olhos tragando com vontade.
- Ouviu quando contei que terminei com Rute? - Perguntou tocando o braço dela.
- Sim. Ouvi.
- Me dei conta que tudo estava errado. Você me deixou e me perdi. Não sabe como ando arrasada. Tentei tantas vezes te encontrar e nada. Por onde anda? Penso tantas coisas, enlouqueço imaginando que tem outra. Eu não vejo a menor graça na vida depois que acabou entre nós.
- Seus negócios vão cada vez melhor pelo que sei. É bom que tenha o trabalho para compensar. Nem sempre se pode ter tudo.
- O que tenho que fazer para que me perdoe e volte para mim?
- Talvez esteja mesmo meio louca Paula. - Riu balançando o copo e mirando o líquido amarelo da cerveja. - Está falando bobagens...
- Como? Esqueceu que me sentou o pé no traseiro? - Perguntou virando-a com força para si. - Quer que eu enlouqueça? Não assume e ainda ri de mim? Tenho vontade de dar uns gritos para que acorde e veja o que está fazendo comigo...
- O que foi que eu terminei? - Perguntou soltando seus braços sem esforço. - Sabe me dizer do que esta falando?
Paula ficou confusa. Estariam falando a mesma língua? Ou seria aquela mulher tão louca que nem se recordava de nada?
- Você terminou comigo e desde então não consegui mais me aproximar.
Laura riu e seu riso nunca foi tão íntimo e provocante. Seus olhos brilharam intensamente e ela falou muito calma.
- Não terminei com você. Disse que iríamos deixar de nos ver. Justamente por isto, porque você esta se descontrolando. Tenho consciência que este tipo de incêndio não posso apagar. - Gracejou suavemente. - Não vou transar com você e ficar mais de uma noite. Tenho que ir. Minha vida é cheia de lutas. Realizo-me com o que faço. Se você aceita assim fica tudo bem, mas se começa a cobrar o mundo eu me afasto. Só desejo que recobre seu controle. Pode me entender?
- Você é louca Laura!
- Se não me entende jamais poderá me amar. - Murmurou baixinho olhando-a no fundo dos olhos. – Você vai entender caso encontre o amor verdadeiro. O amor não é está doença que está sentindo. É algo bem mais intenso e sustentável. Toda loucura desenfreada é uma doença.
- Está dizendo que ficaria feliz se eu te amasse? Mesmo que seja como é, ainda deseja que eu te ame Laura?
- E porque não? Amo você e não te cobro nada.
- Você me ama? Que espécie de amor é este seu? Certamente é um o amor livre e sobre humano! - Criticou furiosa. - Não acredito que você saiba o que é o amar!
- Aceito plenamente o que pensa. Também tenho muitas dúvidas. Ser humano significa ser imperfeito e eu sou toda imperfeita.
- Laura, por favor, me leve a sério! - Pediu com os olhos cheios de lágrimas. - Me deixe ter você como sonho. Eu imploro que me deixe ficar ao seu lado.
- Se você chora me faz sofrer. - Confessou acariciando o rosto dela. - Vamos a algum lugar solitário. Vai ver o quanto te necessito, mas precisa ver mais além. O sexo é muito pouco diante dos meus sentimentos.
- Ah, se você me visse por dentro Laura...
Laura ria mansamente. Já a conhecia por inteiro. Sabia como era e a queria diferente.
Pagou a conta e levou-a a um motel. Amou-a com todo o seu ser, depois foi embora. Paula ficou com os olhos cheios de lágrimas. Laura acreditava que ela iria entender algum dia. Estava feliz e completa naquele momento. Isto Paula não conseguia entender.
Continua...

sexta-feira, 24 de junho de 2016

She - Elvis Costello (tradução)

A Portuguesa. - Capítulo 41.


Telma e Leonor fizeram amor assim que acordaram. Depois tomaram banho juntas. Tomaram o pequeno almoço num clima de romance delicioso. Telma comentou sobre o dia cheio que teria pela frente perguntando para Leonor:
- Vais querer que eu te deixe na tua casa ou vais para outro lugar?
- Não, vou para a minha casa. Hoje só tenho a audiência do encerramento do julgamento, daquele homicídio, à tarde. Por sinal, um daqueles complicados porque a arma do crime não foi encontrada até hoje. A Minha sorte é que até aqui a juíza Wilma Arrais tem-se mantido imparcial. Ela não faz parte do teu grupo de amizades? Pelo menos ela estava presente ontem no lançamento da vinícola.
Telma deu um sorriso concordando com a cabeça, depois disse simplesmente.
- Pois estava, é uma ótima juíza. Justa, amistosa e respeitada.
- Concordo contigo, sempre foi muito amável comigo. No geral tenho sorte com as juízas e os juízes que julgam os meus casos. Entretanto, tu és a minha juíza predileta.
- Obrigada. E tu és a minha advogada preferida. Agora admiro-te ainda mais, e não necessito entrar em pormenores sobre as minhas razões. Pronto, está a ficar tarde. Vamos andando?
- Sim, é claro.
- Entretanto, antes, dá-me um beijo daqueles que me deixam a pensar em ti todo o dia.
Beijaram-se saindo sorridentes. Entraram no carro após o motorista abri-lhes as portas.
Telma, encantada com a pessoa de Leonor não reparou no carro estacionado do outro lado da Rua. O vidro fume fechado não permitiam a visão no interior do mesmo. Logo que o carro da juíza dobrou a esquina o outro carro passou a segui-lo mantendo uma distância considerável para não ser detectado.

         Sofia saiu dos braços de Bruna às oito da manhã, comentando assustada.
- Perdemos a hora, amor!
Bruna sorriu sentando na cama ainda sonolenta.
- Bom dia, querida. Voltamos tarde para casa e você estava em brasa, o que esperava?
- Então? Pensastes que porque bebi demasiado vinho não faria amor contigo? Já me conheces muito bem. Anda cá, temos que tomar banho. Já lá vou para ganharmos tempo.
- Poxa, não vai me dar nem um beijinho?
- Pois vou.
Sofia respondeu sorrindo enquanto voltava até à cama. Beijou-a longamente afastando-se de vez.
- Pronto, já está. Bom dia com beijo sabe melhor. Ainda tenho que passar em casa para vestir a farda.
- Então vamos logo cuidar deste banho.
Logo que entrou em casa trinta minutos depois, Sofia deu de cara com Carmo. Percebeu o olhar furioso da mãe só de olhar para ela.
- Bom dia, mãe! Está tudo bem com a senhora? E o tio? Está a suportar bem as sessões de quimioterapia? 
- Estou bem na medida do possível. O Teu tio está internado, passando mal com as sessões. Como era lógico que seria, afinal, quem suporta bem sessões de quimioterapia? Entretanto, tu nem parece que te importas. Voltastes de férias e sumistes de vez desta casa. Isso assim é que não dá. Tu deves de ter virado a cabeça por alguém porque já não te justificas.
- Há é? Está bem, olha, gostava de ficar a conversar com a senhora sobre estes pormenores, entretanto, necessito trocar de roupa para correr para o trabalho.
- Pronto, anda, vá.
- Ah, a tia Fátima? Está bem?
Quis saber voltando a encarar a mãe.
- A Fátima dormiu no hospital. Voltou às seis da manhã e está a descansar.
- A tia vai para o hospital hoje de novo? Assim vai ficar estafada. Hospitais são por demais esgotantes. Tiram a energia de uma pessoa.
- Não, hoje vou eu. Estamos nos revezando. Por que não vais tu lá dormir uma noite com o teu tio também? Assim descansamos eu e a tua tia. Não te esqueças de que ele é teu tio.
Ana Sofia ficou parada encarando a mãe. Naquele momento quis falar tudo o que lhe passava pela cabeça. Mesmo detestando a ideia de chegar atrasada no trabalho, respondeu direta:
- Achas? Eu até faria isto pela tia, isto se o marido dela merecesse. Para mais, a senhora tem mais é que cuidar do Artur.
- Eu, por que eu? A Fátima é que é a mulher dele ela é que tem que...
- Pois é, mas a senhora é amiguinha dele, não é?
- Amiguinha? Que história que é essa?
- Entenda como quiser. O facto é que eu não posso ajudar neste sentido.
- Não podes por quê? Onde é que andas a dormir?
- Está a faltar alguma coisa nesta casa?
- Que disparate que é este? Não falta nada e o que tem uma coisa tem a ver com a outra? Ainda para mais essa história de amiguinho vem a ser o quê, Sofia?
- Desculpa, mas estou atrasadíssima.
- Não podes continuar fazendo só o que te apetece. Não me vires às costas! Quando voltas para esta casa?
Sofia não respondeu. A cama da Catarina estava feita, sinal que já devia ter ido trabalhar. Vestiu a farda correndo para pegar o comboio.

         Bruna parou na recepção cumprimentando a secretária. Outras funcionárias passaram dando bom dia para ela. Após conversar com a moça seguiu para sua a sala, mas parou quando ela falou:
- Senhora? Permita que te fale por num instante? Posso?
- Sim, é claro! Algum problema que não me relatou?
- Aquela mulher brasileira continua vindo todos os dias aqui.
- Você a deixou entrar na minha sala?
- Não deixei, mas ela insiste todas às vezes. Ainda bem que voltou. Já estava a ficar perturbada com essa situação.
- Como te falei antes, ela não tem nada que fazer aqui. Só está querendo meter o nariz onde não foi chamada. Pode ficar descansada, vou cuidar deste assunto.
Assim que entrou na sala, Bruna pegou o telefone ligando para Alberto, o presidente da companhia no Brasil.
- Olá, Bruna! Como foi a viagem para a Ilha da Madeira? Lá é tão lindo quanto comentam?
- Olá, Arnaldo! Tudo bem, obrigada. Sem sombra de dúvidas é um lugar paradisíaco. Vou te enviar algumas fotos pelo Whatsap. Lisboa também é maravilhosa, você precisa visitar. Se decidir vir faço questão que fique hospedado na minha casa.
- Oh, muito obrigado, aceito sim! Mande logo as fotos. Preciso dar uma parada para viajar com o meu namorado. Ele não se cansa de reclamar que a minha vida é só trabalho. Você sabe como são as pessoas hoje em dia, pensam que tudo é muito fácil. Eu que não mantenho o pé no acelerador para ver como esta companhia perde o rumo.
- Não cheguei a conhecer este seu namorado. Ele é muito novo?
- Tem quarenta em oito anos, uma idade que eu aprecio muito. Meus namoros com homens mais novos nunca deram certo. Cansei de “dar murro em ponta de faca.” Você ainda está sozinha ou conheceu uma portuguesa por aí?
- Ah, tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo de te contar. Conheci uma portuguesa e apaixonei-me perdidamente. Eu que nunca fui de ter paixões fulminantes, veja só, estou de quatro por ela. Estou até pensando em casar, sabe como é, morar junto primeiro. Damos-nos muito bem juntas. Confesso que estou muito feliz.
- Eu sei, eu sei, morar junto é bom para se conhecerem bem. Depois você casa porque vou te falar, casamento é o ideal. Eu firmei o pé com o Guilherme. Ele tem me feito muito feliz.
- É muito bom saber disto. Se você vier vai adorar.
- Sim, vou ver as fotos que vai me mandar e pensar sobre o assunto. Recebi o relatório do desempenho da fábrica e fiquei muito satisfeito. Você está fazendo um excelente trabalho por aí. Meus parabéns! Comentei com a sua madrasta, ela ficou orgulhosa por saber.
- Muito obrigada, faz alguns dias que não falo com a Sandra. Quanto ao desempenho da fábrica te garanto que pretendo melhorar. Você sabe, renovei toda a linha de produção. As máquinas estão a todo vapor.
- É assim que eu gosto de ver o negócio andando.
- Sim, eu também. Eu queria saber se você considerou que eu reavalie algumas demissões que fiz quando assumi aqui. Com a produção nas nuvens acabei por necessitar de novas funcionárias e quero recontratar algumas que dispensei.
- Considerei sim, Bruna. Como te falei antes, você tem carta branca para tomar as decisões que achar necessárias para o bom andamento da fábrica. Ainda mais depois deste relatório.
- Obrigada, fico aliviada por saber disto. Tem mais uma coisa que preciso te falar.
- Pode falar.
- A Flor está aqui.
- A Flor? Ora, mas pelo que fui informado ela iria viajar pelo Brasil.
- Pois é, mas desembarcou aqui. Tem vindo diariamente à fábrica. Não vejo razões para ela andar vindo aqui. Se eu quisesse ver a cara dela teria ficado no Brasil.
- É lógico. Pode deixar, vou conversar com a Sandra e depois te dou um retorno.
- Eu também vou ligar para a Sandra.
- Faça isto! Qualquer problema é só me ligar. Bom trabalho! Até logo!
- Até logo!

Às duas horas da tarde Sofia chegou ao Tribunal onde encontrou Teresa, Berenice e Idalina. Cumprimentou as duas voltando-se para a mãe delas.
- Dona Idalina? Não sabia que viria! Queria tê-la encontrado na Madeira, mas não calhou.
- Olá Sofia! Pois eu sei, a Fátima contou-me que tu estavas muito ocupada com a tua namorada.
- Foi isso mesmo. Veio apenas para a audiência?
- Não, eu vou hospedar-me na casa da Teresa. Vou também visitar a prima das tuas tias. Já há um ano que não a vejo. Tenho saudades das meninas.
- Ah, claro! Terá tempo para dar uns passeios pela cidade.
- Nem tanto, vou aproveitar também para visitar o Artur, além das compras que sempre faço quando venho a Lisboa. Gosto de ver as novidades.
- A mãe ama fazer compras nos shoppings de Lisboa. Como eu! Agora sei a quem puxei.
Berenice comentou sorrindo divertida. Sofia percebeu que Teresa estava mais séria do que o habitual. Voltou os olhos para a direção onde ela estava a olhar, vendo o Joaquim chegando em companhia de Graça e do advogado.
- Aquela é a tua amiga com o Joaquim?
Berenice perguntou e a expressão do seu rosto mudou completamente.
- É a minha amiga sim. Também é amiga dele.
- Ha, pois, pensei que ninguém ficaria do lado de um agressor de mulheres.
Aconteceu que Teresa, Sofia e Idalina nada disseram sobre aquele comentário da Berenice.
Sofia pediu licença para as três, indo cumprimentar Joaquim. Aproximou dando um abraço nele. Joaquim era mesmo bonito. Os cabelos eram compridos e estavam amarrados. Usava um terno, que Sofia admirou, pois sempre o viu com roupas joviais. Usava normalmente calça de ganga e camisetas. Calçava tênis ou sandálias. Era o tipo atraente que chamava a atenção das mulheres pelo seu porte físico.
- Tudo bem com você, Sofia?
Ele perguntou desviando os olhos da esposa.
- Tudo bem sim, obrigada. Tudo bem, Graça?
- Tudo bem, Sofia!
- Que bom que estás aqui apoiando o Joaquim.
- Não há de ser nada. Estou muito confiante que tudo vai correr bem.
- Também eu espero que corra tudo bem. Ao menos que o juiz entenda que tu não quiseste magoar a Berenice, que foi apenas um momento que perdestes a cabeça.
- Não Sofia, eu não fiz nada a Berenice. Quando entrei em casa ela já estava magoada.
- Não percebi. A Teresa não me falou nada disto, Joaquim. O que estás a dizer?
- A Teresa não quis me ouvir. Para agora não tenho outra escolha se não usar a única prova que eu tenho.
- Prova?
- Sim, prova.
- Ah, então se tens uma prova fico feliz por ti. E aliviada, claro.
Sofia comentou imaginando que prova seria aquela.
Foram chamados naquele momento para a audiência. Entraram e não havia como negar a tensão crescente no ambiente. Aquela sessão poderia ter se alongado, mas não haveria porque, afinal a prova de Joaquim era tão contundente que deixou a todos os presentes naquela sala de olhos fixos nos vídeos que o advogado dele apresentou em sua defesa.
Joaquim ficou desconfiado que estivesse levando os cornos da esposa, e para ter a certeza instalou duas câmeras em sua casa. Sem saber da existência delas, Berenice seguiu traindo-o descaradamente.
Teresa segurou a mão da mãe quando percebeu a tristeza dela ao assistir Manuela e Berenice tendo uma briga violenta. Joaquim nem estava em casa quando as duas tiveram aquela briga, que segundo o áudio do vídeo, aconteceu por ciúmes. Tanto ciúmes de Manuela por Berenice ter relações sexuais com o marido, quanto da parte de Berenice com ciúmes da Manuela ter relações com a Teresa.
O juiz deu-se por satisfeito retirando a acusação contra Joaquim. Berenice que não sabia daquela gravação mal teve coragem de erguer a cabeça. A verdade estava toda ali para quem quisesse conferir. 
Encerrada a audiência Joaquim tratou de deixar a sala de cabeça erguida como tinha entrado. Teresa falou baixo para a mãe.
- Tenho que voltar para o trabalho. À noite conversaremos, está bem?
- Sim, filha. Bom trabalho.
Idalina abraçou-a dando-lhe um beijo no rosto. Sussurrou baixo em seu ouvido carinhosamente.
- Não permitas que o que viste aqui te devaste. Tu és muito melhor do que toda essa imundice. Vais superar tudo isto e eu vou ajudar-te.
- Obrigada, mãe! Até logo!
- Até logo, filha!
Teresa adiantou-se sem despedir-se de Berenice. Aproximou-se de Joaquim já do lado de fora. Sofia estava ao seu lado.
- Joaquim? Eu não fazia ideia, sinto muito por ter me recusado a atender as tuas ligações. Mesmo quando me procuraste reagi muito mal. Acho que não tem como me perdoares. Aquilo que eu assisti lá dentro foi execrável, uma prova de que andei dando muito de mim para quem nunca teve a menor consideração pelos cuidados que tive com a vossa família.
- Não, Teresa, por favor, não penses assim. Tu ajudaste a cuidar dos meus filhos e isso não tem preço. Toda a tua dedicação, fica ciente que nunca irei esquecer. Eu não tenho nada que te  perdoar. Tu como eu foste envolvida num emaranhado de mentiras. O meu casamento com a tua irmã estava acabado. Não percebi, mas, certo de que algo corria mal instalei aquelas câmaras. Eu nunca fui um mau marido. Nunca fui um mau pai. Só fui parvo a ponto de levar um par de cornos por tanto tempo. Nem sabia que a Berenice gostava de mulheres. Fiquei chocado! Juro que pensei que ela me traía com um homem. Agora, com a tua namorada? Isto nunca me passou pela cabeça.
- É Joaquim, errei muito contigo, é só o que consigo assimilar. A Graça esteve sempre a defender-te e eu, burra, não lhe dei ouvidos. Até a Sofia duvidou o tempo todo que tu fosses capaz. Eu, confesso, estou desolada com a minha inflexibilidade. Não quero falar mais, só quero que saibas que estou a morar sozinha e gostava muito que fosses à minha casa quando quiseres. As duas causaram muitos estragos, mas não pretendo deixar que este dano continue desestabilizando a boa amizade que já tivemos. Gostava de a continuar se não for muito tarde.
- Nada vai estragar a minha amizade contigo. Irei com muito gosto conhecer a tua casa. A Graça contou-me que está mesmo linda.
- Contaste-lhe? Não sabia.
Teresa perguntou sorrindo para Graça.
- É contei. Espero que não te importes.
Imaginou se ela teria contado também do que andaram a fazer dentro do carro.
- Não, claro que não. Preciso voltar para o trabalho. Vemo-nos depois então. Tu vens comigo, Sofia?
- Claro! Joaquim? Espero rever-te na casa da Tereza.
- Nos veremos sim, Sofia.
- Até logo, Graça, Joaquim. Nos vemos.
- Até logo!
Assim que afastaram-se, Teresa comentou baixo com Sofia.
- Aquela cabra da Manuela transando com a Berenice é algo que se me contassem jamais acreditaria. Se não tivesse visto e ouvido a conversa nojenta delas, haja Deus, que horror! Como puderam? Que pouca vergonha! A Berenice que não me venha tentar justificar esta imoralidade. A Manuela? Aquela cobra? Espero que colha os frutos que anda a plantar por onde pisa.
- Estou pasma! Vistes a minha boca aberta quando apareceram as duas deitadas nuas?
- Pois vi. Até a minha mãe se sentiu mal. Quanta irresponsabilidade acusar o Joaquim se foi a Manuela que quebrou a cara dela. Bem feito para as duas. Estou com nojo delas, aí Sofia, as pessoas são muito baixas. Queres saber?
- O quê?
 - Vou pedir à Bruna para demitir a Manuela da fábrica. Aquela vagabunda tem que ter um castigo!
- Vais?
Teresa estacou sustentando o olhar admirado de Sofia.
- Se prejudicares a Manuela o que vais ganhar com isto?
- Aff, tu tens toda a razão. Foi um momento que eu tive, não me vou me rebaixar ao nível dela. Ela que vá a merda! Sabes o que é sentir asco?
- Sim, eu sei. Olha, tu tens que deixar isto para trás agora.
- Claro, vou deixar como é óbvio, mas não dá para esquecer neste instante, acabei de assistir aquelas filmagens. Ah, lembrei-me agora que a Graça levou um envelope para mim a mando do Joaquim. Estou a pensar que ele enviou as filmagens para provar a sua inocência. Se for mesmo, vou me sentir mais burra do que já estou a me sentir. Porque me recusei a ver.
- Não fiques assim. O melhor é que o Joaquim ainda te considera como amiga e a Graça, convenhamos, ela está toda para ti. Percebi os olhares dela pelo teu corpo. Lembrei-me até dos olhares da Bruna pelo meu. Fico para morrer de vontade de jogá-la na caminha. Tu tens que dar a ti própria a hipótese de um recomeço. A Graça quer te comer, Teresa.
Teresa sorriu relaxando ao ouvir aquelas palavras.
- Sim, ela quer e eu a quero comer. Quero muito, não fazes ideia.
- Que novidade que é essa tu falares assim? Dissestes que ela nem tentou beijar-te.
- Beijou ontem. Foi uma loucura, nós, tu sabes, fomos além, fizemos no carro dela.
- Aiiii, não! Que alegria! Mal posso crer que acabastes te entregando. Sim, pois estavas no limite. Olhava para ti e percebia tua carência, tua necessidade de saltar na espinha dela. Se pensas que não observei como tu ficaste ontem sentada tão próxima dela, olha, tu estavas louca para dar.
- Achas? Não estava tanto, só estava, quero dizer, a Graça estava tão elegante com aquele vestido de festa, aquele decote deu-me uma quentura, umas necessidades que normalmente consigo controlar. Queres saber? Tu tens razão, eu estava louca para dar e dei! Eu até tentei entrar em casa antes de saltar em cima dela, mas bastou ela beijar-me que perdi o controlo. Depois do beijo foi tudo por água abaixo. Eu não sabia que estava naquela privação tremenda.
- Hahahaha, estavas para mais, Teresa. Os teus olhos despiam o corpo da Graça de tal forma que eu quase fui falar contigo, mas a Bruna, que percebeu também, disse-me para não interferir. Porque a Bruna tem um senso assim de que não é bom dar palpite quando a coisa está a aquecer para não arrefecer, percebes?
- A Bruna está certa, porque eu não teria mergulhado na coisa se tivesse parado para pensar. Acredita, preciso ir para a cama com a Graça. Não sabes o que passei depois que entrei em casa. Fiquei feito um vulcão a ponto de jogar lavas para todos os lados.
- Estás a ver? É o que te digo, tens que saltar-lhe para a espinha. Eu saltei para a espinha da Bruna. Tadinha, ela pensou que eu estava cheia de vinho, que não tinha forças nem vontade de fazer amor, hahahaha, teve que me acompanhar. Porque tu sabes, há dias que a mulher não está assim voltada para o sexo e nós temos que fazer a coisa acender.
- Saltando para a espinha, pois já sinto que é o que estou prestes a fazer. Não terei que acender a coisa, já está para lá de acessa. Vou é incendiar meu corpo no dela. Será possível que nós mulheres tenhamos que manter a nossa necessidade de prazer sempre no controlo? Temos que ser sempre certinhas? Oh, isto não podes porque é feio, vais parecer uma cabra, uma mulher sem classe, podes ser confundida com uma mundana. Ou de outra é aquela vozinha interior que ficar a alertar: Não te entregues, vais sofrer, será um desastre, o começo é lindo, o fim é um terramoto, não cedas, sê contida, sê puritana, sê forte, pois cansei-me de ser como sou! Que se dane tudo! As pessoas e suas ideias pré-formuladas os sobre nossos atos. Não ligo a mínima e se eu ligasse adiantaria para alguma coisa? Não sou um GPS! Não quero mais ser guiada pelas normas de uma boa conduta. Eu tentei, Deus sabe o quanto tentei ficar sozinha. O que eu quero é ter prazer. Quero! Admito e serei direta.
- O quão direta pretendes ser?
- Direta a ponto de surpreendê-la, escandalizá-la, deixá-la louca para me seduzir como bem quiser. Vou mandar a minha timidez viajar. Jogar literalmente tudo para o alto. Minha vontade é tanta que não duvido nada que acabarei rasgando-lhe as roupas.
- Também não precisas ser tão radical...
- Por que não preciso se é o que estou louca para ser? Radical! Felina! Devassa! Carnal! Irracional! Descontrolada! Volúvel...
- Hã? Volúvel? Volúvel não é bom, vais parecer assim como um camaleão. Sabes, que está a mudar constantemente. Achas que vais agradá-la desta, maneira? Isto pode assustar a Graça. Quem quer uma mulher volúvel?
- Quem quer uma santa? Por amor de Deus, Sofia, ou eu solto a fera que mantenho escondida ou fico como estou. Uma mosca morta, é sim, é como eu estava a ser. A minha vida a passar passando e eu armada em sofredora. 
- Estou a perceber, mas eu também não queria despertar este teu lado selvagem, Teresa. Agora deixaste-me surpreendida. Todas têm uma fera guardava no íntimo, mas tu e a Graça precisam se entregar, necessitam se conhecer e tu ao mostrares-te como uma mulher que ela não reconheceu em ti; afirmo-te, talvez acabes por espantá-la. 
- Não irei espantá-la e tu não despertaste o meu lado selvagem, foi a Graça que o despertou ontem quando me deixou queimando de desejo. Desejo de entregar-me e ser mulher nos braços dela. Desejo de ser carne e brasa. Desejo de deixar os orgasmos consumirem minhas entranhas até perder as forças. A ponto de desfalecer de prazer, até ficar morta e acabada entre as pernas dela.
- Oh, Deus! Penso que aqueles vídeos acordaram algo estranho dentro de ti.
- Acordou a mulher, sim, esta é a verdade! A mulher que anseia por ser amada, devorada, possuída até perder a noção de tempo e espaço. Eu quero e necessito ser uma devassa.
- Estás a ponto de te tornares uma libertina. Não sei, não sei mesmo o quanto isto pode vir a ser vantajoso para ti.
- Não penses tanto, foi por pensar demais que me fechei desta maneira. Eu não sou uma concha e não quero ser santa. Qual é o problema em mergulhar fundo na minha sexualidade? Nunca te sentiste assim?
- Eu? Sim, bastante, mas nunca a ponto de desejar ser uma devassa. Não uma cabra no sentido real da palavra. Por que olha aqui, somos o que somos na intimidade, mas não temos que perder a classe. Não devemos chafurdar na vulgaridade.
- Podes dar nomes ao que somos porque me cansei da minha imagem de mulher séria.
- Não fales assim porque estás mesmo a assustar-me.
- A vulgaridade de que falas, Sofia, entre quatro paredes o que importa? Não temos que sentir vergonha de sermos o que quisermos com a mulher que desejamos. Despir só o corpo? De que vale se não for uma entrega plena? Eu anseio por despir mais. Conheço-te e sei que despes mais que do que o teu corpo. Não sejas hipócrita comigo, sei que não és assim.
- Certo, não vou contar como sou na essência, na intimidade, não preciso, tenho certeza que imaginas.
- Sim, porque somos todas tal e qual. As que não se despem além do corpo não são inteiras. O nosso corpo e a nossa alma são um todo. Um não se dá sem o outro. Então, és devassa com a tua mulher. Não podes ser sem aceitar o que és. Percebestes agora? Eu não me importo, a vida é tua. Estou a elogiar-te, não a condenar-te. Tu estás a presenciar o nascimento de uma nova Teresa. Acostuma-te, a outra morreu quando ouviu aquelas coisas naquelas filmagens. Ouvistes bem como se referiram a mim? Denegriram o meu caráter, como cobras que são, foi tudo o que ouvi. Elas não sabem o que me fizeram. Sequer presumem o vulcão que despertaram.
- Ficastes sem jeito pela Graça ouvir as coisas que a Manuela falou sobre ti na intimidade?
- Eu não, afinal, não falou nenhuma mentira. Quando tínhamos uma vida sexual ela amava, depois que passei a evitá-la na cama, acreditou que estava desestimulada. Fiquei sim, tu sabes, contei-te. Implorava para ter sexo comigo, mas algo no meu íntimo arrefeceu. Talvez, pressentimento? Agora estou certa que foi. Silenciosamente desconfiava dela. Não falava porque não queria julgar em voz alta. 
 - Tu poderias ter partilhado essas tuas preocupações íntimas. Só contastes quando tudo acabou.
- Pois foi, podia ter contado, mas foi doloroso. Pronto, aquela Teresa morreu.
- Ainda bem, porque aquela Ana Sofia também morreu. Vou apresentar-me para a minha mãe. Ela gostando ou não, é quem passei a ser. Agora vamos voltar para o trabalho. Tu terás a sorte de não dar de cara com a Manuela. Já eu, tumba, não a nada há fazer.
- Tens já um bom remédio, sabes a cobra que ela é. Se não foi minha amiga depois de tudo que vivemos, tua é que não é. Obrigada por teres vindo. Eu ligo-te!
- Não foi de nada. Também te ligo. Adeus!
- Adeus, amiga!

Leonor chegou ao tribunal bastante tensa. O facto da arma do crime não ter sido encontrada até aquele momento a preocupava sobremaneira desde o início daquele julgamento. No decorrer da sessão passou a preocupar-se como a juíza se estava a comportar. Não que estivesse agindo com desinteresse, mas estava portando-se com uma dureza que nunca dantes virá em sua conduta. A tudo que Leonor falava durante a acusação a juíza Wilma rebateu: Não vou aceitar. A pergunta é irrelevante ao caso. Não vou admitir. A testemunha não necessita responder a pergunta.
Parecia contrária a Leonor, como se estivesse decidida a sabotar o seu desempenho ali.
Até que Leonor já sem saída dirigiu-se a ela categoricamente:
- Protesto, meritíssima! Assim não é possível, o advogado está a fazer uma encenação levando o júri a crer que a testemunha enganou-se ao reconhecer o arguido. Existem provas suficientes que colocam essa testemunha em questão no local e na hora exata do homicídio.
A juíza.
- Negado!
Leonor.
- Não retiro o meu protesto meritíssima, assim não consigo seguir com a acusação. O advogado desacreditou todas as testemunhas desde o início deste julgamento. Podemos nos aproximar?
A juíza.
- Doutora, não vou permitir. Protesto e pedido negados!
Leonor.
- Meritíssima se eu puder expor os factos em particular para a vossa excelência...
A juíza.
- Já chega! Exijo ordem nesta corte! Tem mais alguma pergunta?
Leonor.
- Sem mais perguntas para já, meritíssima.
O problema era que a juíza estava aceitando todos os protestos do advogado de defesa e negando todos os que Leonor advogava na acusação. 
O advogado.
- Meritíssima, solicito que o júri desconsidere a prova das balas apresentada pela acusação.
Leonor.
- Protesto! A solicitação é improcedente. As balas são de uma Taurus PT 738 380 de dezesseis tiros. Que a primeira testemunha alegou ter visto em poder do arguido há cerca de um mês.
O advogado.
- Meritíssima, a testemunha citada é um usuário de drogas que tem várias passagens por prisões. A advogada não pode querer que o júri aceite o testemunho de um drogado. No dia em questão, o mesmo admitiu ter feito uso de bebidas alcoólicas e sabe Deus mais de que outras coisas deve ter feito uso. Nem sequer se lembra da cor da arma que alega ter visto em posse do meu cliente.
Leonor.
- Protesto! O advogado está novamente desacreditando e denegrindo a imagem da minha testemunha.
A juíza.
- Protesto negado!
- Meritíssima? Esta testemunha é agora um homem livre. Que mal há numa pessoa tomar quatro cervejas em um bar com amigos? Naquela noite esteve na casa do arguido onde viu a arma em seu poder. O arguido estava exibindo a mesma garbosamente. Chegou a declarar que mataria a vítima. Este testemunho é primordial neste caso.
O advogado.
- Meritíssima a arma em questão não foi encontrada. O meu cliente declarou que não é possuidor de arma de fogo. A advogada quer que o júri reconheça apenas os cartuchos encontrados no local e as balas no corpo da vítima como prova deste crime. É uma calamidade, por isto, protesto veementemente!
Leonor.
- Foram feitas buscas por toda a área meritíssima. As balas encontradas no corpo da vítima e os cartuchos indicam que após os disparos o arguido desfez-se da arma.
O advogado.
- Ora, meritíssima, uma arma de fogo não desaparece simplesmente. É mais do que prova de que o meu cliente não efetuou tais disparos.
Leonor.
- Meritíssima, o senhor Batista premeditou o crime. Foi ao local naquela noite tomado de ódio no intuito de tirar a vida da vítima. Esperou a vítima deixar o restaurante. Seguiu-o até o estacionamento onde efetuou os disparos na cabeça do mesmo. Foi um crime a sangue frio.  O mesmo estava sendo traído pela esposa, o que o levou a lavar a honra matando Augustinho Silva!
O advogado.
- Protesto! A advogada está se baseando no relatório da perícia que foi inconclusivo. Pelo amor de Deus, sem a apreensão da arma o que espera a senhora advogada? 
A juíza.
- Protesto aceite! Os advogados podem dirigir-se ao júri para fazer suas alegações finais. Antes, este tribunal quer saber como o arguido se declara.
O advogado.
- O meu cliente declara-se inocente, meritíssima!
Leonor.
- Meritíssima? Este tribunal não pode ignorar a existência de tal arma dando início às alegações finais. Solicito um prazo de quarenta e oito horas para que novas buscas sejam efetuadas no local dos disparos.
A juíza voltou-se para Leonor questionando com certo cinismo na voz
- Onde você pensa que foi parar a arma?
- Não faço ideia, somente novas buscas podem dar-nos tal resposta. Tendo em vista o mistério do desaparecimento da mesma, este tribunal tem o dever de acatar o meu pedido.
A juíza inflamou-se respondendo secamente para Leonor.
- Neste tribunal quem decide sou eu! Não apenas vou negar o seu pedido, como vou adverti-la a não insistir nesta linha de conduta.
- Mas meritíssima, assim não é possível! Se é assim, acabarei tendo que entrar com um recurso.
- Aproxime-se!
Leonor aproximou-se sustentando o olhar furioso da juíza que realmente não estava reconhecendo. Aquela mulher sempre fora maleável nas causas que julgava. Aquela inflexibilidade que estava demonstrando não tinha explicação.
Parou diante dela, vendo-a abaixar a cabeça falando baixo apenas para ela ouvir.
- Não quero ouvir nem mais uma contestação da sua parte. Quem mandou vir a um julgamento de homicídio sem a arma do crime?
- Concordo meritíssima, mas...
- Mas nada! Se não tem a prova aceite a sua derrota! A sua defesa foi mal elaborada e o seu comportamento hoje neste tribunal corte foi inadmissível. Devia preocupar-se em trajar-se adequadamente neste recinto.
- Juíza? Desculpe, mas não estou a reconhecê-la. O meu comportamento foi o mesmo de sempre. O que tem a minha roupa a ver com este caso?
- Isto é o que você pensa! Estás num tribunal, não numa festa, num Shopping ou numa passarela. Agora tire essas suas nádegas, essa cara pintada de boneca e este perfume insuportável da minha presença. Deixe-me concluir o meu trabalho! Se me contestar mais uma única vez a expulsarei do meu tribunal!
Leonor abriu a boca estarrecida respondendo abismada.
- Meritíssima? A senhora está a ofender-me. Por acaso observou que negou todos os meus protestos?
- Se neguei é porque os seus protestos não tiveram base nem fundamento. Agora volte para o seu lugar com as ofensas que lhe fiz e pare de me incomodar!
Leonor afastou-se e a juíza dirigiu-se ao advogado ordenando:
- Com a palavra, o advogado de defesa. Pode dirigir-se ao júri agora.
Após as conclusões finais do advogado e depois das de Leonor, a juíza finalizou:
- Fechando a sequência de trabalhos, tendo este tribunal ouvido durante todo este julgamento, o arguido, as testemunhas, os peritos e os respectivos advogados, o júri pode se retirar para fazer suas deliberações conclusivas. Essa corte entrará em recesso, reiniciando amanhã no mesmo horário de hoje, quando declararei a sentença caso haja condenação do arguido. Estão todos dispensados. A sessão está encerrada!
Continua...