sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Christina Aguilera - I Turn To You

A Portuguesa. - Capítulo 61.




Os dois veículos avançavam a toda a velocidade cada vez a aproximarem-se mais do carro de Leonor. Ela, que nunca havia conduzido a uma velocidade daquelas, olhava assustada pelo espelho retrovisor acompanhando os dois carros que naquele instante emparelharam-se disputando a passagem. O que não percebia é a razão do carro com os homens que a perseguiam estar a impedir que o outro carro o ultrapassa-se. Sem entender, viu o carro da direita quase perdendo o controlo, e percebeu que um dos homens estava atirando. O tiro disparado atingiu o ombro de Renata que com o impacto jogou-se para cima de Branca fazendo-a quase perder o controle da direção. Branca readquiriu o controlo do carro olhando para Renata preocupada.
- Fostes atingida?
- Fui, no ombro, mas eu aguento-me. Estes sacanas tem boa mira.
- Vou tentar detê-los.
- Não faço ideia como.
- Tenho que ficar atrás deles novamente.
- Então, mas não os vamos perder, pois não?
- A ver vamos.
Branca diminuiu a velocidade ficando atrás do carro.
Renata olhou-a dizendo preocupada.
- Acho melhor fazeres algo rapidamente, isso aqui está a doer-me imenso.
- Aguenta Renata.
Branca colocou a mão para fora da janela mirando o pneu traseiro. Começou a disparar, mas como estava em alta velocidade, atirando e guiando ao mesmo tempo, descarregou a arma sem acertar um único tiro. Voltou-se olhando para Renata decepcionada.
- Fui mal, hã?
- Péssima, espera.
Renata respondeu dando um meio sorriso para ela enquanto erguia as pernas no alto.
- O que estás a fazer?
- Este vidro já não nos serve para nada.
Dito isto Renata passou a chutar o vidro que já estava trincado, enquanto Branca recarregava a arma. 
- Não estou a gostar, olha que dás cabo das tuas pernas. Este vidro é muito resistente.
- Já está a soltar, vê.
Renata bateu os pés com toda a força novamente contra o vidro fazendo-o soltar-se estilhaçando-se pelo asfalto.
- Boa! Conseguistes, menina esperta.
Branca elogiou sorrindo para ela.
- Agora vamos a ver se acerto num daqueles pneus.
Renata debruçou o corpo para a frente, deitando metade dele sobre o capot do carro mirando assim um dos pneus. Acertou-o no terceiro tiro. Assim que o pneu foi atingido o motorista sentiu o impacto acelerando mais e ao fazê-lo bateu violentamente na traseira do carro de Leonor. Com o impacto, Leonor bateu a cabeça no vidro perdendo o controle da direção. Leonor ainda tentou desesperadamente pisar no freio, mas devido à alta velocidade não foi capaz de impedir o choque contra um poste. O carro com os dois homens rodou duas vezes antes de parar.
Branca agarrou a camisa de Renata puxando-a para o banco do carro. Assim que ela caiu sentada, prendeu o cinto de segurança nela. Pisando de uma vez no travão.
- Fica aqui quieta.
- O que vais fazer?
- Vou prender aqueles canalhas. Preciso deles vivos. Dá-me cobertura.
Branca correu na direção do carro onde o homem que estava no banco ao lado do motorista saltava com duas armas na mão. Foi na direção dele com a arma em punho falando:
- Polícia! Solte a arma e levante as mãos. Estás detido!
A resposta que recebeu foi uma chuva de balas na sua direção. Agilmente Branca atirou-se ao chão mirando nas pernas do homem, onde o alvejou em ambas, vendo-o cair feito um tronco a dois metros dela. Teve tempo de dar apenas um suspiro antes de se erguer.
Renata amparou-se na porta do carro percebendo que seu ombro sangrava imensamente. Ainda assim, ergueu a arma apontando na direção do carro para dar cobertura a Branca.
O motorista do carro que saía naquele instante, voltou-se armado na direção de Branca. Ela arregalou os olhos ouvindo o grito de Renata ecoando:
- Nãoooooooooooooooooooooooooooo!
Renata gritou alvejando o homem com um tiro na mão e outro na barriga. Era uma eximia atiradora da PJ.
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Ele gritou caindo ao chão contorcendo-se de dor.
Branca aproximou-se dele chutando a arma para longe. Depois fez o mesmo com a arma do outro que gemia de dor deitado do outro lado do carro.
Olhou para Renata perguntando:
- Estás bem?
- Poderia estar melhor, vá...
Renata respondeu no limite das suas forças ainda agarrada a porta do carro para não cair.
Branca correu para socorrer Leonor. Encontrou-a presa ao airbag que a protegeu do impacto da batida violenta. Branca abriu a porta constatando o sangramento na cabeça dela. Pegou o telemóvel pedindo uma ambulância. Só então falou com ela:
- Leonor? Leonor? Como estás? Magoaste-te muito?
Leonor voltou o rosto olhando-a aturdida.
- Branca? Aqueles homens estão aqui, tenha cuidado...
- Está tudo sob controlo. Deixa-me ajudar-te. Espera.
Branca parou arrancando a jaqueta que vestia.
- Toma, pressiona a jaqueta contra o corte na tua cabeça. O socorro já está a chegar. Magoaste-te em mais algum lugar?
- Acho que não. Tenho que ligar para Telma. Eu...
Branca viu-a desmaiando naquele instante voltando-se para ver como Renata estava.
- Ela desmaiou.
Renata olhou-a por um segundo, desmoronando no chão perdendo os sentidos na hora.
- Que droga!
Branca falou correndo até Renata. Sentiu-lhe o pulso constando que ela respirava. Olhou o ombro vendo que ela estava sangrando demais. Abriu o porta luvas do carro pegando um lenço. Amarrou-o no braço, depois ficou pressionando o ferimento para tentar estancar o sangue. Ouviu neste instante o som das sirenes se aproximando. Fez sinal para a ambulância com os braços quando a mesma chegou.
- Ajudem-me aqui! Ela está sangrando demais.
Duas mulheres aproximaram-se verificando o estado de Leonor. Uma delas falou:
- Ela está com hemorragia. Foi você que amarrou o braço?
- Sim.
- Há quanto tempo está pressionando o ferimento?
- Alguns minutos. Não sei precisar.
- Fizestes muito bem. Vamos levá-la agora. Esta hemorragia tem que ser estancada.
- Tem mais uma pessoa para ser socorrida.
- A outra ambulância está a chegar.
Branca ergueu-se avistando a segunda ambulância e os carros de policia que chegavam.
- Venham cá, ela está no carro. Acudam rápido, por favor!
Branca pediu aproximando-se da ambulância preocupada.
Os dois homens correram com a maca tratando de tirar Leonor do carro. Enquanto agentes da PJ saltavam dos carros. Um deles aproximou-se de Branca estendendo a mão, cumprimentando-a.
- A coisa esquentou por aqui. Está tudo bem consigo? Não foi atingida?
- Não fui, estou bem.
Um dos atendentes da ambulância voltou-se para Branca falando:
- Vamos levá-las para o hospital. Quem vai acompanhá-la?
- Eu.
Branca respondeu fitando o homem.
Um dos policiais da PJ gritou de longe:
- Os dois meliantes estão vivos.
- Eduardo? Preciso acompanhá-las até o hospital. Estes dois meliantes vão ser socorridos, mas estão presos.
- Vou tratar disso, vá descansada. O relatório do que se passou aqui, podes enviar uma cópia para mim?
- Trato disso amanhã. Tenho que ir. Algeme estes vermes, por favor. Adeus!
- Adeus!
Branca seguiu a ambulância de carro. Durante o trajeto ligou para Aima contando que estava indo para o hospital com Leonor.
- Não me diga uma coisa destas. Leonor foi baleada?
- Não, mas com a batida do carro magoou-se. Acho que bateu com a cabeça.
- O airbag não se abriu?
- Abriu, mas a Leonor perdeu o controle da direção quando aquele cretino bateu na traseira do carro.
- Percebi. Vou ligar para a Telma e encontramos-nos no hospital.
- Até logo!
- Até logo!
Aima voltou-se para Maria que estava deitada ao seu lado. Maria deu pausa no filme que estavam a ver.
- Leonor está a ser levada para o hospital. Bateram no carro dela.
- Vou até lá contigo.
- Vou ligar para a tia Fátima vir tomar conta das minhas filhas.
- Deixa que eu ligo por ti, amor. 
- Sim, liga. Obrigada querida. Vou avisá-las que vamos sair.
Aima avisou as filhas que estava saindo. Depois ligou para Telma explicando a situação.
- Estava a pressentir pela demora dela em dar notícias. Como ela está? Magoou-se muito?
- Parece que só a cabeça.
- A cabeça? Ah, meu Deus, ferimentos na cabeça são tão perigosos. Quem está com ela?
- Uma agente da PJ.
- Agente da PJ? Não estou a perceber. Olha, falamos no hospital! Já estou a ir.
- Sim, eu também estou a sair agora.
- Vá, vemos-nos lá.
Telma desligou ligando para Celeste completamente abalada.
- Tem calma, estou a caminho do hospital.
- Aima disse que uma agente da PJ está com Leonor. Sabes alguma coisa sobre isto?
- Sei sim. Explico-te tudo depois.
- Está bem. Não demores.
- Não vou demorar.
Branca estava sentada na sala de espera quando Aima entrou com Maria.
- Então? Como Leonor está?
- Levaram-na para fazer uma radiografia.
- A sério? Espero que não seja grave.
- Não deve ser. Ela estava apenas um pouco baralhada quando falei com ela.
- Isto não é bom, hã?
- Tem calma.
Maria pediu segurando o braço de Aima para confortá-la.
Neste momento Telma entrou correndo apavorada. Assim que foi informada da situação de Leonor, Celeste chegou abraçando-a. Telma voltou-se para Branca questionando incomodada.
- O que se passou? Por que estavas com a Leonor quando ela sofreu o acidente?
- Estava a proteger a Leonor.
- Proteger? Proteger por ordem de quem?
- Minha!
Telma voltou-se para Celeste admirada.
- E não me dissestes nada? Falamos ontem, vistes o meu estado, como podes deixar-me naquela agonia sem me contares os pormenores?
- Não te enerves. Acreditavas se eu te dissesse que a Wilma deu ordens para matar a Leonor?
- Por amor de Deus, não me digas uma barbaridade dessas!
Telma respondeu completamente chocada.
- Digo sim. A agente Branca ouviu a ordem na escuta que eu autorizei que fosse colocada para monitorar as conversas telefônicas dela.
- Isto é inacreditável! Estou chocada! Quero ouvir essa conversa logo que possível.
- Vais ouvir de certeza. Agora vamos-nos sentar. Precisas acalmar-te.
- Acalmar, então, achas fácil, achas? A Leonor magoou-se, quase lhe deram cabo da vida, agora queres que eu me acalme?
- Telma? Nós estamos contigo.
Maria falou sentando ao lado dela segurando suas mãos.
- Agora já passou. A Leonor está a ser atendida. Vamos torcer para que volte para casa sã e salva contigo. Tenhamos fé.
- Sim, tens razão, Maria. Fiquei completamente aturdida quando a Aima me ligou. Não sabia o que pensar, o que fazer, estou de rastos.
- Eu percebo, mas perder a cabeça não resulta, sabes, não é?
- Pois sei, obrigada querida.
Telma voltou-se para Branca perguntando:
- Conseguiste apanhar quem fez isto à Leonor?
- Estão a ser atendidos nesta unidade. Depois serão presos e interrogados.
- Perfeito! Se for a Wilma a responsável não deixarei que saia impune.
- Não sairá, isto eu te garanto minha irmã.
Após duas horas o médico informou que Leonor estava bem, só precisava fazer repouso em casa. Leonor foi liberada e todas foram embora.
Branca foi ver como Renata estava passando.
Renata já estava no quarto. Assim que Branca entrou ela falou apontando para o ombro:
- Aqueles cretinos pensaram que iriam dar cabo de mim. Olha que já me fizeram cá duas transfusões. Só espero que este sangue todo seja bom. Se não morri com uma bala, com sangue infectado é que não me apetece morrer.
- Ei, calma lá. Não te agites tanto.
Renata a olhou abaixando o tom de voz.
- Queres saber por que estou assim agitada?
- Eu percebo que seja desconfortável estar no hospital, mas tu tens que ver...
- Não bobinha, não é só por isso. Ela está a trabalhar neste hospital.
- Hum? O quê? Estás a falar da mulher que tu amas?
- Da própria.
- Oh! Então.
- Apetece-me vê-la, mas estou aqui estragada, isto é, nem sei o que vou falar. Ela vai aparecer acredita, foi ela que tirou a bala do meu ombro.
- Então já estivestes cara a cara com ela. Isso é bom.
- Eu estava meio desacordada. Abri os olhos e ela estava lá, mas desmaiei de seguida.
- Mas vais vê-la e é o que mais desejas.
- É sim, olha, não avises os meus pais. Não quero a minha mãe aqui a chorar dizendo que me avisou que trabalhar na PJ era uma loucura.
- O certo é avisá-los.
- Quando eu sair do hospital tu avisas. Essa cena de hospital é tramada. Vai assustá-los. Minha mãe vai fazer um drama desproporcional.
- Sim, então não aviso, mas vou ver se consigo ficar para cuidar de ti.
A porta abriu e Renata calou-se olhando deslumbrada para a médica.
Branca voltou-se olhando para a médica e a enfermeira que a acompanhava.
- Boa noite.
- Boa noite.
Branca respondeu observando como a médica era atraente.
Ela aproximou-se da cama com a enfermeira. Olhou para Renata perguntando:
- Está a sentir-se bem?
- Eu...
- Sim?
Denise Lemos possuía olhos azuis. Os cabelos estavam presos. Usava um batom suave nos lábios. Renata olhava embevecida para aqueles lábios completamente abalada quando os viu se abrindo enquanto ela voltava a inquirir.
- Está confusa? Sente-se ligeiramente tonta?
- Eu...
Branca interferiu rapidamente para ajudar Renata.
- Ela pareceu-me bem há pouco. Estava a contar-me que já recebeu duas transfusões de sangue.
- Ah, pois muito bem. Agora ela precisa descansar porque perdeu muito sangue. Trabalha com ela na PJ, então avise que ela vai ficar por cá mais uns três dias.
Denise respondeu correndo os olhos em Branca.
- Sim, eu aviso. Agora gostava de ficar com ela. Posso?
- Não devia avisar aos pais dela?
- Ela não quer que os avise ainda. Vão ficar muito preocupados.
- Não aprovo esta atitude. Eu mesma irei avisar. Não é parente, portanto, volte amanhã. Ela será muito bem cuidada.
- Não pode abrir uma exceção?
- Regras são regras.
- Está bem. Renata? Eu volto amanhã. Fica quietinha para ficares logo boa.
- Obrigada. Vou ficar.
- Eu volto amanhã.
- Sim.
Branca saiu e Denise voltou-se para a enfermeira solicitando.
- Providencie uma dose de midazolam injetável, por favor.
- Sim, vou buscar doutora.
A enfermeira saiu imediatamente.
Denise enfiou as mãos no bolso do jaleco fitando Renata atentamente.
- Sempre lhe alertei dos riscos da tua profissão.
- Sim, recordo-me. Eu não imaginava que estavas a trabalhar neste hospital. Desculpa, perdi a voz quando te a vi entrando.
- Eu percebi.
- Não achei que nos reencontraríamos numa situação destas.
- Pois é, mas a vida prega-nos peças. Estás a sentir dores no ombro?
- Só um pouco.
- O sedativo te fará dormir a noite toda. Vou deixar o plantão agora.
- Vai estar aqui amanhã?
Denise sorriu caminhando para a porta.
- Amanhã trabalho no Porto. Tenho certeza que serás muito bem assistida por outros médicos.
- Obrigada, eu...
- Tu?
- Gostava de poder falar contigo depois. Posso procurar-te?
- Achas que temos do que falar?
- Denise, acredita, eu tenho muito para te dizer.
- Tens mesmo? Não foi o que pareceu aquela noite no bar. Viste-me e saístes correndo feito uma louca.
- Pois foi, tens a razão, mas não estava a fugir de ti. Assustei-me imenso por te ver lá. Não estava a espera.
- A não estavas? Curioso.
- Eu só gostava de falar, por favor. Ouve-me nem que seja por alguns minutos.
- Põe-te rija, Renata. Depois, talvez possamos falar. Embora eu não perceba a propósito de quê.
- Ainda me odeias?
Denise apertou a maçaneta da porta olhando-a fixamente.
- Odiar-te? Quem te disse isso?
- Tu disseste quando me mandaste sair da tua vida.
- Ah, percebo! As coisas que eu disse foram duras, não me esqueci.
- Então?
- Não te entendo Renata. Não és feliz com o teu namorado?
Renata engoliu em seco. Denise sabia, mas como sabia?
- Perdeste a língua? Nunca que te imaginei com um homem. Não sentias atração por eles.
- Não estou mais namorando. Aquele relacionamento não foi...
- Importante? É o que ias dizer?
- Pois.
- Achavas que eu não sabia?
- Nunca pensei que soubesses qualquer coisa sobre mim. Eu nunca fui apaixonada por ele...
- Ah, Renata! Nem sequer era suposto dizeres-me. Isso não interessa. Adeus!
- Denise?
A porta fechou voltando a abrir, mas quem entrou foi a enfermeira. 
Renata passou o lençol no rosto para secar as lágrimas que escorriam pela sua face.
Continua...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Uma Mulher Misteriosa. - Capítulo 1.


Sinopse:
Carmem Santiago retornou ao Brasil para assumir a empresa do pai que fora internado à pressa devido a uma grave doença súbita. Em completo desespero, vê-se a braços com uma grandiosa dívida contraída por este ao pai da empresária Marcela Alvarez.
Num frente a frente com Marcela, Carmem rapidamente descobre que esta não é uma mulher de fazer concessões e não parece nada disposta a facilitar-lhe a vida.
Surpreendentemente, Marcela aceita negociar a dívida mas impõe-lhe uma condição. Algo que a Carmem em toda a sua vida, nunca imaginou ter de fazer.


Carmem Santiago entrou na fábrica observando tudo com grande tristeza. Antes de deixar o Brasil para estudar fora as coisas ainda tinham vida por ali. Chegou ao primeiro galpão onde eram fabricados os aparelhos eletrônicos em larga escala sentindo um aperto no peito. Aquele lugar estava praticamente abandonado. Seguiu para o segundo galpão onde existiam máquinas ainda em funcionamento. Viu alguns funcionários sentados jogando cartas. Notou as garrafas de cerveja long nek espalhadas sobre duas mesas. Os homens estavam divertindo-se no horário de trabalho a ponto de não perceberem a sua presença. Talvez o rádio ligado no último volume fosse à causa de não a terem visto entrando. Dois dos funcionários estavam dançando. A empresa estava totalmente entregue as moscas, pensou contendo as lágrimas.
Um dos funcionários voltou-se batendo os olhos nela. O rapaz ergueu-se a olhando de cima a baixo dando um sorriso.
- Opa! O que temos aqui? Quem é a belezoca? Veio se divertir com a gente?
Carmem arregalou os olhos ao ouvir as palavras dele.
- Olha aqui pessoal! Temos uma surpresa atraente.
Um deles parou a música aproximando-se dos outros que se voltaram também a examinando sem disfarçar a curiosidade.
- Quem é ela?
Perguntou outro cutucando o que tinha falado com Carmem.
- Não sei, mas é um belo pedaço de carne, não acha?
Pedaço de carne? Carmem perguntou-se intimamente sentindo uma antipatia imediata por aquele homem. 
Ouviram a voz do encarregado que surgiu apressado naquele momento fitando-os aturdido:
- Oh, está já aqui, senhorita Santiago! Estava a sua procura para acompanhá-la.
Rui explicou percebendo Carmem parada observando os funcionários emudecida.
Tentou justificar sem graça o relaxamento dos mesmos apertado.
- Eles estão no prazo agora. Aproveitam para se divertir um pouco, e...
Ela não abriu a boca. Seus olhos passaram pelas garrafas de cervejas espalhas pelas duas mesas atentamente.
- Hoje é aniversário do Cleber e... Compraram meia dúzia de cervejas para...
Carmem encarou-o sem disfarçar a incredulidade no olhar. Estava tudo escrito nos seus olhos e na expressão de descontentamento dela. Como que satisfeita com a explicação, girou nos calcanhares deixando o galpão sem pronunciar uma única palavra. Aquilo era o cúmulo do absurdo.
Entrou na empresa seguindo para a sala que o pai ocupava. Assim que surgiu a secretária ergueu-se a cumprimentando surpresa:
- Senhorita Santiago, seja bem vinda! Recebi seu telegrama informando da sua chegada à semana que vem.
- Como tem passado Solange?
- Estou bem, obrigada!
- Antecipei-me quando recebi informações de que as coisas por aqui andavam péssimas. Pelo que constatei a empresa está às moscas. O único galpão ainda em funcionamento transformou-se em um clube. Fiquei chocada com o que vi lá!
- As coisas realmente não estão correndo bem já faz alguns meses. As máquinas como constatou, apenas algumas ainda funcionam, e os funcionários, sem encomendas de aparelhos para produzir ficam mais matando o tempo para cumprir a carga horária do que trabalhando.
Carmem respirou profundamente perguntando:
- Está falando sério? Os funcionários vêm aqui matar o tempo? Isto é inadmissível!
- Eu também acho, mas é assim mesmo que a banda toca por aqui.
- Está certo, vou me inteirar da situação da empresa. Providencie o relatório dos registros de atividades deste ano, de preferência atualizado, por favor.
- Vou providenciar agora mesmo. Tem notícias do seu pai?
- Passei no hospital antes de vir para cá. O quadro não é bom.
- Eu sinto muito.
- Obrigada! Ah, e marque uma reunião com os encarregados, isto é, com todos! Convoque os que estão aqui passando o tempo e os que nem devem aparecer para trabalhar.
- Tratarei disto imediatamente!
Carmem entrou na sala do pai aproximando da cadeira onde ele costumava sentar-se. Acariciou o encosto por alguns segundos entristecida. Sentou olhando tudo em volta. Viu algumas pastas sobre a mesa passando a ler com atenção. Precisava se informar da situação atual para salvar a empresa. Ou metia as caras ou acabariam fechando as portas. Foi o que fez passando a trabalhar obstinadamente.
Durante aquela primeira semana em que estava de volta saiu apenas com a família para jantar. Também porque era aniversário da mãe e não podia deixar de comemorar com eles. Foram jantar em um restaurante requintado. Tirou da sua reserva pessoal o dinheiro para gastar com a família num ambiente que sabia que os agradaria. Principalmente a mãe que fora acostumada com uma vida de luxo, ao menos quando vivia no Brasil a família tinha muitos recursos. Agora não mais, estavam completamente sem dinheiro. Para piorar tinha descoberto que o pai devia dinheiro para o falecido, Sr Alvarez. Um homem do qual se recordava por ter conhecido há muitos anos quando o pai a levou a sua casa com o irmão e a irmã. O fato do Sr Alvarez ter morrido não os livrou da dívida. Em conversa com o advogado da empresa, foi aconselhada a tratar daquele assunto com a filha, Marcela Alvarez, isto acaso conseguisse chegar até ela. Segundo ele seria mais fácil tratar com os advogados dela. Poderia pedir um prazo para efetuar a quitação da dívida. Decidiu que o faria, não seria pelo pai estar no hospital que deixaria de resolver todas as pendências. A questão é que existiam outras dívidas. Devia investir para colocar as máquinas novamente produzindo. Precisava de dinheiro para adquirir maquinários mais modernos. Teria que arrumar mais clientes para adquirir seus produtos. Existiam os processos trabalhistas que estavam sendo pagos acordados em parcelas. Os pagamentos das parcelas levavam uma boa parte do que a fábrica arrecadava. Num plano geral tudo que a empresa ainda coletava era para pagar os funcionários e as causas trabalhistas. A situação era desesperadora.
Interrompeu aqueles pensamentos voltando a atenção para a mãe e os irmãos. O melhor que tinha a fazer era aproveitar aquele momento com eles. Passou a prestar atenção no que estavam falando. Foi neste instante que seus olhos cruzaram com os olhos de uma mulher sentada há algumas mesas da sua. Não foi só a beleza dela que chamou sua atenção, o olhar penetrante a deixou desconcertada no primeiro momento. Aquilo não era assim uma novidade ser encarada por uma mulher, mas aquela mulher era demais. Imaginou que devia estar esperando por alguém e quando a pessoa chegasse iria se esquecer dela. Só que não foi o que aconteceu, não chegou ninguém e a mulher continuou devorando-a com aqueles olhares profundos.

         Uma semana depois, Marcela Alvarez desceu de banho tomado aceitando o drinque que a tia lhe passou na sala. 
Sentaram e Telma questionou-a:
- Tem certeza que vai voltar amanhã para o Brasil? Você ficou apenas cinco dias. Deveria aproveitar um pouco mais sua estada na Itália. É um país tão bonito.  
- Tenho sim tia. De mais a mais conheço bem boa parte da Itália. Já conclui o negócio do qual vim tratar. Preciso mesmo voltar para o Brasil. A senhora bem sabe que não gosto de cuidar dos negócios à distância. 
- Você nem chegou a sair à noite. Esqueceu-se de como a noite em Florença é deliciosa?
- Eu saí para jantar em Milão.
- Só para jantar? Não entendo porque você não paquera. Não acha que seria gostoso ter uma namorada?
- Namorada? Está falando sério, tia?
- Claro que estou.
- Não, não penso em namorar.
- Não pensa porque não conheceu uma mulher que te faça sentir vontade de correr atrás dela.
- Tem toda razão, não conheci mesmo. Todas as mulheres me parecem à mesma coisa. Olho e não sinto nada. No fundo sei que sou muito possessiva. Nem sei se alguma mulher me aguentaria.
- Hum. Em um relacionamento as pessoas não se aguentam, elas se completam. Na convivência acabamos fazendo concessões. Nem percebemos, mas mudamos muito para agradar, não a nós mesmas, mas a pessoa que passa a fazer parte da nossa vida.
- Não é um assunto em que eu costume pensar com regularidade. A minha vida é tão corrida, a senhora sabe por que tem um relacionamento longo. É justamente por isto que pensa que eu também devo ter um relacionamento. 
- Isso é bastante incomum, Marcela! Na sua idade, assim tão cheia de energia devia estar aproveitando a vida. Nem sei se fiz bem quando te aconselhei a transar com aquela louca que se hospedava na minha casa. Acho que não foi à mulher certa para...
- Ser a minha primeira?
- Exatamente! Tanto tempo se passou e você parece ter desgostado das mulheres.
- Nunca neguei que aquela mulher me assustou um pouco, mas sexualmente foi uma experiência válida. Aprendi muito com ela e senti prazer. Era o que importava, sentir prazer.
- Não sabia que ela era tão louca. Quando começou a trazer outras mulheres para transar em grupo tratei de colocá-la para correr. Foi ultrajante o comportamento dela! Não sei onde que ela estava com a cabeça imaginando que eu deixaria você, tão nova, participar de bacanais.
- Aquilo foi muito estranho, admito! Confesso que me desencantei um pouco. Depois me dediquei mais aos estudos como bem sabe. O tempo passou rápido e comecei a trabalhar. Foi apenas isto. Mas, se quer saber conheci uma mulher antes de vir para Itália.
- Conheceu? Então me conte. Como foi que a conheceu?
- Ela estava jantando com a família, na verdade não chegamos a conversar, nós apenas trocamos olhares. A senhora recorda de Antônio Santiago?
- Aquele que jogava golfe com o seu pai? Claro que recordo. Seu pai costumava emprestar dinheiro a ele. Esteve no enterro e até nos falamos rapidamente.
- Esteve mesmo, eu recordo. É a filha dele, Carmem Santiago.
- Ah, sim! Antônio tem duas meninas e um menino. Há alguns anos, em umas das viagens que fiz para o Brasil, ele apareceu com os filhos. Agora devem estar todos adultos.
- Estão sim, quero dizer, o menino é um adolescente. Deve ter por volta de quinze a dezesseis anos. É o que aparenta.
- Carmem está bonita? Era uma adolescente cheia de espinhas no rosto.
- Naquele rosto não tem nem mais uma espinha. É uma mulher muito bonita. Fiquei completamente deslumbrada.
- Então qual é o problema? Procure por ela logo voltar.
- Claro que não, tia! A senhora mesmo lembrou, o pai dela fez muitos empréstimos com papai. Faz ideia do valor dessa dívida?
- Não, qual é o valor?
Marcela mencionou o valor fazendo a tia dar um assovio surpresa.
- Meu Deus! Tudo isto?
- Papai passou anos emprestando dinheiro para Antônio.
- Foi o seu pai que te contou?
- Não, papai não me contou nada. Eu trabalhava unicamente na área da produção. A administração sempre ficou a cargo de papai. Quando ele faleceu, em reunião com os advogados fui informada sobre a dívida. Dez anos emprestando dinheiro sem receber? Realmente não consigo entender onde papai estava com a cabeça.
- Não sei muita coisa, no entanto, seu pai comentou certa vez que gostava muito do Antônio. Talvez você não compreenda, mas existem pessoas que são muito persuasivas. Sabe, tem uma lábia impressionante de maneira que conseguem convencer as outras a fazerem o que elas querem. Ademais, têm amigos que acabam sendo como irmãos.
- Não se justifica. O que eu sei é que quando se empresta dinheiro para amigo pode-se perder os dois.
- É bem verdade, só não se esqueça do quanto o seu pai era bom.
- Não sei mais se papai era bom ou bobo.
- Não fale assim. Diga-me, você cobrou a dívida?
- Está sendo tratado no departamento jurídico da companhia. Eles ponderam bastante antes de iniciar uma ação judicial. Para agravar a situação Antônio foi hospitalizado. Creio que com isso a coisa anda paralisada. Vou-me informar quando retornar. Ainda assim tenho várias viagens marcadas. Não terei tempo suficiência de me dedicar a essa questão por enquanto. O que fiquei sabendo é que Carmem voltou para o Brasil para cuidar da empresa do pai que segundo sei, está a ponto de fechar as portas.
- Espera aí, ela entende alguma coisa deste ramo de negócio?
- Isto eu já não sei. Pelo menos é formada em administração de empresas. Daí assumir a empresa do pai em queda livre pode ser um grande desastre.
- Como sabe tanto sobre ela?
- A senhora me conhece, mandei logo investigar tudo sobre sua vida.
- Ah, então você ficou realmente interessada.
- Não vou negar que estou bastante motivada.  
- Eu sabia que o dia que conhecesse uma mulher que te chamasse atenção você pensaria em namorar.
- Não precisa ir tão longe tia, eu só estou pensando em levá-la para a cama.
- É só isto que você quer, sexo?
- Sim, sexo! Por que não? Somos duas mulheres solteiras.
- Apenas sexo vai ser algo tão sem sentido, Marcela. Não vai te preencher em nada.
- Não faço questão de ser preenchida, só quero aquela mulher nos meus braços.
- Ela também é lésbica?
- Para a minha sorte é.
- Se ela se interessar por você do mesmo modo acho que deve aproveitar para conhecê-la melhor.
- Ela ficou atraída por mim, vi os olhares que me lançou. Aposto que se não estivesse com a família naquela noite teria ido para um motel comigo.
- Tanto assim? Só pelos olhares acredita que a teria seduzido a tal ponto?
- Teria sim.
- Está explicado porque quer voltar para o Brasil.
- Também. Ela já deve estar ciente da dívida do pai e vai tomar alguma atitude.
- Tem certeza que não vai mandar seus advogados para cima dela?
Marcela sorriu gostosamente pensando sobre aquilo.
- Não, não vou mandar. O pai está no hospital e pode acreditar, ele está falido. O que eu sei é que a dívida terá que ser paga de um jeito ou de outro.
- Como assim de um jeito ou de outro?
Marcela refletiu que não deveria contar aquela parte para a tia. Ela não aprovaria seus métodos. Desejou levar Carmem para a cama naquela noite, agora desejava muito mais. Durante toda aquela semana não a tirou do pensamento. Não queria saber como iria conseguir transar com ela, só sabia que ira transar de qualquer jeito.
- Bem, não compreendi exatamente o que quis dizer, só acho que você deve ser maleável porque Carmem não tem culpa das dívidas contraídas pelo pai. Ainda mais um montantes destes.
- Eu é que não tenho culpa!
- Marcela não se esqueça de que você é humana!
- Sou humana, mas desde quando tenho que me vestir de Santo Agostinho? Deixe me ver, como é mesmo aquela frase dele que a senhora vive me falando?
- Não se lembra? Eu sempre falei tantas...
- Sim, espera, ah, lembrei: “Quando fores orar, começa perdoando.”
- Viu como as coisas boas que te ensinei ficaram gravadas?
- Sim, mas pensa que vou perdoar uma dívida destas? É claro que não vou!
- “O supérfluo dos ricos é propriedade dos pobres.”
- Tia? Eu não sou assim, a senhora me conhece, não sou um poço de bondade e não perdoo dívidas. Quem deve tem que pagar. Pago minhas contas, meus empregados, minhas compras, meus luxos, meus...
- Não estou falando que você está errada em querer receber. Estou te falando que você pode ser menos dura com Carmem. Quando se está lidando com homens é uma coisa, com mulheres é completamente diferente. Lide com uma mulher como se estivesse tocando em flores.
- Não faço distinção em negócios, tia! Homens, mulheres, são todos iguais.
- Não são iguais. Marcela, por favor, não me decepcione. Eu não te criei como criei para ouvir estes absurdos que está me falando agora.
- Desculpe tia, não sou um banco.
- Quando o seu coração se encher de amor, essas palavras perderão todo o sentido.
- Pois que venha o futuro. Eu não faço a menor ideia do que seja amar alguém.
Continuaram bebendo e conversando sobre assuntos variados. Após o jantar se recolheram. Assim que Marcela deitou, achou engraçado lembrar-se de mais uma das frases de Santo Agostinho que a tia falava:
“Já li, Sócrates, Platão e Aristóteles, mas em nenhum deles li: Vinde a mim, todos os cansados e oprimidos que eu vos aliviarei.”
Não era a mãe da benevolência. A bondade não tinha sido inventada por ela. Não fazia questão de ser condescendente com ninguém. Queria Carmem porque passou a sentir um desejo que nunca sentiu. Seu corpo queimava só de pensar nela. Se tivesse que se aproveitar daquela dívida para levá-la para a cama o faria sem sentir a menor culpa. Por que sentiria culpa? Ela também a desejava, ou desejou àquela noite. O que era a vida se não desfrutar dos prazeres?
Foram, entretanto, muitas semanas depois que Carmem conseguiu marcar uma hora para falar com Marcela Alvarez. Mal conseguia esconder seu espanto enquanto seguia pelas dependências da gigantesca companhia. Ouvira falar do poder da família Alvarez, mas não supôs que fosse tamanho. O prédio tinha vinte andares. Uma infinidade de funcionários transitava de um lado para o outro. Parada diante do elevador observava tudo abismada. Sabia que o pai negociava com o velho Sr. Alvarez. Com a sua morte, todo o controle passou automaticamente para as mãos de sua filha. Ouvira falar muitas coisas sobre Marcela Alvarez. Diziam coisas assustadoras sobre ela. Contavam que era uma criatura fria, dura e implacável. Outras histórias davam conta de sua vida reclusa no casarão dos Alvarez e que nem um iceberg era tão gelado quanto ela. Sua fama de não perdoar e punir o menor erro era famosa.
Seu corpo estremeceu quando o elevador parou e a porta se abriu levando-a até o último andar. Ali encontraria a mulher que poderia devolver sua paz ou destruí-la de vez.
Continua...

sábado, 31 de dezembro de 2016

Feliz 2017.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Boas Festas! - Por Astridy Gurgel.

A Portuguesa. - Capítulo 60.


Assim que foram para o quarto mais tarde, Maria ficou a observar Aima. Após voltar da casa de banho, Aima despiu-se ainda silenciosa indo juntar-se a ela na cama.
- Então? Estás tão caladinha. O que se passa?
- Não fazes ideia como fiquei triste por ter que cortar as ilusões da Laura. É a primeira paixão dela, mas pronto, não é possível. Ela tem tanto para viver ainda. O que eu mais vejo são adultos frustrados desejando voltar a infância. Cortei de vez e digo-te mais, vou até a escola falar com a mãe da miúda. Pelo que a Viviane contou deve ser uma pessoa horrível. Imagina querer bater na Laura. Fiquei possessa, mas contive-me diante das duas.
- Eu percebi o quanto te contiveste, meu amor. Sabes que as miúdas de hoje entram na puberdade cada vez mais cedo, e as mães precisam estar atentas. Fizestes bem ao explicares as razões dela não poder namorar ainda.
- Fiz sim fiz, mas cortou-me o coração podar-lhe as asas. Ela está a ficar excitada amor, falou-me sobre o facto bastante baralhada. Pronto, mas já sabemos que anda a masturbar-se, não há nada a fazer, também não posso proibir tudo. Isso é coisa que ela vai continuar a fazer no quarto dela.
- Não te ponhas com ideias, sabes que ela se está a se tornar uma mocinha. É normal que a Laura esteja a sentir apelos da carne. Andou aos beijos lá com a miúda, é natural que tenha despertado e que se toque. Masturbar não tem mal nenhum, sabes que não.
- Pronto, não tem, mas imaginar que está a masturbar-se, ai, não pensava que ser mãe era tão difícil. Ela disse-me olhando nos meus olhos que é tão lésbica quanto nós. Então ela está convicta, amor!
- Ficas preocupada com isto? Que ela seja lésbica e tenha essa certeza?
- Não, mas fico a imaginar o que lhe passará pela cabeça. Pode estar a querer imitar-nos, não achas? Não pensastes nessa hipótese?
- Achas? Não creio. O jeitinho dela querida, se reparares ela é toda, percebe? O tipo de roupas que gosta. A Viviane fica doida com os vestidos e a Laura vive a torcer o nariz para eles.
- Pronto, já percebi, mas eu adoro vestido e tu amas-los. Faz-me confusão que ela não goste.
- Não é que ela não goste, é facto que prefere roupas mais despojadas, percebo nela um estilo próprio. Também não estou aqui a fazer previsões, fomos às compras e ela quis um tênis masculino. A moda hoje é unisex, então não fiquei a fazer filmes. E depois, escolheu uma camisa com gola porque quis também uma gravata borboleta. A camisa, pronto, também era masculina.
- Ah, e só me alertas agora?
Aima perguntou admirada.
- Oh, querida, mas se tu estavas junto connosco, devias ter dito qualquer coisa.
Maria respondeu surpresa.
- Não estava a prestar atenção nas escolhas das duas, estava encantada contigo.
- Sim, percebi. Entretanto eu prestei atenção. Até porque eu adorava usar aquele tipo de gravata com um terninho bem feminino. Chamou-me atenção, foi isso. A Laura mal correu os olhos nas roupas da secção feminina, tudo que gostou foi da secção masculina. Estes são os sinais que muitas vezes nós não nos apercebemos. Se ela estivesse a imitar-nos iria querer as roupas mais femininas.
- Achas que ela vai vestir-se como os bofinhos?
- E se for, vais achar ruim?
- Amor, eu só soube disso hoje. Tu disseste bem e já agora admito que não me dei conta dos sinais. A Laura ama futebol e a Viviane não dá a mínima.
- Isso não quer dizer nada, eu não dou a mínima para futebol, querida. Já tu gostas, não acho que gostar de futebol defina a orientação sexual de uma pessoa. Quantas mulheres há neste mundo que amam futebol e são heterossexuais?
- Sim, mas...
- Quando a Laura te olhou nos olhos afirmando que é lésbica tu sentistes que ela é de facto?
- Senti. Meu Deus, senti até um calafrio com a certeza com que ela o declarou.
 - Pronto, então temos que tratar de apoiá-la. Nós sabemos que não é fácil, o preconceito não dá descanso.
- É verdade. Ah, amor, eu só quero que a Laura seja feliz. Vou apoiá-la sim. Isso é o mínimo que eu posso fazer. Nunca que imaginei que uma das duas seria lésbica, pronto, agora terei que acostumar-me com essa realidade.
- Sabemos que é um choque. Eu quando tive a certeza de que era lésbica fiquei muito assustada e claro, senti imenso medo do que os meus pais diriam. Ficava a imaginar eles os dois a apontar-me os dedos. Tinha certeza que o meu pai diria que não criou uma filha para isto e a minha mãe, acreditava que ela nunca mais falaria comigo. O medo que senti foi assustador e nada aconteceu como imaginei. Lógico, eles levaram um susto, mas com o passar do tempo, e penso que ocorreu assim também porque eu não namorava ninguém, pois vivia a sonhar contigo, meus pais acabaram por aceitar no silêncio deles. Isso não é assim uma coisa fácil de ser digerida. Nós temos a nossa certeza do que somos, mas o medo de não sermos amadas como tal é horrível. A Laura de certeza sentia este medo e por isto não queria que a Viviane te contasse.
- Sim, percebi o quanto ela estava cheia de medo desta revelação. Agora já sabe que não a condeno e penso que isto vai deixá-la mais tranquila. Frustrada, mas de certeza mais calma diante do que conversamos. Eu disse-lhe que tem que esperar pela idade certa, e, tu sabes o quanto esperar é difícil.
- É muito difícil sim. Ela vai sofrer com esta espera.
- Vai, mas posso tornar os dias dela mais cheios.
- Mais cheios? Como o farias?
- Evitando que ela fique ociosa, portanto, vou tratar de arrumar atividades com as quais ela possa ocupar a mente. Acho bem que ela aprenda outros idiomas. Pode fazer aulas de dança ou outras coisas que sejam do seu interesse. Aulas de pintura, de viola e canto. Ela gosta de viola e adora quando estou a cantar. E leitura! Temos que comprar livros que ela precisa ler.
- Ela vai ter que querer querida.
- Claro, vou sentar-me com ela para vermos tudo com calma. Eu só não, nós as duas iremos sentar-nos com ela. Quero que participes de tudo, meu amor. Vou tentar deixar a Laura o mais confortável possível. Não quero ver a minha filha chorando pelos cantos por causa de uma miúda. Era o que faltava, que ela perca a infância desta maneira. Ela vai ser uma miúda forte com o nosso apoio. Quero encontrar formas de tirar não só a Laura, mas a Viviane também do telemóvel e do tablet. Aquilo não dá jeito pra nada, não achas? Não aguento ver tanta perda de tempo.
- Pronto, se não estão a aprender nada concordo contigo.
- Não mesmo, vamos ocupar o tempo delas com várias atividades. Pensava que a Laura podia gostar de escrever o que está a sentir num diário. O que tu achas?
- Amor? Diário? Já não se usa. Isto era usado quando não existia internet, telemóvel, chats, não exageres, também não é assim. Tens que te focar em coisas atuais.
- Achas? Hum, são só coisas que eu estou a planear para entusiasmar a Laura. Apenas não quero que fiquem o tempo todo no Facebook ou no WhatsApp quando podem estar a aprender coisas mais importantes para o futuro delas. Por acaso elas leem alguma coisa no Facebook ou no...
- Claro que não leem, ficam a conversar, sabes bem disto.
- Pois sei, estão mais a perder tempo. Nas horas de descanso podem voltar para o Facebook e para o WhatsApp porque isto ninguém tira de ninguém nunca mais.
- Pronto, mas neste exacto momento a Laura deve estar a pensar nos beijos da miúda. Dá-lhe uma semana e depois sentamo-nos com as duas. Vamos ver o que elas gostam e querem fazer. Tem que ser devagar e não poderemos impor-lhes nada. Falamos das atividades e das vantagens de cada uma e vemos no que dá. E já agora vamos fazer amor sem gemer alto.
- Hahahahahaha, sim acho melhor.
- Ficastes muito tensa e te vou relaxar. Também eu estou a precisar sentir-te.
- Sim, mas amor?
- Oi.
- Tu ficas incomodada por eu ter duas filhas quando poderia ser apenas nós as duas?
- Que ideia, lógico que não! Adoro as tuas filhas, e, pronto, foi uma surpresa descobrir que as tinhas, mas morando aqui já me afeiçoei a elas. Não penses asneiras, eu amo-te, Aima. E vou amar as tuas filhas. Vamos criá-las juntas. Agora cala-te e beija-me.

“O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado. O amor é tão inerente quanto à própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça que se chama paixão.” (Clarice Lispector)
As policiais passaram o dia dentro do carro. Renata observou que Branca enviou algumas mensagens na parte da manhã. Almoçaram num restaurante em frente ao prédio onde Leonor estava a trabalhar. Depois do almoço, Branca pegou um livro passando a ler. Renata adormeceu ao seu lado. Passava das dezessete horas quando Branca despertou. Acordou olhando-a em volta reconhecendo onde estavam.
- Adormeci. Por que não me chamaste?
- Dormistes e pronto, estive a ler. Tudo bem, ela ainda está a trabalhar.
- Boa. E nós estamos aqui a fazer nada. Sabe bem também ficar a olhar para o tempo.
- É preciso esperar.
- Já fizeste muito isto, vigilância?
- Algumas vezes.
- Hum.
Renata pegou a garrafa de água ingerindo alguns goles. Depois ficou a olhar as pessoas passando de um lado para o outro, o movimento dos carros, o abrir e fechar dos sinais. Percebeu que Branca pegava o celular, olhava e o largava de novo.
- Um café agora cairia bem. Vou comprar, queres?
- Sim, vou dar-te o dinheiro...
- Deixa-te disso, eu pago.
Renata foi comprar o café. Branca voltou a conferir se tinha uma resposta de Corina no telemóvel. Não tinha nada. Largou o celular vendo o homem que saiu do carro do outro lado da rua novamente. Desconfiou que fosse o homem que seguia Leonor no decorrer da tarde pela inquietação em que se encontrava. Teve mais certeza quando viu outro homem sentado no carro.
Branca voltou, entrando no carro toda animada.
- Toma! Trouxe café e alguns pastéis de Belém. Acordei cheia de fome!
- Tu vives cheia de fome. Fostes muito simpática, obrigada!
Branca respondeu sorrindo para ela.
- Comer é tão bom, não achas? Hummmm!
- Sim, acho.
Comeram. Depois Branca voltou a pegar o telemóvel conferindo ansiosa se havia qualquer coisinha.
 - Algum problema? Não paras de olhar para este telemóvel.
- Então, não é nada.
- Não? Sei, não é nada o quê? A forma como estás a conferir o telemóvel, não duvido nada que estás saindo com alguma rapariga às escondidas.
- Não dissestes que toda gente anda com alguém? Não comentei porque, pronto, não tinha nada para comentar. Foi só um...
- Engate?
- Não tenho a certeza, acho que não escolhi as palavras certas para falar com ela depois.
- Fostes sincera?
- Pois, fui.
- Esmagadoramente sincera como costumas ser?
- Então, tu sabes, e qual é o problema?
- Isto não é assim, tu não podes transar, depois dizer que era só o querias, dizer adeus e já está! Há pessoas que se ressentem e com razão porque se sentem usadas como é lógico. Gostavas de sentir-te usada? Não gostavas, eu sei que não, somos amigas ai já há um bom tempo. Eu não gosto, oras, tu sabes. Namorei lá com aquele pateta, aquilo, olha, eu não sei como fiquei tanto tempo com ele. Nem gostava lá muito do, do... Do sexo! Não gostava, pronto. Eu é que tinha que me virar para gozar. Sem contar que tinha uma coisa, ficava a coçar o saco depois do sexo. Aí, que aquilo dava-me uma vontade de dar com alguma coisa na cabeça dele. Eu não percebia se estava só a coçar, se estava a masturbar-se, valha-me Deus! E mais te digo, mulher não fica a coçar-se, mulher é diferente, mulher é outro nível.
Branca prendeu o riso olhando para Renata admirada.
- Tás a olhar-me assim por quê? Não achas que é diferente? Tu sabes que é! Nós não nos portamos com essa deselegância toda.
- Bem, pois. Sabes que desde sempre as pessoas transam e dão adeus. Não sou diferente de ninguém.
- Tás a perceber muito bem o que estou a dizer.
- Estou, mas não percebo porque as mulheres preferem ser iludidas.
- Não tem nada a ver com preferirem ser iludidas. É tramado, tens que demonstrar que sentes alguma coisinha. Fazes um charme, uns mimos, dizes que gostavas de repetir, pronto e saís de fina da história. Depois cada uma vai para um lado. Essa rapariga nota-se que estás a sentir qualquer coisinha por ela. Nunca te vi assim a sondar o telemóvel a cada segundo.
- Eu tenho a cabeça arrumada, Renata, só não sei definir o que estou a sentir. Justamente por isso os sentimentos não são pra aqui chamados.
- Discordo, é por sentir qualquer coisa que estás assim. Pensas que toda gente já não sabe que não te queres envolver com ninguém?
- Lá vens tu com toda gente! Não quero saber de toda gente pra nada. Essa mulherada que tu falas quer mais é me chupar! Elas que se chupem entre elas!
- Calma lá! Que bicho te mordeu? Estás feito um barril de pólvora. Também não exageres. É assim, só tens que ser cuidadosa com as palavras, é tão simples quanto isto.
- Então, é isto que... Pronto, podia ter sido diferente na despedida. Posso ter metido a pata na poça, admito. Fui falando sem pensar, se eu tivesse ficado calada ganhava mais.
- Já percebi, colocastes tudo pra fora, mas tem calma, isso resolve-se. O ruim é que há situações em que o depois estraga o começo.
- Lógico, dei-me toda contente e ela não se deu por contentada. Porque não dava para ficar satisfeita com o prazer, com a coisa toda que vivemos? Depois as mulheres não gostam quando dizem que elas são complicadas.
- Sabes muito bem que somos todas complicadas, também os homens o são. Emocionalmente parecemos com umas formiguinhas perdidas sem rumo. Tu só estás mordida pelo silêncio dela. Não tens que culpar o mundo, não faças isto, eu já o fiz e pronto, ferrei com os meus sonhos.
Branca analisou Renata percebendo o ar melancólico que surgiu no seu semblante.
- Não me digas que te desiludistes. Tu não pareces alguém de coração partido. Estás sempre a sorrir, cheia de vida a chamar-me para sair, animadíssima para ir para os copos com a malta toda, doida para me jogar no colo de alguma rapariga. 
 - Eu? Queres a verdade? Já andei com uma rapariga, e... Não faças essa cara nem me digas nada!
- Estou só a ouvir-te.
Branca respondeu sem de facto ser surpreendida. No fundo tinha uma desconfiança de que Renata tinha uma queda por mulheres. Achava mesmo que ela era lésbica e ainda não se tinha dado conta.
- Tive um relacionamento com uma rapariga. Quando acabou não voltei a vê-la, quero dizer, até ontem. Apareceu lá no bar. Fiquei louca para me aproximar, mas pronto, estava acompanhada. Estive para morrer, senti mesmo o coração a vir pela boca. Foi péssimo, fiquei arrasada por vê-la com aquela lá. Ainda para mais nem sei de onde surgiram, nunca lá tinham estado.
- Hum.
- Não me venhas dizer que já desconfiavas.
- Eu nem abri a boca ainda, mas pronto, não estou a negar.
- Pois, já imaginava que desconfiavas. Eu nunca a esqueci e isso é um grande peso. Falastes que Clarice te faz sonhar e tu não imaginas como eu ainda sonho com os beijos, com a voz, com tudo naquela mulher. 
- Bem, só o que posso dizer-te é que esta foi à revelação do ano, minha cara, Renata Torres. Não nego, tinha sim as minhas desconfianças, mas tu admitires? Surpreendeste-me em grande. 
- Pois.
- Então, o que fazes andando com gajos? Não estás trilhando caminhos contrários a tua natureza? Vês que não é, pela tua implicância com o facto do gajo coçar o saco. Isto é coisa de homem, sabes bem. Não devia incomodar-te ao extremo.
- Incomoda-me sim e muito.
- Então, por que namoras gajos?
- Ah, Branca, se eu amo uma rapariga para que me servem as outras? Só me sobraram os gajos.
- Pronto, mas parece-me a treta de uma pessoa que não acertou no euro milhões, mas se finge de milionária. Não achas que é a mesma cena? Faz-me pensar nestas raparigas que andam com gajos para disfarçar que são lésbicas. É uma vida dupla do caraças, Renata!
- Pois sou lésbica e nem duvides. A relação acabou muito mal. Saí como se a tivesse traído sem ter traído. Não suporto lembrar.
- Tu nunca me disseste nada. Não admitistes que eras lésbicas e muito menos que amavas uma rapariga. Pronto, tu és, diga-se de passagem. Já agora nem sei o que conheço de concreto sobre ti.
- Tens razão tens, eu decidi colocar uma pedra sobre os meus sentimentos. Queria esquecer tudo que vivi e perdeu-se porque uma cretina armou para nos separar. Desde então decidi namorar gajos. Não quero mais desiludir-me. Foi por isto que nunca te contei. Não foi por mal, eu tento esquecer todos os dias.
- Colocar uma pedra sobre os sentimentos, essa é boa. O facto de andares com gajos não muda nada. Continuas sendo lésbica, embora acabes por ser bissexual. Não vais contar-me os pormenores?
- É assim, vou contar, mas depois não falo mais. Fomos a uma festa com amigas dela e minhas. Confesso que bebi demais e num dado momento uma das amigas dela atirou-se para cima de mim. Levei um susto, claro que não correspondi ao beijo, mas ela apareceu vendo as nossas bocas, próximas, quase coladas. Porque mesmo bêbada eu fiz de tudo para evitar o beijo que a gaja me queria dar. Tentei explicar-me, só que não quis ouvir-me. Só dizia: Deixe-me em paz! Deixe-me em paz, Renata! Fiquei quatro meses ligando, mandando torpedos, tentando falar com ela nas redes sociais, porque ia à casa, mas não me atendia. As amigas passaram a dizer que coloquei um par de cornos na cabeça dela. Eu que era alucinada por ela iria fazer uma parvoíce destas?
- Claro que não, mas convenhamos que isto é fogo!
- É uma merda, isto é que é! Se eu tivesse olhado uma vez que seja para outra rapariga, ainda poderiam falar. Eu não olhava porque só ela me interessava. Ela era a minha vida! Era.
- Eu entendo. Esta é uma das razões pelas quais não gosto de andar em grupos.
- Pois, mas ninguém é uma ilha, sabes Branca? Existem pessoas, existem conhecidas, conhecidos e a gente se encontra, toma uns copos, conversa, ri lá das asneiras, distrai, é só isto, não tem mal nenhum. O problema é quando tem um demônio no meio, que nojo daquela rapariga que pulou em cima de mim! Aquilo nunca mais me vai acontecer. Claro, por que eu aprendi.
- Então, a vida acaba por ser um caderninho de ensinamentos.
- Só estou a andar com a vida para frente. É assim, endureci-me, não tenho como explicar melhor.
- Pronto, tu decidiste por fugir de ti mesma. Não posso culpar-te, talvez no fundo eu seja uma cobarde como tu passaste a ser. Vivo a minha vida, faço sexo para saciar o meu corpo quando não suporto mais o apelo e fujo a sete pés de envolvimentos. Meu coração pode ter mergulhado em algum penhasco qualquer. Um penhasco esquecido deste mundo, esquecido por mim. Não sei por que me tornei uma pessoa assim, vazia. 
Renata ajeitou o corpo no banco suspirando:
- Pronto, cá só faltaram as velas. Nada nunca me pareceu tão funesto quanto o que acabastes de dizer e olha que oiço muita desgraça. Nunca percebi quem te feriu a este ponto, mas gostava de saber.
- O que me fere é nunca ter amado.
- À, mas então tens salvação, tens mesmo, para de fugir. Uma rapariga não é só um pedaço de carne e nem são todas canalhas como tu dizes, às vezes.
- Sei bem que não são todas. A leitura preenche-me, mas não me sacia. Eu leio, devoro livros e sinto-me cada vez mais vazia. Apesar disso eu vivia bem, pelo menos nada me afligia. Até conhecê-la.
- Sei bem como isso é. É assim que começa, nunca ouvi dizer que o amor pede licença. Eu? Nunca hei de amar um homem. Nunca! Essa é toda a certeza que tenho na minha vida.
Branca tocou o ombro de Renata dizendo:
- Tenho certeza que não vais mesmo. Eu gostava de conhecer o amor. Tenho a impressão que deve doer imenso, olha só para ti.
- Sei que estou de rastos. Mal preguei os olhos à noite pensando em procurá-la.
- Então?
- Diz-me tu. Vais procurar essa rapariga que te está a ignorar?
- Talvez, não sei, estou louca para ligar.
- Estás com medo de levar um não?
- Não é o que também temes?
- Pois. Esta conversa não leva a lado nenhum. Vamos permanecer de tocaia aqui até quando?
- O tempo que for necessário.
- Boa. Até que estou a gostar de ficar a olhar o movimento das pessoas, dos carros, de conversar contigo. Um dia de trabalho sem muito esforço, hã? Dissestes que a coisa iria esquentar, olha, passamos cá o dia todo e já anoiteceu e nada.
Renata meteu a cabeça pela janela do seu lado olhando para todos os lados com uma expressão divertida.
- Isto está uma paz que se esquentar será para o Natal. Hahahahaha...
Branca viu Leonor deixando o prédio colocando na hora o cinto de segurança. Pelo retrovisor percebeu o homem ligando o carro do outro lado da rua.
- Coloque o cinto. Ela acabou de entrar no carro.
Branca ligou o motor do carro enquanto Renata colocava o cinto.
- Já está.
Branca pegou a arma colocando entre as pernas, enquanto olhava pelo retrovisor.
- Ei, por que pegaste a arma? Não percebi. Vais matar mosquitos?
- Não sejas parva! Mantém a tua arma em punho.
- Está bem. Só não percebi, passa-se alguma coisa que não estou a ver?
Neste momento Leonor saiu pisando fundo no acelerador. O outro carro passou por elas em alta velocidade. Branca acelerou arrancando atrás do carro aproximando rapidamente dele.
- Que carro é este aí atrás dela? De onde saiu?
- São os homens que a querem matar!
- Matar? Oh! Por que não me disseste?
- Pronto, distraímos-nos com outros assuntos. Tenho que ultrapassar o carro.
- Estás certa disso? Eles estão correndo demais.
- Pois terei que correr mais.
Foi o que Branca fez pisando fundo no acelerador. Tentava alcançar o carro. Os homens perceberam sua intenção impedindo sua passagem. A partir daquele momento deram-se conta que tinham sido descobertos. Um deles começou a atirar contra elas. Um dos tiros atingiu o vidro da frente trincando-o na hora.
- Desgraçado!
Branca disse acelerando, tentando ultrapassar mais uma vez.
- Estão a atirar em nós... Branca?
- Eu sei!
Branca soltou uma mão do volante colocando a arma para fora atirando no carro atingindo o para-choque.
Continua...
Aviso: Devido às festividades de final de ano, só voltarei a postar o próximo capítulo da Portuguesa na primeira semana de 2017. Obrigada!