segunda-feira, 27 de março de 2017

Luz Casal - Piensa En Mi

Eduarda Fernandes. - Capítulo 7.


Eduarda nunca se imaginou numa situação como aquela. A seu lado, Mônica conversando com o seu pai. Diante dela, seu pai de mãos dadas com Renato. Mônica estava bastante à vontade, tratava Carlos muito bem, como se o conhecesse há muito tempo. Apenas não conversava com Eduarda. Como se a conversa entre elas estivesse marcada para mais tarde, quando ficariam a sós. 
Depois do jantar Eduarda foi levá-los até o carro. Mônica saiu com eles despedindo-se na calçada. Alberto segurou-lhe a mão confessando eufórico:
- Estou muito feliz que seja amiga da minha filha. Quero que vá jantar sábado em minha casa com ela. Renato e eu faremos um jantar especial, vocês irão?
O pai ficou olhando para Eduarda, ansioso pela confirmação dela.
Mônica sorriu tranquilamente concordando.
- É claro que nós iremos. Até sábado então.
O carro arrancou e Eduarda comentou incomodada.
- Não devia ter respondido por mim. Eu não dei sinais de que queria ir na sua companhia.
- O seu pai não tem culpa do seu dilema.
- Dilema? Não sei de dilema nenhum.
- Sim, dilema. Eu sei que para você não está sendo fácil.
- Não vou ficar na rua conversando neste frio.
Eduarda respondeu voltando para a casa, sendo seguida por ela.
Assim que entrou, Mônica pegou o casaco de peles ajeitando-o sobre os ombros. Pegou a bolsa olhando para Eduarda.
- É tarde.
- Eu sei que é tarde.
Eduarda respondeu percebendo que ela ia embora.
- Já vai?
- Sim. Você precisa dormir, eu também.
- Está certa disto? Você não parou um dia sequer de se meter no meu caminho e agora que permiti que entre no meu lar vai simplesmente embora? Assim, só vai embora?
- Sim, vou embora.
- Ao que parece toda aquela conversa era apenas para despertar a minha atenção!
- Por que está com tanta raiva?
- Está achando que eu tenho tempo para brincadeiras?
- Não estou brincando com você, Eduarda!
- Estou acostumada a lidar com homens bem mais rápidos do que você!
- É mesmo? É natural, são homens, não se preocupam em desvendar uma mulher. É por isto que necessitam de tantas. Raramente chegam a conhecer uma.
Mônica respondeu caminhando para a porta com aquele sorriso confiante que incomodava Eduarda.
- Balelas, Mônica!
- Sabe muito bem que não são balelas!
Era exatamente isto, Eduarda sabia e por isto se incomodava mais. O que os homens mais queriam era possuir, tinha consciência daquela realidade.
- Muito bem, se não quer ficar é problema seu!
Mônica se voltou justificando completamente calma.
- Eu queria, vim até com essa intenção, mas infelizmente deixei o meu talão de cheques em casa, e você, Eduarda, não trabalha de graça. Boa noite!
- Boa noite, Mônica Reis!
Ficou olhando Mônica sair completamente angustiada. Não se sentia nada bem com aquela situação. Eduarda ficou mais furiosa porque ninguém nunca se atreveu a fazê-la esperar. Eram os clientes que esperavam por ela. Quem aquela mulher pensava que era para deixá-la naquele estado? Despertou aquele desejo nela e na hora de mostrar serviço escapava-lhe entre os dedos.

No sábado, ficou sem saber como iria fazer, não queria ligar para Mônica, procurá-la seria demais, apesar disso, seu pai esperava as duas para o jantar. Não marcou uma hora com ela porque sua vontade era de não voltar a vê-la nunca mais.
Eram vinte e quinze da noite e Eduarda não se aguentava mais. Chamou por Carlos impacientemente. Ele surgiu trajando o uniforme de motorista impecável.
- Quero que ligue para casa de Mônica Reis e diga que irei ao jantar na casa do meu pai sem ela, por favor!
- Mas, Mônica está aguardando a mais de uma hora diante da casa. Pensei que tivessem combinado tudo.
- Você pensou? Será que te pago para pensar, Carlos? Claro que não combinei nada, acaso sou mulher de combinar encontros com uma igual? Vamos embora de uma vez!
Saiu à rua vendo Mônica encostada num conversível preto. Carlos veio logo atrás com a chave da casa. Eduarda ficou esperando impacientemente. Nem olhou para Mônica e muito menos a cumprimentou como mandava a boa educação.
Mônica não pareceu se importar com o clima tenso dentro do carro. Também não puxou conversa com Eduarda porque percebeu o quanto ela estava irritada. Nem respondeu quando Eduarda falou incomodada.
- Perdi um tempo imenso sem saber que estava à minha espera. Poderia ter avisado que já estava diante da casa. Vamos chegar atrasadas por sua causa! E eu nunca, jamais chego atrasada!
Mônica deu de ombros observando as ruas por onde passavam. Sabia que ela não estava irritada por chegar atrasada ao jantar do pai, afinal não tinha chegado atrasada. Pelo contrário, chegou uma hora antes. Eduarda estava mesmo irritada por outro motivo. Mônica sentiu que estava mesmo a ponto de explodir. 
Quando chegaram, subiram os três no elevador. Ali, no entanto, Eduarda não conseguiu esconder o seu interesse. Seus olhos percorreram o corpo de Mônica examinando-a minuciosamente. Assim que a porta do elevador abriu, falou agitada:
- Talvez meu pai não saiba que eu sou uma prostituta. Não tenho certeza sequer se ele desconfia. Espero que não comente nada. Se falar pode ser que estrague o jantar que ele está preparando com tanto carinho.
Mônica deu de ombros novamente sem responder. Eduarda não a conhecia mesmo para imaginar que ela contaria para Alberto que era uma prostituta.
Entraram num silêncio típico dos grandes silêncios de Eduarda. Eduarda era assim, deixava morrer dentro dela grande parte das palavras que deveria falar.
O clima foi outro quando Alberto as recebeu calorosamente. Os drinques foram servidos por Carlos e Renato. Eduarda permaneceu indecifrável. Não fez questão de interagir na conversa. Permaneceu ouvindo silenciosamente.
Mônica falou sobre o trabalho no hospital, depois sobre sua vida atribulada como estilista de modas.
- Pensei que ajudava seu pai na companhia pesqueira.
Comentou Alberto surpreso.
- E ajudo, tenho que me desdobrar. Não é fácil, mas vou adequando o meu tempo da melhor forma que posso. Preciso encontrar alguém de confiança ou acabo morrendo de tanto trabalhar.
Eduarda pareceu confusa diante do que ela falou por último, mas sorriu encarando Mônica pela primeira vez desde que entraram ali.
- Será que pode encontrar alguém melhor do que Renato?
Um silêncio se estabeleceu na sala enquanto os olhos de Mônica se iluminaram, mas somente Eduarda percebeu. Mônica respondeu quebrando o silêncio:
- Sim, pode até ser, mas viemos aqui para nos divertir. Vamos beber e esquecer os problemas.
Eduarda passou as horas seguintes com aquilo entalado na garganta.
Após o jantar, quando entravam no carro, Eduarda se voltou para Mônica incomodada:
- Pensei que ouviria uma sugestão minha, mas ignorou completamente.
- Não era hora para aquele assunto.
Respondeu ajeitando-se no banco confortável. Eduarda escorregou para o interior do mesmo mais inquieta ainda.
- Qual é a hora certa? Vocês empresários se esquivam de tudo, só ajudam a quem querem. Tem que cobrir suas falcatruas com favores, por isto cortou o assunto.
- Você não me conhece ainda para me julgar, Eduarda.
Mônica a encarou sorrindo sem se alterar. 
Carlos deu partida no carro ligando o rádio baixinho.
- Acho que conheço o bastante, é o tipo que ladra e não morde...
Aquela provocação foi calada com uma reação inesperada. Mônica colou seus corpos enquanto a beijava apaixonadamente. Eduarda derreteu-se completamente com o beijo delicioso. Ergueu os braços enlaçando lhe o pescoço, colando mais seus corpos. Desceu a mão até tocar a perna dela, acariciou a coxa excitada, no entanto, Mônica se afastou suspirando.
Eduarda ficou confusa. Sem saber o que fazer, passou a olhar pela janela do carro completamente perturbada. Mordiscava os lábios mal disfarçando sua decepção.
- Queria pegar o meu carro, Carlos, mas exagerei na bebida. Pode me deixar em casa? Rua Augusta com Leste, por favor?
- Perfeitamente.
Eduarda engoliu em seco. O que podia fazer? O que aquela mulher estava fazendo com ela? Roubava sua paz e escapava. Quando é que iria além dos beijos?
Assim que o carro se deteve diante da casa dela, Eduarda abriu a porta saindo sem esperar que Carlos lhe abrisse a porta.
Aproximou-se de Mônica segurando seu braço. Ela já ia entrar sem ao menos se despedir.
- Esqueceu o talão de cheques novamente?
Mônica voltou-se abrindo os braços.
- Não, não esqueci. O que posso fazer se você não sabe o que sente? Não sei qual é a sua. O que você tem? O que te incomoda tanto? Acha que pode ir para cama comigo me odiando deste jeito? Você não sabe nada da vida.
- Não sei? Por acaso você faz ideia do que eu passei para chegar até aqui?
- Não se vitimize porque todo mundo sofre, você não é a única! Pare de olhar para o próprio umbigo!
- O que me interessa todo o mundo? Não seja patética, estou falando de outra coisa, para mim você não sabe o que quer de verdade!
- Engano seu! Sei muito bem o que eu quero. Ir para a cama com você não é um negócio e muito menos só um abaixar de calças. Não quero só transar com você. Existem mais coisas envolvidas, estou colocando a minha vida em suas mãos, e o meu coração. E você parece só querer me mostrar o seu poder. O quanto pode e o quanto sabe sobre sexo. Neste caso, ainda prefiro ver um filme pornô ou me satisfazer sozinha! Boa noite!
- Grrrrrr...
Eduarda grunhiu furiosa virando cega de raiva, entrando logo no carro.
- Essa mulher é a criatura mais odiosa que já cruzei em toda a minha vida!
Os olhos de Carlos encontraram os delas através do espelho retrovisor.
- Cada vez dá uma desculpa mais deslavada do que a outra! Não conheço as mulheres, não conheço mesmo!
Ele pensou se deveria falar alguma coisa por conhecer muito bem as mulheres, mas conhecia muito mais Eduarda e nunca a tinha visto naquele estado. Achou melhor permanecer calado.
Quando parou o carro diante da casa, ela entrou seguindo desorientada até o bar. Serviu uma dose de uísque bebendo perturbada.
Carlos entrou, correndo os olhos nela por um instante.
- Se não precisar de mais nada, vou me recolher.
- Sim, faça isto.
Carlos girou para sair da sala, mas parou com o chamado dela.
- Carlos?
- Pois não, Eduarda!
- Se Mônica Reis voltar aqui não permita que ela entre nesta casa!
- Pode deixar.
- Nem me conte se ela ligar. Entendeu?
- Entendi sim. Com licença!
Novamente ele ia saindo, mas ela o chamou sufocada.
- Espere, Carlos.
- Sim?
- Talvez seja melhor deixar que ela entre caso venha.
- Está bem.
- Se ela ligar pode falar que não estou. Não me interessa falar com ela pelo telefone.

Eduarda sentia-se sufocada, nunca em sua vida, viveu dias tão ruins. Não era mais a mesma, aquilo interferia seriamente em sua vida profissional. Tinha que fingir seus orgasmos, já que não os alcançava. Em sua cabeça só existia um pensamento:
Mônica Reis, a salvadora dos homossexuais doentes.
Ainda por cima, nem fazia ideia do iria fazer caso fosse para a cama com ela. Talvez fosse este o problema, por que precisava ficar imaginando como seria? No fundo sabia que tinha dúvidas, imaginava tudo que era possível fazer com uma mulher entre lençóis, mas aqueles pensamentos eram o suficiente para deixá-la envergonhada. Não sentia vergonha das coisas que fazia na cama com os homens, mas também não se excitava mais, não com eles. O que iria fazer da sua vida?
Decidiu que precisava ter uma conversa séria com ela. Precisou passar por cima do seu orgulho para fazer aquela ligação. Se não ligasse ficaria louca. Acabou ligando para combinar um encontro.
- Boa noite, Mônica!
- Boa noite, Eduarda!
- Precisamos ter uma conversa. Você poderia vir aqui em casa hoje, por favor?
- Prefiro que você venha à minha casa.
- Qual a diferença?
- Nenhuma. Venha às dezenove horas. Tchau!
- Tchau!
Eduarda desligou sem ter escolha.
Continua...

sábado, 25 de março de 2017

O Despertar de Uma Paixão! - Parte 01


Sinopse: Lorena Mansur é uma jornalista conceituada que parte para Amazônia para executar um trabalho muito importante. Lá, conheceu a misteriosa Jack, que aparece e desaparece deixando-a completamente perturbada.
Seduzida em plena floresta, Lorena retorna a sua rotina com a lembrança daquela mulher arrebatadora.
O que ela não imaginou é que ao retornar, voltaria a cruzar com Jack.

                                                 Parte 1.

O grupo de dez pessoas seguia mata adentro sem se deter, apesar do sol que escaldante sobre seus corpos. A mata, cada vez mais densa, parecia engolir o pequeno grupo com suas árvores gigantescas. Em certos pontos, paravam para filmar e fotografar a rica fauna que iam descobrindo.
Começava a anoitecer quando o guia deteve-se informando que eles iriam acampar próximo ao rio. Pouco a pouco as barracas foram sendo erguidas. Logo depois acenderam uma grande fogueira, onde o grupo sentou-se próximo a ela para se aquecer.
- Jorge devia estar louco quando me escalou para fazer essa matéria.
Reclamou Lorena, matando um mosquito que acabará de picá-la no pescoço.
- Nem sei mais se voltarei viva para casa. Talvez não passe desta madrugada.
- Deve estar se esquecendo de suas antigas reportagens Lorena.
Comentou Eduardo, um dos fotógrafos da equipe.
- A Amazônia tem sido seu tema predileto.
- Claro, desde que fique dentro um helicóptero, escrevo com muito prazer. Esta aventura estava fora dos meus planos. A uma hora dessas, eu já deveria estar na Alemanha. E Susi foi no meu lugar. Que droga!
Lamentou entristecida.
- Não adianta se queixar Lorena. Jorge sabe que você era a única capaz de fazer esta reportagem do jeito que ele queria. Quem vai querer um pedaço de carneiro?
- Carneiro? Como podem comer este animal? Não faz nem duas horas que ele corria solto por aí!
Lorena respondeu horrorizada.
- Prefiro o feijão em lata.
- Talvez você não sobreviva mesmo a esta aventura, mas se não comer direito será muito pior.
Avisou Rute, especialista em filmagens. Rute aceitou um prato com pedaços de carneiro e batatas cozidas comentando entusiasmada.
- O cheiro está bom!
- Quero sair mais cedo amanhã, Júlio.
Lorena avisou, depois de servir feijão e batatas num prato.
- Preciso pegar a mata despertando. Preciso sentir o clima para começar a escrever. Às cinco da manhã será ideal.
- É muito engraçado toda esta situação.
Comentou Paulo abrindo uma garrafa de uísque.
- Este ambiente não tem nada a ver com a gente.
- Nasci na cidade e nela desejo morrer.
Lorena comentou olhando em torno.
- Nem meu revólver me dá segurança aqui.
- Não se preocupe Lorena, nós vamos proteger você.
Eduardo prometeu se erguendo.
- Ficarei de guarda até às duas da madrugada. Depois é a sua vez, Paulo.
- Claro, vai ser um programa e tanto.
- Bom, vou me deitar.
Lorena avisou se erguendo, e, ao fazê-lo, olhou para a garrafa de uísque.
- Quanto a esta garrafa Paulo, eu recomendo guardá-la para uma emergência.
- Não esquente, tenho meu estoque bem armazenado.
- Boa noite, pessoal!

Às cinco horas da manhã partiram pela mata seguindo fielmente o mapa. Envolvidos em brincadeiras e muito trabalho, o dia passou rapidamente. Acamparam mais uma noite, despertando para outro dia de uma longa jornada.
No quarto dia, encontraram uma clareira para se abrigar quando começou a chover torrencialmente às duas da tarde. Lorena escolheu um cantinho para escrever sossegadamente. Algum tempo depois seguiram caminhando, pois a chuva parou inexplicavelmente. 
Lorena estava morta de cansada quando pararam às cinco da tarde. Pegando uma muda de roupas limpas e o seu revólver, avisou para o grupo que iria até o rio tomar um banho.
À beira do rio despiu-se olhando para a água antes de entrar. Estava se preparando para pular quando Rute surgiu olhando em volta.
- Vim ver se está tudo bem com você.
- Tudo bem Rute, volte ao acampamento e cuide para que ninguém me interrompa neste momento de paz. Depois que acabar de nadar, vou tentar escrever um pouco antes do jantar.
- Você é quem manda.
Respondeu se afastando.
Lorena se jogou na água passando a nadar pelo rio calmo. Lavou-se cuidadosamente enxaguando na água morna. Continuou nadando até que um pássaro começou a cantar na outra margem do rio chamando sua atenção. Curiosa, Lorena nadou tentando não fazer ruídos. Só quando chegou bem perto do pássaro saiu da água sem ser notada por ele. Lorena estava tão encantada com a beleza do canto que quase morreu do coração ao ouvir uma voz de criança atrás de si.
- Se está pensando em pegar o pequeno cantador vai perder o seu tempo!
Disse a vozinha prepotente.
- Este pássaro é meu, ouviu?
Lorena se voltou imaginando que estava sonhando, mas seus olhos caíram sobre uma linda garotinha. Devia ter uns dez anos. Os cabelos loiros e rebeldes caíam pelos ombrinhos em forma de cachinhos dourados. Ao se perceber observada, a menina colocou a mão na cintura perguntando num tom ainda mais insolente.
- O que foi? Nunca viu uma criança antes?
Lorena abriu e fechou a boca sem fala. Era mesmo uma criança e estava aparentemente sozinha no meio daquela selva. Olhou em volta, mais precisamente na direção de onde ela tinha aparecido. Não havia ninguém, apenas o rio calmo como antes.
- O que está fazendo aqui?
A pergunta saiu num fio de voz. Seguiu-se uma gostosa gargalhada da menina que respondeu balançando os ombros.
- Estou passando as minhas férias e você? Não existe lugar melhor, não percebeu?
- Sim... Mas quem está aqui com você?
Insistiu aproximando-se dela, mas a garota saltou caindo na água. Lorena não soube como, mas ela ergueu uma faca em sua direção.
- Não se aproxime mais, assassina de cantadores, ou machuco você!
- Escute aqui sua pestinha, eu só quero saber quem está nesta selva com você.
Respondeu zangada pela garota apontar uma faca para ela.
- Não gosto de pessoas que fazem perguntas, fique longe de mim!
- Só posso estar sonhando.
Murmurou Lorena olhando em volta exasperada.
- Já sei! Você deve estar com seu pai. Seja boazinha e me conte onde ele está. Preciso ter uma conversa com ele. Onde já se viu deixar uma criança num lugar como este e ainda por cima com uma faca?
- Você é mais uma idiota da cidade que vem matar os animais. É melhor voltar para sua terra ou vai morrer aqui!
Ameaçou a pequena loirinha guardando a faca.
- E fique sabendo que não tenho nenhum pai! Espere só até eu contar para Jack sobre você.
- Hei?
Já era tarde. A pequena mergulhou na água nadando rapidamente até desaparecer das vistas de Lorena pelo rio.
Lorena voltou para o acampamento como uma bala. Chegou colocando o coração pela boca. Como estavam todos reunidos numa barraca, ela entrou passando a contar sobre o acontecido. Assim que terminou, fez-se um silêncio interminável. Lorena perdeu a paciência falando irritada:
- Que diabo, gente! Eu juro que falei com a garota...
- Lorena querida, eu acho que você fumou um baseado lá no rio.
Comentou Paulo divertido.
- Uma garota sozinha nesta selva? Só pode ter sido uma viagem da erva!
- Eu falei com ela... Estou dizendo que a garota estava lá no rio e...
Calou-se percebendo os olhares penalizados em sua direção.
- Pensam que estou louca?
- Lorena venha cá fora!
Eduardo a chamou saindo da barraca com ela. Ele pegou a garrafa de uísque servindo uma dose bem grande num copo entregando a ela. Depois sentou num tronco de uma árvore a observando por alguns instantes.
- Pensei que ao menos você iria acreditar em mim.
Comentou chateada.
- Eu acho Lorena, que estamos todos muito sensíveis devido às precariedades que estamos enfrentando. Todos nós sabíamos desde o início que seria difícil mesmo, mas aceitamos certo? Eu te peço que tente se acalmar para não assustar os outros com histórias fantásticas como esta que acabou de contar.
Lorena bebeu o uísque com duas goladas grandes. Não queria passar por louca diante dos outros, teria ela mesma que encontrar a menina novamente e trazê-la para que vissem com seus próprios olhos.
- Muito bem Eduardo, eu sinto muito, não vai acontecer de novo!
Desculpou-se acendendo um cigarro disfarçando sua frustração por nem ele acreditar nela.
- Devo ter tomado sol demais.
- Deve ser isto mesmo. Agora vamos jantar.

Voltaram a sair bem cedo na manhã seguinte. Quando pararam para almoçar, Lorena sentou-se afastada de todos. Comeu distraída olhando um macaco que pulava de galho em galho. De repente, um movimento na mata chamou a sua atenção. Percebeu que algo se mexia próximo de onde estava. Do nada os cabelinhos loiros surgiram diante de seus olhos. Lorena colocou o prato de lado entrando pela mata correndo atrás da menina. Entretanto, a garota veloz corria muito mais, conseguindo ficar cada vez mais distante dela. Algum tempo depois de correr feito uma louca, Lorena caiu sentada em baixo de uma árvore. Tentava recuperar o fôlego quando sentiu algo em seu ombro. Lentamente ela se voltou a tempo de ver uma mão agarrando uma grande cobra colorida. Ao ver a cobra, Lorena perdeu os sentidos caindo para trás. Quando voltou a si, a menina loira estava sentada diante dela. Os olhinhos pequenos se estreitavam diante do seu rosto observando-a voltar a si aos poucos.
- Devia ficar grata por Jack salvar a sua vida.
Disse a vozinha infantil cheia de orgulho.
- Eu contei que você estava me perseguindo...
- Onde está este irresponsável deste, Jack?
Lorena questionou sentando de uma vez encarando a garota.
- Foi buscar água para você voltar a si.
- Olhe aqui sua pestinha, eu quase morri tentando te alcançar, e...
Lorena calou-se vendo a mulher que surgiu naquele momento com uma cuia na mão. Vestia calça jeans e camisa masculina. Calçava uma bota marrom até os joelhos. Os cabelos grandes como os da menina caíam rebeldes pelos ombros. Os cabelos pretos eram cumpridos passando dos ombros.
Os olhos ousados varreram o corpo de Lorena obscenamente. Os olhos dela tinham um brilho maravilhoso. Era alta, de corpo magro e esbelto. Possuía uma elegância que destoava ali no meio da mata. O rosto era lindo, e, os lábios sensuais, bastante convidativos. Nada naquela mulher passou despercebido a sua análise. Deu-se conta também, que a criança era uma copia exata dela, pois se vestia exactamente como ela.
Ainda sem fala, Lorena continuou mergulhada naqueles olhos profundos que a miravam fixamente. Não se lembrava de ter visto antes olhos tão vivos e indecifráveis. Era a primeira vez que uma mulher a comia com os olhos daquela maneira.
Respirando profundamente, Lorena criou coragem falando num tom irritado.
- Como teve a coragem de deixar uma criança andar sozinha neste lugar? Isto é crime, viu? É no mínimo um delito sujeito a pena de...
- Vejo que se recuperou.
Foi a resposta seca da mulher que nem se mexeu.
- Deviam prendê-la por abandonar uma criança sozinha no meio desta floresta.
- Não provoque Jack ou vai se arrepender, dona!
Avisou a pequena apontando o dedinho em sua direção.
- Nós não aturamos desaforos de assassinas de pequenos cantadores.
- Essa criança é muito petulante... Eu não pretendia matar o pássaro! Só estava ouvindo seu canto. Só aproximei-me para admirá-lo!
Jack apertou os olhos parecendo confusa por alguns instantes.
- Não pretendia matar o pássaro?
Perguntou deixando a cuia cheia de água no chão.
- Claro que não o queria matar. Tudo isto foi ideia desta cabecinha de ouro aí. Se ela não tivesse saído correndo, eu teria explicado melhor. Quem é você?
Perguntou dando um passo na direção dela.
- Fique onde está!
Jack pediu estendendo a mão para a menina.
- Agora que está melhor, deve voltar para o seu grupo. Eles estão à sua procura.
- Olha, espere um pouco! Eu gostaria que fossem comigo até onde o meu grupo está. Vocês poderão comer alguma coisa. Seria bom conversar, e...
- Será melhor esquecer que nos viu, eles não vão acreditar em você se falar de novo sobre este assunto.
Aconselhou pegando a menina no colo.
- Cuidado com a floresta!
Avisou correndo para dentro da mata. Lorena ficou olhando abobada enquanto elas desapareciam de suas vistas. Quem seriam aquelas duas? Perguntou-se completamente chocada.
Continua...

sexta-feira, 24 de março de 2017

Tina Turner - Help (live - Wembley Stadium - 2000)

Uma Mulher Misteriosa. - Capítulo 10.


Carmem seguiu para a empresa pensando que a vida a dois que Marcela decidiu ter com ela tinha começado mal. Se iria viver com ela queria uma convivência agradável. Não sentia mais tanta raiva por ela ter se aproveitado da sua situação. Não sabia por que, mas o fato não a perturbava como no início. De que adiantava ficar remoendo aquilo ou acusando-a? A vida era valiosa demais para deixar de vivê-la intensamente. Era só nisto que queria pensar. Ligaria para Marcela a tarde para fazer uma massagem no ego dela. Ela que não inventasse de ficar com raiva porque queria transar à noite.
Maria Dantas estava fazendo uma revolução geral com a sua equipe poderosa quando chegou. Trabalhavam como nunca tinha visto outro grupo produzir.
Às duas da tarde Maria parou diante da sua mesa abrindo um sorriso, questionando:
- E o nosso jantar? Que tal hoje?
- Iria se pudesse, desculpe. Não leve a mal porque não é pessoal.
- Hummmm! Não se pertence mais. Que bom que encontrou a sua outra metade. Até amanhã então!
- Até.
Ficou pensando confusa nas palavras dela. “Não se pertence mais.” Será que não se pertencia mesmo?
Pegou o telefone conferindo o número na agenda. Ligou anunciando seu nome. Enquanto esperava imaginou se Marcela faria a desfeita de não atendê-la.
Pensava distraída quando ouviu a voz de Marcela.
- Alô? Carmem? Aconteceu alguma coisa?
- Não.
- Você está me ligando, por isto estou estranhando.
- Não é que estou aqui na empresa e tenho um tempo livre agora. Estava pensando se a sua raiva já teria passado.
Explicou num tom que embora tenha tentado disfarçar, soou ansioso.
- Por que estava pensando sobre este assunto?
- Bem, ontem à noite você dormiu com raiva de mim...
- Você está enganada, dormi muito bem depois que me fez gozar.
- Foi? Mas, hoje pela manhã...
- Tinha uma reunião inadiável e quis dar uma carona para Giana. Sei que estou em débito com você.
- Pensei em te ligar também porque você se queixou que falo pouco. E hoje, confesso que acordei um tanto fogosa. 
- Excitada, eu percebi.
Carmem sorriu se justificando.
- Não leve a mal. Não costumo ser tão óbvia.
- Não levei a mal, Carmem. Não precisa se explicar. Achei muito agradável te ouvir falando do seu estado matinal.
- Sim, eu ontem adormeci logo, estava cansada depois do longo dia. Fiquei sozinha na cama está manhã, acho que você não percebeu porque estava com pressa.
- Percebi que você estava querendo abrir as pernas para mim. Pena que não pude ficar.
Carmem olhou para a janela brincando com a caneta entre os dedos.
- Você sempre vai falar assim? Acho tão...
- Tão?
- Abrir as pernas, isto é tão esquisito e frio, assim me soa. Fico pensando que quer me chocar. Eu não sou reprimida, nem sou de ficar horrorizada com o que ouço, mas você poderia ser um pouco mais...
- Mais o quê? Por que eu iria querer te chocar?
- Você sabe, custa ser branda com as palavras? Mais jeitosa, talvez, menos direta, quem sabe. É muito difícil ser mais doce?
- Está querendo que eu me contenha? Que fale tipo: Carmem? Posso te falar coisas picantes? Vou te ofender se te chamar de gostosa, de sexy? Não tenho sido carinhosa o suficiente para você?
- Estou em Buenos Aires e você em São Petersburgo, só pode ser isto!
- Por favor, não vamos viajar pelo mundo agora...
- Não se faça de desentendida e me poupe da sua ironia! Falei que você não é carinhosa? Acordei toda excitada e o que você fez? Deixou-me na cama sozinha e obviamente precisei me masturbar. Você não estava lá, tive que dar um jeito.
Marcela prendeu o riso comentando. 
- Adorei te ver toda oferecida na cama. Só faltou me pedir para te chupar.
- Está vendo? É disto que estou falando, estou na empresa, precisa falar assim? Como é que eu fico agora?
- Fica molhadinha e qual é o problema?
- O problema? Já sei, você quer é que eu fique te desejando o tempo todo.
- Você já me deseja o tempo todo, e eu, bom, não vou me fazer de rogada, sei que te deixo louca na cama. Você também me deixa louca.
- Está querendo elogios? Quer ganhar congratulações pelo seu desempenho? Espere sentada!
- Estamos com algum problema?
Marcela perguntou sem se alterar.
- Me diz você, acha que liguei para te ouvir sendo desagradável comigo?
- Está bem, Carmem. Eu me excedo às vezes, mas aquele tapa foi desnecessário.
- Em relação a isto eu não concordo porque você foi abusada. Porque se lembrou do tapa? Já passou!
- Abusada? Não acho! Se você fosse abusada comigo eu iria adorar. Poderia ter me pedido para te dar prazer, eu teria voltado para a cama na hora.
- Quer saber? Você diz certas coisas nas horas mais inapropriadas. Deveria prestar mais atenção. Estou trabalhando e não posso ficar neste estado, toda, ai você sabe! Você é obscena demais.
- Não reaja desta forma, fica parecendo com aquelas beatas que se horrorizam por nada. Coram-lhe as bochechas, cobrem a boca com as mãos chocadas por qualquer bobagem, não gosto de você assim. As pessoas podem se incomodar com coisinhas, você não precisa agir como elas.
 - Que ótimo, cometi um erro, não devia ter te ligado!
- Não, calma, eu adorei a sua...
- Vou jantar com a minha mãe hoje. Depois irei para a sua casa.
- Ótimo. Estarei te esperando. Tchau!
Carmem desligou o telefone irritada consigo mesma. Não devia ter ligado, mas se não o tivesse feito não pararia de pensar nela. Ainda bem que tinha lhe dado prazer antes de dormir, foi um golpe de mestre. Balançou a cabeça sorrindo, precisava parar de ficar pensar em Marcela. Tinha que trabalhar e foi o que fez.
Quando deixava a empresa levou um susto ao ver Paula descendo de um táxi caminhando na sua direção.
- Olá! Você me deu um grande bolo!
- Oi, Paula! Que surpresa!
Carmem respondeu dando um abraço nela.
- Só vindo aqui para te ver.
- Solange não te ligou informando que eu não poderia ir?
- Sim, ela avisou que você não poderia ir jantar comigo. Imaginei logo que está enrabichada por alguma mulher. Não resisti e vim saber os detalhes sórdidos, e claro, te ver, lógico! 
- Hahahaha, obrigada por me fazer sorrir. Não existem detalhes sórdidos.
- Aposto que existem. Escuta, não podemos tomar um drinque? Vou embora já neste domingo. Pode ser em um bar qualquer nesta área.
- Claro que podemos. Tem um bar que eu gosto de ir logo ali. Vamos até lá.
Carmem foi com ela pensando que seria bom conversar um pouco com Paula. Tinham transado no passado e a amizade que cultivaram após o que viveram era algo significativo. Ao mesmo tempo falar sobre Marcela não lhe parecia algo muito fácil. Pensar nela fazia com que sentisse coisas, necessidades, o desejo renascia forte, os sentimentos eram devastadores. Estava vivendo um redemoinho de emoções que procurava conter, e quanto mais tentava, mais elas a dominavam.
Sentaram no bar pedindo os drinques. Paula a fitou, comentando:
- Fiquei feliz por você estar se saindo bem na empresa do seu pai, mas triste por ele estar tão mal no hospital.
- Pois é, também estou triste com isto. Quanto à empresa era o meu sonho cuidar dela. Para isto estudei e dediquei-me tanto.
- Eu sei minha amiga. Agora quer me contar quem é a mulher que está te deixando sem chão?
- É uma mulher, você sabe como são essas coisas. Já teve algumas na sua vida, não é?
- Sim, eu tive e entendo como é. Está muito envolvida?
- Ufa! Nem sei como abordar este assunto.
- Claro que sabe. Você não foi jantar comigo por causa dela. Do contrário, mesmo que tivesse que desmarcar o nosso jantar, teria me ligado, não sua secretária. Sinal que não quis traí-la.
Carmem rodeou a beirada do copo de uísque com a ponta do dedo pensando nas palavras de Paula.
- Estou percebendo que a coisa é séria. Veja você, está resguardando ela.
- Não, não estou, é que...
- Pode falar. Eu não deixei de ser sua amiga.
- É difícil falar deste assunto.
- Está envolvida, admita!
- A verdade é que estou lutando para não me envolver.
- Por quê?
- Porque não quero me apaixonar por ela.
- Olha, quando falamos que não queremos nos apaixonar é porque já perdemos o controle dos sentimentos. O pior que eu acho é a negação, você está tentando enganar a si mesma.
- Admito que não quero ver o que vai dentro de mim.
- Estou notando. Vejo nos seus olhos e também... Nessa sua sensualidade que parece nem perceber.
- Tenho um envolvimento sexual, é isto. Faço sexo e gosto cada vez mais. Acho mais confortável acreditar que é o sexo que me agrada.
- Está falando sério? Para o sexo agradar é preciso gostar da pessoa que você transa. A gente se curtia, lembra?
- Quando nós íamos para a cama era apenas sexo. A gente transava o quê, duas vezes, três vezes por mês?
- Mais ou menos isso, só quando estávamos desesperadas por sexo e não aparecia ninguém interessante. O que vivemos certamente não se compara com o que está vivendo agora. Nós não ficamos nem balançadas uma pela outra.
- Eu sei que não ficamos.
- Eu ainda acho que ficar sem sexo é o maior atraso de vida. Você tem mais é que aproveitar.  
Carmem sorriu olhando pela janela. A mulher de preto, a que viu no restaurante estava sentada em uma mesa na sorveteria do outro lado da rua.
Voltou a fitar Paula comentando.
- Você deve se lembrar como eu gostava de beijar.
- Sim, é claro que eu me lembro.
- Pois é e eu nunca tinha feito sexo sem beijo na boca e agora, bem... Eu quero e não consigo beijá-la. É uma aflição porque minha vontade é tamanha... Ai, que agonia! Você não faz ideia da tortura que é não poder beijar.
- Ah, meu Deus! Ela não te beija?
- Não. Ela evita, vira o rosto, me escapa, eu não entendo a razão.
- Mas, já conversaram sobre isso?
- Não sei como abordar o assunto.
- Você aborda perguntando.
- Não quero perguntar nada. Além disso, não somos namoradas. A gente cobra quando tem uma relação, não é?
- Não são namoradas? O que vocês são?
- Somos duas mulheres que transam.
- Ok, mas mesmo sendo só sexual, também é uma relação. Você sabe que até na cama tem que haver concessões.
- Você me conhece, não vou implorar por beijos e fico pensando que ela só pode estar querendo me deixar fissurada.
- Se for este o objetivo parece que está conseguindo.
- Sim, está e eu quis fugir. Por isso aceitei o seu convite para jantar. Ia transar com você para parar de pensar nela. Desculpe por isto, eu não sou assim.
- Ia me usar, entendi. Sei que você não é assim. Eu também queria transar com você, não para não pensar em uma mulher, só porque estou mesmo a perigo.
- Eu imaginei, mas não dá. Foi uma ideia idiota da minha parte. Não iria adiantar porque ela está tão latente em mim. Sem contar que ela percebeu as minhas intenções ao aceitar jantar com você.
- Ficou com ciúmes?
- Ciúmes? Acha que ela sente ciúme de mim? Duvido!
- Qual é a natureza desta relação de vocês? Não se beijam; não são confidentes, ela não sente ciúmes, você não aceita que já está envolvida. Acha que isto vai dar em quê?
- Estou com cara de quem está achando alguma coisa, Paula? Por favor, vou eu lá saber? Se eu tivesse certeza de algo não estaria tão confusa com o que estou vivendo.
- Que droga, minha amiga, o que está acontecendo com você?
- Já falei que é um relacionamento sexual.
- Desde quando você desistiu de encontrar o amor?
- Amor cai do céu? Caiu algum no seu colo? Percebo que não já que ainda pensa que sou um alvo sexual à sua disposição.
- É assim? Vai me atacar porque estou tocando na sua ferida?
- Você não está tocando em ferida alguma...
- Tem certeza? Essa perturbação toda está te desorientando. Por que será?
- Porque sou feita de carne e osso, não estou morta e tenho sentimentos. É tão difícil assim perceber?
- Só estou querendo te ajudar.
- Você não pode me ajudar a não sentir o que eu sinto.
- Sei que não posso.
- Não pode mesmo.
- Tudo bem. Vocês não se beijam, mas fazem sexo oral, não é?
- Ahhh, como assim? Pareço ter me transformado em uma palerma? Que pergunta, é claro que fazemos! Ainda mais ela que tem uma pegada, meu Deus do céu, me deixa louca!
- Não me diga! Crazy? Adoro! Me conta tudo! Ela chupa gostoso? Quantas vezes você goza?
 - Está querendo ir a Paris sem entrar no avião? Tenha dó, eu não sou mais tão boba!
- Ai, Carmem, no passado nós contávamos tudo uma para outra. Não faz assim, amiga!
- No passado parecíamos duas atrasadas mentais. A gente era descuidada e não levávamos nada a sério. Sabe o que nós éramos?
- O quê?
- Duas otárias!
- Aí, que horror! Eu nunca me achei uma otária...
- Não? Paula, você pegava livros na biblioteca só para se masturbar.
- Nossa, é mesmo! Mas era tão bom.
- Tenha dó, você nunca leu nenhum daqueles livros. Eu ficava de cara com aquilo.
- Ok, eu sei que você leu todos aqueles livros e eu só brinquei com eles.
- Muitos daqueles livros eram incríveis e você perdeu porque só te serviram para sentir prazer.
- Você também não se masturbou quando os leu?
- É diferente, não acha? Eu me envolvi com cada livro, não os usei como se fosse um vídeo pornô.
- Eu sei, Carmem. De tanto você falar na minha cabeça eu passei a ler o fórum da revista Playboy.
- Lógico e fez muito bem! Pode crer, nem todo mundo nasceu para ler livros. E se tratando de sexo tem que ir direto à fonte. Livros são escritos por quem ama escrever. Pornografias são escritas para despertar prazer. É muito simples, você custou a entender, que bom que aprendeu.
- Pode estar certa que não uso mais este subterfúgio nos livros. Eu mudei, Carmem.
- Mas até poderia usar, se chegasse ao final do livro hahahahaha.
- Tudo bem, sei que você sempre achou isto muito pouco inteligente.  
- Acho realmente. Ainda assim dou por mim olhando para você e lembro-me do quanto nós já fomos pretensiosas. A gente transava só para ter orgasmos, pensa, isto é tão pobre. Depois ficávamos nos gabando como se fossemos duas espertalhonas. O pior é que ainda sonhávamos com o amor. Como encontraríamos amor no meio daquela vida vazia que a gente levava?
- Também não é assim, nós não transamos tanto. Peguei muita mulher gostosa. Você também pegou, nem vem!
Carmem pensou em Marcela e no quanto ela era gostosa. Tinha sim pegado mulheres gostosas, era verdade. Mais, aquilo é que era duro de encarar, nenhuma chegava aos pés de Marcela. 
- Eu também não me arrependo, mas se tivesse a cabeça que eu tenho hoje, teria feito tudo diferente.
Dados da autora: Então uma leitora diz: “Astridy Gurgel? Ah, ela escreve umas cenas de sexo ótimas.” Acho de fato patusco. Tomar atenção apenas às cenas de sexo é muita penúria, ui! Sim, tenho que admitir que exista quem goste de ler romances e quem goste de ler cenas de sexo. Apenas passa pela minha cabeça se a pessoa nunca ouviu falar em revista pornô. Hoje em dia basta entrar em um site do gênero e já está, goza rapidinho. Bom, a realidade é que cada uma faz o que bem entende com o que lê. A história fica e os orgasmos passam. Que o diga Uma Mulher Misteriosa.
- Imagino. Aposto que a sua mãe está feliz.
- A minha mãe feliz? Não mesmo, acha que ela é doida, psicopata, daí para pior. Vive me enchendo de perguntas íntimas, é um sufoco. Não dá para contar certas coisas. Se mamãe sonhasse como ela mexe comigo teria um faniquito.
- A sua mãe é muito esperta, ela já deve ter percebido.
- Ela tem as desconfianças dela, mas não alimento. Agora eu preciso ir. Ainda tenho que ir vê-la.
- Não está morando mais com ela?
- Não. A história é longa. Adorei te ver. Desculpe qualquer coisa. Você paga ou quer que eu pague?
- Eu pago, deixa! Amei te rever! Cuida-se, ok?
- Pode deixar. Cuida-se também. Tchau!
- Tchau Carmem!

Seguiu para casa onde esteve jantando com a mãe e a irmã. Laura comentou animada no fim do jantar.
- Ricardo adorou o carro novo que você mandou.
Carmem soltou os talheres fitando a irmã.
- Você disse que estava juntando dinheiro e que não compraria um carro. Não entendi.
A mãe comentou confusa.
- Alguma coisa mudou minha filha?
Não tinha dado carro nenhum e percebeu na hora que devia ser coisa de Marcela. Necessitava ajustar aquela situação. Não tinham que saber quem foi que deu o carro. Estava cansada de dar explicações.
- Achei que ele merecia. Não acham também?
- É que você falou que não daria carro nenhum. Achei muito estranho.
- Esqueça-se disto mãe, se ele ficou feliz, melhor para todos. Agora tenho que ir.
- Onde você está morando?
Laura perguntou indo até a porta com ela.
- Estou morando com uma mulher.
- Ah, sim, uma mulher! Como está sendo viver com ela?
- O sexo é maravilhoso.
Carmem comentou começando a rir.
- Oh! Quer melhor do que isto? Vocês estão tipo casadas?
Carmem sorriu beijando o rosto dela.
- Não estou casada, só estou morando com ela.
Calou-se olhando para a mãe de relance.
- Não comente sobre este assunto com mamãe. Ela não aprova a ideia nem gosta dela.
- Claro! Não gosta por quê? Mamãe a conheceu?
- Mamãe não a conheceu, mas você sabe como é a nossa mãe.
- Como sei. Podia trazê-la aqui. Talvez mamãe mude de ideia.
- Trazê-la aqui? Nem pensar.
- Então tá.
- E você?
- Eu o quê?
- Está namorando?
- Não. Sei lá, eu tenho uns rolos, sabe como é.
- Uns rolos? Tantos assim?
- Não são tantos. Essa coisa de relacionamento é um lance muito complicado.
- Eu que o diga.
- Deixa para lá! Tchau, Carmem!
- Tchau, mana! 
Foi direto para o hospital e o pai estava pior. Ficou algum tempo com ele e depois seguiu para casa de Marcela.
Continua...