sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

t.A.T.u. - All The Things She Said

A Portuguesa. - Capítulo 59.


Telma ouviu a campainha quando deixava a casa de banho.
A empregada bateu à porta do quarto comunicando:
- Desculpa incomodar, senhora juíza, a sua irmã está a vossa espera na sala.
- Obrigada! Sirva-lhe uma bebida que já lá vou ter com ela.
- Perfeitamente.
Alguns minutos depois Telma entrou na sala dando um abraço caloroso em Celeste.
- Que bom que viestes! Não via a hora de falar contigo.
- Também eu queria conversar contigo, Telma. Fiquei de facto preocupada com o que contastes que sucedeu à Leonor em Paris.
- Pronto, e a polícia francesa não pode fazer nada. Ficaram eles e nós de mãos e pés atacados. Ainda fomos ao teatro à noite, porque era demais ficarmos escondidas no quarto do hotel. Não havia necessidade, o mau caráter só quer atingir a Leonor, não a mim. Isto faz-me confusão, Celeste. Não percebo porque aquele homem está a fazer tudo isto com a Leonor.
- Tu não desconfias que isto possa ser coisa da Wilma?
- Então, mas não percebo porque a Wilma faria uma coisa destas. Tivemos uma relação longa e em nenhum momento senti que fosse uma pessoa de mau fundo.
- Pois é, este tipo de coisa não aparece escrito na cara de ninguém. Queres que te diga alguns nomes de pessoas que se desiludiram e estão por aí sem perceber por que confiaram tanto?
- Realmente não é necessário. Olha, agora estou realmente preocupada.
- Deves mesmo preocupar-te. Leonor não veio contigo? Evidentemente ficava mais segura por cá.
- Então, mas não veio, é assim, ela tinha que ver como estava o apartamento. Precisava regar as plantas, essas coisas. Mas eu disse-lhe, disse com todas as letras que de amanhã não passa, ela tem de vir para o pé de mim. Como hei de ter paz sabendo que está naquele apartamento sem nenhum segurança para protegê-la?
- Sim, claro, tens toda a razão. Sabes, Telma, penso que este homem não vai permanecer seguindo a Leonor. Ela já lhe viu o rosto e estes tipos não são de deixar testemunhas. Tu sabes muito bem que isto pode não correr bem.
- Claro que sei, por que achas que estou tão desassossegada?
- Eu percebo, mas tem calma. Esperemos que amanhã a Leonor venha ter contigo. Gostava que soubesses que jantei ontem com o Secretário de Segurança.
- Jantastes? Pronto, também já estive a falar com ele. Contastes o que se sucedeu em Paris?
- Pois. Contei até mesmo para que ele saiba que estou a investigar a Wilma.
- Desculpa! Estás boa da cabeça? Não há nada contra ela, já te disse. Disse a Leonor a mesma coisa, até quase nos desentendemos porque ela acredita que estava a defender a Wilma, mas não é nada disto. Eu conheço-a, e, portanto, tudo que afirmo é baseado na convivência que tivemos. A Wilma, desde sempre me pareceu ter bom fundo. Aceitou o fim da relação sem criar confusões, eu não percebo a tua atitude.
- Estou certa que a Wilma deixou que visses um lado dela que não existe. Também eu quando vocês estavam juntas fui cega não percebendo quem ela é de facto.
- Embora eu ache praticamente impossível que ela esteja envolvida nisto, de qualquer forma, pensas que pode investigar uma juíza assim? Por amor de Deus, Celeste, tem cuidado! A Wilma tem amigos poderosos...
- Também eu tenho amigos poderosos, então não é bem assim. Escusas de dizer-me que ela é intocável porque ninguém é! Andei a falar a mesma com a Desembargadora, porque não estou aqui para fazer papel de parva.
- Pronto, com a Desembargadora? Procuras-te apoio de pessoas poderosas, muito bem. Estou impressionada!
- Tinha de ser, não mexeria numa colmeia de abelhas sem estar protegida.
- Estás convencida, até a Leonor está, não digo mais nada.
- A Aima e a Maria também estão convencidas.
- Ah, sim? Estou a perceber que não entendo mesmo o que se passa. Então, mas sabes que a Wilma virá para cima de mim quando descobrir, não sabes?
Celeste ergueu os ombros numa demonstração de pouco caso.
- Se ela vier, espero estar presente para lhe dizer na cara que sou eu quem a está a investigar. É isso que te preocupa? Que te acuse de permitires que a crucifiquem?
- Tens muita graça, lógico que não, nem é preciso que sejas tão melodramática, crucificá-la é um exagero. Nada tenho a ver com ela. Já agora tenho dúvidas, que caso a Wilma seja de facto a responsável, se deixe apanhar facilmente. Segundo me lembro, ela desde sempre foi muito esperta.
- Como também foi sempre extremamente ciumenta. O facto é que tu soubeste ignorar os ciúmes enquanto estiveram juntas, mas já agora, terás provas de quem ela é na verdade.
- De facto ignorei os ciúmes, eles não tinham razão de ser, eram coisas criadas pela cabeça da Wilma. Separamos-nos e acreditei que poderíamos ser amigas. Até acho que conseguimos, mas eu vivia ansiosa para aproximar-me da Leonor, tu sabes, apaixonei-me perdidamente. Não por escolha minha, aconteceu. O meu coração, e para veres que não foi intencional, sentia-se solitário dentro daquela relação. Terminei porque a Leonor passou a viver dentro de mim. 
- Pois, eu percebi muito bem. O que a Wilma sente por ti desde sempre foi um ciúme doentio. Tenho dúvidas que tamanho ciúme comporte amor, não creio. Discordo que tenham conseguido ser amigas. Tu podes ter sido amiga, ela não. A Wilma quis estar próxima para vigiar-te, para saber tudo da tua vida. Hoje percebo isto com uma clareza absurda.
- Achas? Nunca dei por isso. Eu já não prestava atenção nela como mulher porque ela já não vivia em mim.
- Eu sei e como eu a Wilma percebeu quando começastes a aproximar-se da Leonor. Ninguém lhe contou, soube ela no instante em que as viu conversando aquela noite.
- Estou-me nas tintas para o que a Wilma possa ter percebido.
- Vou desmascará-la, tu vais ver. 
Telma começou a rir admirada com a certeza e confiança de Celeste.
- Não me admira que tenha chegado aonde chegou, Celeste. Tens coragem, muita coragem. Mas pronto, eu não tenho porque proteger a Wilma, se tu a estás a investigar com o apoio do Secretário e da Desembargadora deves saber o que está a fazer. Estou certa?
- Estás certíssima.
- Acredito ainda que tenha algo relevante para partir para cima dela.
- Tu estás certa em tudo. Existem passados que cheiram mal quando são remexidos. A ver vamos. Só passei para te colocar a par da investigação e saber se estavas bem. O António está fazendo um jantar especial para nós. Deu-me rosas hoje, acreditas? É tão querido! Vamos ter uma noite daquelas.
- Que ótimo! Olha, sem querer levantar falso testemunho, o que oiço dizer é que quando o marido dá rosas para a esposa...
- Não me digas que o António tem uma amante porque não tem! Garanto-te que ele não tem energia suficiente para gastar com outra mulher.
- Oh! Apenas comentei para alertar-te se fosse o caso. Não fiques magoada comigo.
- Não me magoei, Telma. Conheço muito bem o homem com quem me casei. 
- Olha então, muitos parabéns! Não fazia ideias de que sentias essa confiança toda em ti mesma. Estou a gostar de ver.
- Isto só prova que se tu não me conheces a mim que sou a tua irmã, a Wilma é que não conhecestes mesmo. O meu segredo é simples, mesmo quando estou esgotada eu cuido do prazer do meu marido.
- Olha agora, só não faças propaganda, minha querida! Fico muito feliz por saber que és assim. E eu a pensar que eras mulher só de papai e mamãe.
- Só faltava essa, mas gosto do teu sentido de humor. Sempre gostei e amo-te muito, Telma!
- Eu também te amo muito e obrigada por teres vindo tão rápido.
- Continuação de uma noite feliz.
- Obrigada. Para ti também, minha querida!

Aima entrou em casa indo direto tomar um duche como fazia todos os dias quando voltava do trabalho. Estava a vestir-se no quarto quando Maria entrou olhando-a apaixonadamente. Beijou-a nos lábios dando-lhe um abraço gostoso.
- Senti saudades, muitas meu amor!
- Também eu. Como correu o teu dia?
- Foi calmo e o teu?
- Foi como sempre, muito trabalho, mas soube-me bem. Marcaram o julgamento do processo do hospital. Já sabes, não é?
- Sim, sei, entretanto almocei com a Celeste e estivemos a tratar disto. Eu mesma decidi que iria contar-te.
- Do julgamento, pronto, escusavas. Sabes que somos logo informadas.
- Não meu amor, contar-te que consegui testemunhas contra o hospital. É melhor que estejas preparada porque elas têm muito para revelar.
- Ah, sim?
Aima respondeu encostando-se a cômoda olhando-a atentamente.
- Este era o teu trunfo afinal.
- Sim, eu admito.
- Não vamos fugir aos factos, porque sabes muito bem que trataram de comprar toda gente que poderia testemunhar contra o hospital. Como conseguistes tais testemunhas?
- Pronto, já não vivem cá em Portugal. Confesso que não foi fácil localizá-las, mas concordaram em depor. Sabes bem que não posso revelar-te os nomes.
Aima suspirou pegando a escova passando a pentear os cabelos.
- Fica descansada porque não seria tonta a ponto de perguntar-te os nomes. Sei bem que não os revelarias. Entraste neste caso para vencer. Percebi logo de início, talvez até por isto tenha ficado tão chateada, mas já superei isto.
- Eu sei meu amor. Não vou negar-te que acredito poder vir a vencer. Não mais para derrotar-te, mas para fazer justiça e dar aquelas enfermeiras o direito de receber tudo que lhes foi tirado.  
- Está bem, querida. Não quero mais falar deste assunto. Olha, estava a pensar em pedir uma pizza para comermos. Gostava de estar mais tempo contigo. O que achas?
- Acho bem e as miúdas vão adorar. Olha já agora as ouvi a discutir no quarto. Não achas bom ir lá ver o que se passa?
- Não me digas nada. Percebeste porque estão a discutir?
- Oh, não! Só escutei o bate boca enquanto trancava a porta ao entrar.
- Só faltava mais essa. Vou aproveitar e ter aquela conversa com elas. Se tiver clima, claro, por que já agora não faço ideia como começaram a bater de frente uma com a outra.
- Pois querida, algo realmente estranho está a passar-se com as tuas filhas. Vou só à casa de banho e já lá vou ter convosco.
- Está bem meu amor.
Aima sorriu beijando Maria nos lábios. 
Chegou à porta do quarto das filhas ouvindo a discussão alterada entre ambas.
- Se mostrares eu juro que quebro o teu telemóvel, Viviane! Não me provoques!
- Filhas? O que se passa?
- Não é nada mãe!
Laura respondeu assustando-se.
- Abram essa porta, por favor.
- Foi a Laura que trancou.
Viviane respondeu depressa.
- Cala-te!
Laura disse olhando para Viviane apavorada.
- Viviane abre já a porta neste instante!
Aima ordenou enérgica.
Viviane correu até a porta abrindo-a de uma vez. Aima entrou olhando para as duas tentando entender o que se passava entre elas.
- Mas o que vem a ser isto, hã? Parecem mais duas inimigas a discutir desta maneira, valha-me Deus!
- Não estávamos a discutir, só estávamos a conversar, não é Vivi?
- Não é verdade! Mãe? Tenho que contar-te uma treta da Laura. Ela está a meter-se em confusões...
- Cala-te!
Laura disse empurrando Viviane para que ela não se aproximasse da mãe.
- Cala-te tu, Laura! Era só o que faltava este clima entre vocês as duas. O que tens para contar-me, Viviane?
Viviane digitou depressa a senha no telemóvel procurando alguma coisa. Assim que encontrou as fotos que queria, entregou o telemóvel para a mãe. Aima, assim que viu a primeira foto de Laura beijando uma miúda na casa de banho da escola caiu sentada na cama perdendo a fala. Enquanto olhava as outras fotos Laura tentou justificar apertada.
- Não é o que estás a pensar, mãe, isso foi uma brincadeira, uma aposta que eu fiz com a malta da escola. Era só para...
- Não é verdade! Esta miúda se chama Jaqueline. A mãe dela foi até à escola falar com a diretora porque Laura a pediu em namoro. Elas se encontram escondido na casa de banho. Ficam aos beijos deste jeitinho ai mesmo que estás a ver nestas fotos. A mãe tinha que saber, porque a mãe da Jaqueline é uma mula de tão grossa! 
- Aiiii, Viviane, que chata!
- Vai Laura, conta que a mãe da Jaqueline queria dar-te um estalo. Ainda pra mais chamou-te palavrões. Isto também foge da verdade que estou dizer?
Aima estava a olhar de uma para a outra completamente pasma.
- Tu és santa? És? Beijastes aquele puto na semana passada e eu nem contei nada a mãe! Fofoqueira! Traidora!
Maria entrou no quatro olhando surpresa para Laura que acusava a irmã inconformada.
- Querida? O que se passa aqui?
Aima estendeu o celular para Maria que passou a ver as fotos silenciosa.
- Mãe? Acredita... Isto não é o que parece ser.
Laura justificou começando a chorar agoniada.
Maria terminou de olhar as fotos voltando-se para Aima. Estendeu a mão acariciando os cabelos dela afetuosamente.
- Estas fotos não passam de uma aposta. Maria? Acredita em mim em mim, por favor!
- Vá lá, calma, Laura! Não precisas estar assim. 
Maria respondeu tentando ajudá-la.
Aima suspirou respirando fundo por uma fração de segundos. Em seguida fitou Laura preocupada.
- Não sejas assim, Laura, não te vais abaixo. Eu estou aqui para ti, filha.
Aima disse aproximando-se dela. Abriu os braços enlaçando-a carinhosamente. Laura aninhou-se nos braços protetores de Aima passando a chorar compulsivamente.
- Mãe? Só te contei porque estou com receio que a mãe da Jaqueline dê uma tareia na Laura, e eu, confesso que estou cheia de medo que isso aconteça. E a Laura nem sequer me dá ouvidos. Parece estar surda.
- Tudo bem, Viviane, obrigada por me teres contado. Vão lá para a sala agora, faz favor. Já lá vou com a Laura. Deixem só ela se acalmar um pouquinho.
Laura chorou, chorou por demais sem que Aima a soltasse. Quando o choro começou a abrandar, sentou-se na cama puxando-a para o seu colo.
- Filha? Está tudo bem, acredita.
- A mãe não está com ódio de mim?
- Ódio? Por que a mãe sentiria ódio de ti?
- Por causa das fotos que acabastes de ver.
- Sim, eu sei. As fotos dizem tudo, não dizem?
- Ah mãe, também não é assim.
- Não me mintas, querida. Não estou a condenar-te. Por que estavas a discutir com a tua irmã? Foi só por causa das fotos?
- Olha vê só, foi porque a Viviane tirou as fotos para te mostrar. Foi um ataque de estupidez, pá! Ela não tinha este direito. Não quero que a mãe e a Maria se decepcionem comigo. Adoro-vos.
- Nós não nos decepcionamos coisa nenhuma. Eu amo-te e a Maria também te adora. Vivi tirou as fotos porque achou que eu não iria acreditar, então tu não tens que ficar com raiva.
- Eu sei, mas ela parece estar até se achando a minha mãe. Ela não é! 
- Tu amas a tua irmã?
Laura surpreendeu-se com a pergunta respondendo admirada.
- Claro que eu a amo! Então, mas estou chateada com ela.
- Não te zangues. A Viviane quis contar-me para te ajudar. Sabes que sim, a mãe da miúda foi até à escola tirar satisfações com a diretora e contigo. No fundo a tua irmã só está a cuidar de ti. Achas que eu iria permitir que uma mãe tirasse satisfações contigo?
- Não irias?
Laura perguntou surpresa.
- Claro que não querida. Vou defender-te e proteger-te todos os dias da minha vida. Estou aqui para cuidar de ti. Percebes?
- Sim.
- A última pessoa do mundo contra quem te deves se voltar é a tua irmã. Ela só quer o teu bem. Como eu quero. Nós te amamos demais.
- Ah, mãe perdoa-me. Eu só dei uns beijos.
- Ah, meu Deus! Não existe isso de só uns beijos, filha! 
- Eu juro que foram só beijos.
- Está bem, se estás a dizer. 
- Pois foi.
- Já pensastes se a tal mãe te dá uma chapada? Tu achas que eu ia deixar por isto mesmo?
- Acho que não ia não. Aí, mãe, eu sinto tanto.
- Estás a ver?
- Estou. Desculpa mãe.
- Deixa que a mãe te diga uma coisa, tu és muito nova. Se beijares uma miúda, como tu, a miúda também tem uma mãe. Uma mãe que vai ficar furiosa por saber que a filha está a beijar outra miúda.
- A mãe está furiosa comigo, eu percebo, não queria causar mal, eu só...
- Não digas isso. Olha para os meus olhos.
Laura estava de cabeça baixa temerosa e envergonhada diante de Aima.
- Anda lá, vá, se tiveste coragem para beijar uma miúda tem também coragem de olhar-me nos olhos.
Laura ergueu a cabeça encarando Aima corajosamente.
- Pronto, tens que olhar nos olhos das pessoas quando estiveres a conversar. Ouve bem o que te vou dizer para que nunca te esqueças. Eu jamais ficaria furiosa, triste ou decepcionada pelo facto de tu teres beijado. Beijos não provocam em mim ira, repulsa, desgosto ou qualquer sentimento negativo que seja. Beijos são carinhos, são das coisas mais gostosas da vida. Quando eu beijo tenho a sensação de que estou a ter um orgasmo. É tão bom, tão maravilhoso, são sensações que mal te sei definir, no entanto querida, eu dei o meu primeiro beijo com 14 anos. Foi numa miúda e foi um beijo roubado. Ah, nunca que vou esquecer-me daquele beijo. Éramos vizinhas e no dia em que a beijei eu estava a completar anos. Dei-lhe o beijo, até hoje ainda sinto que foi um beijo desajeitado, não te sei explicar, eu a puxei e beijei. Tu podes imaginar que eu não sabia beijar e pronto, beijo era coisa que eu via na televisão, nos filmes, que eu lia nos textos de Fernando Pessoa, de Florbela Espanca, que eu via as pessoas a fazer, mas para a minha surpresa ela correspondeu, o que fez meu coração bater muito forte no peito.
- Sim, é como sinto o meu coração a bater quando eu...
- Quando tu beijas esta miúda, a mãe sabe como é filha.
- Então a mãe sabe que o que estou a sentir é muito forte. Estou a descobrir essas sensações e fico a perguntar-me se isto é errado. Eu não entendo porque o meu corpo reage com tamanha intensidade.
- Filha? Quando se sentem tais reações pelo corpo quer dizer, quer dizer que estás estimulada. A excitação acontece quando todo o corpo desperta. Os mamilos reagem, os poros da pele arrepiam, as mãos ficam gélidas, sentes a vagina mais húmida, é assim mesmo em função da testosterona. As mulheres sentem assim, mas isso não é para uma criança sentir porque é cedo. É tão cedo para ti, meu amor.
- Pois mãe, mas eu sinto e eu não percebo muito bem. Não fazes ideia do quanto estou baralhada. Até andei a perguntar coisas para a Maria, mas ela não respondeu e isto fez-me confusão. Ando a pensar que é errado. Só gostava de entender o que se passa comigo porque é forte demais.
- Claro que é forte e não, não é errado. Por amor de Deus, não penses assim. Não há nada de errado em sentir o teu corpo reagindo. Estás viva, pronto! A Maria contou-me das tuas perguntas, ela não te respondeu por que achou mais conveniente que eu tirasse as tuas dúvidas. Vamos lá ver uma coisa, é evidente que beijos, ainda mais na escola sempre causarão problemas para todas nós. Tu imaginas que eu vou lá a tua escola para falar com a diretora. Vou pedir que chame a mãe da Jaqueline também. Achas isto confortável? Pensas que há de ser agradável ter essa conversa com a tua diretora e a mãe de uma aluna que não conheço de lado nenhum? Pior, uma mãe que quis dar-te um estalo e chamou-te palavrões?
- Então, mas a mãe é lésbica e vai saber explicar que eu não estava a fazer mal nenhum a Jaqueline. Nós só nos beijamos e como a mãe disse beijos são carinhos.
- Pois sou lésbica, é claro que sou lésbica. Sou inclusive assumida, mas olha a minha idade e olha a tua. Pensas que todas as pessoas aceitam uma lésbica? Não aceitam, mas não me importa para nada porque não me interessa o que as pessoas aceitam, o que me sabe bem é o que eu sou e o que eu sinto. Eu sou adulta e enfrento as consequências dos meus atos, mas e tu, filha? Tu és uma miúda, miúdas da tua idade não devem andar aos beijos. Não é porque seja errado, é porque não é a altura. Até para trocar carinhos chega o tempo certo. Estás a perceber que tudo na vida tem a sua hora?
- Ah, mãe, mas quando será essa hora?
- Logicamente que não é agora. Tanto sabes que ainda não é a hora que começastes mentindo-me.
- Pois, que seca! Eu gosto tanto da Jaqueline! Mas, como iria contar-te que estou sentindo coisas loucas por uma miúda? Pensava que a mãe dar-me-ia uma coça, ou colocar-me-ia de castigo sei lá por quanto tempo.
- Pronto, pensastes muito mal da tua mãe. Então, e a Jaqueline não será a primeira, todo mundo tem uma paixão de infância. Só tens de perceber que isso não é o fim do mundo.
- É?
- Claro que é. Sabes, para viver uma paixão também é necessário esperar. É como os frutos, quando queremos comer uma fruta que ainda está no pé esperamos que ela amadureça. Tu terás que crescer para amadurecer. A Maria não te contou que me amava tanto que decidiu esperar por mim?
- Pois contou. Achei tão giro.
- Então, a Maria esperou o tempo certo chegar.
- Com qual idade vou poder namorar?
- Nem tens maturidade psicológica para ter certeza se vais querer andar com rapazes ou moças.
- Eu sei que sou lésbica como tu e Maria. Tenho certeza absoluta! Os rapazes não me interessam para nada. A mãe não tinha essa certeza quando era uma miúda?
Aima sorriu acariciando os cabelos dela.
- Claro que eu tinha. Ouve, mesmo que tenhas certeza antes dos 16 anos escusas de pensar sobre o assunto. Precisas de tempo para te conheceres a ti mesma. Quando amadureceres vais saber de certeza. O teu tempo agora é para estudar, brincar e curtir a tua infância.
- Com 16 anos vou poder namorar?
- Quando completares 15 anos voltamos a conversar.
- Ah mãe, tens a certeza? Algumas miúdas lá da escola já estão a namorar...
- O que temos nós a ver com as miúdas da escola? Tu podes aperceber-te disso, mas não podes fazer como elas fazem. Se elas estão a namorar de certeza que a maioria está a fazê-lo escondido dos pais. Pensas que o teu corpo já está todo formado?
- Acho que não, mas...
- Não tem nada de, mas. Os teus órgãos ainda estão em formação. Teus seios vão aumentar de tamanho, teus pés e mãos vão alongar, como a tua altura. Vais de certo ser tão alta quanto eu. Todo o teu corpo está a desenvolver-se. Vais crescer muito ainda. Daqui a alguns anos terás o corpo de uma mulher. E eu se calhar, terei imensas dores de cabeça por conta disto. Pronto, mas isso não interessa para nada agora. 
- Os meus mamilos estão a crescer e já me nascem pelos no corpo. Já até tenho o período...
- Tens e que ótimo que o teu período veio, sinal que és saudável. Tu está a passar por transformações em todos os sentidos. Queres saber mais? As dúvidas com relação à sexualidade costumam começar aos 15 anos. Aos 12 é precoce, mas já nestes tempos em que vivemos é presumível que as dúvidas comecem mais cedo, eu entendo-te. Nós duas vamos estar a conversar constantemente. Estou disposta a dialogar sobre as dúvidas que venhas a ter. Gostavas de ir a uma ginecologista?
- Não sei, a mãe acha necessário que eu vá?
- Então filha, só estou a perguntar se tu queres ir. Menstruastes, e acho bom que a médica veja se está tudo a correr bem. Se tiveres algum corrimento ou algo mais que seja desagradável que desejes que a médica te oriente será o momento certo para esclarecer.
- Tá. Então acho bem ir.
- Sim, eu também acho. Vou marcar uma consulta.
- Está bem, mãe. Quanto à Jaqueline...
- Quanto a Jaqueline não vai poder ser. Não queiras que eu tome uma atitude drástica como a de mudar-te de escola. Espero não ter que vigiar-te. Não vejo necessidade porque confio em ti. Acredito que não vais decepcionar-me insistindo depois de eu ter-te explicado que antes dos 15 ou 16 anos não podes fazer coisas que não são próprias da tua idade.
- Oh, que seca!
- Pois é uma seca mesmo ter uma mãe que te compreende. Vá lá, dá-me um sorriso, mas um dos grandes.
Laura deu um sorriso para agradar Aima sem muita vontade de dá-lo.
- Toca a andar para a sala. Agora a conversa será contigo e com a tua irmã. Aliás, conversa que eu já devia ter tido muito antes de viraram as duas beijoqueiras.
- Então, mas a Vivi só beijou uma vez. Eu contei porque fiquei irritada com a traição dela.
- Até sobre isto ainda vais aprender, que trair não é o que a tua irmã fez. Traição é algo terrível, baixo, vil, é repugnante. Viviane não te traiu, só está a tentar ajudar-te, mas pronto, eu percebo que neste momento não consigas assimilar isso como deve ser. É quando alguém cuida de nós e nos protege que compreendemos o quanto nos ama.
- Está bem.
Aima seguiu com Laura para a sala, onde Maria aguardava com Viviane. Não ouve necessidade da ajuda de Maria durante a conversa que Aima teve com as duas. Maria ficou silenciosa sentindo uma grande admiração pela forma como Aima esclareceu as coisas. No fundo teve uma certeza absoluta que aquela conversa marcaria a vida de ambas para sempre. Porque as miúdas aprendiam sobre aqueles assuntos fora de casa. Sexo era tabu e pais e mães, salvos alguns, tinham a coragem de esclarecer daquela forma direta para as filhas. Aima o fez com maestria.
Continua...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Bette Midler - "Wind Beneath My Wings" (Official Music Video)

A Portuguesa. - Capítulo 58.


Abraçada a Aima, Maria deu-lhe uma lambidela no ombro nu provocando-a ainda excitada.
- Não me digas que já está satisfeita.
- Ainda não amor, mas já vistes as horas?
Maria voltou os olhos para o relógio ao lado da cama curiosa dando-se conta que eram duas horas da manhã.
- Que chatice! O tempo voa quando estamos a fazer amor. Pronto, confesso que é das melhores coisas do meu dia.
- Ah, Maria, sinto-me cada dia mais feliz tendo-te na minha vida. Amo fazer amor contigo.
- Também eu amo tudo contigo e muito, muito mesmo estar a viver contigo. Volto correndo do trabalho louca para matar as saudades de ti.
Há pessoas que por não terem um amor, sofrem lendo cenas melosas. Talvez até sintam inveja. Inveja boa, inofensiva, inveja amiga, se é que existe inveja amiga! Se dar ao trabalho de conquistar uma mulher, de investir num flerte quando está solteira, valorizar um namoro, a relação longa, até dar uma chance para pessoa que está sempre tentando se aproximar, isto raríssimas o fazem. É indispensável abandonar o egoísmo, mudar, fazer concessões, sentir as necessidades da mulher, enxergá-la em vez de vê-la, ajudar nos momentos difíceis, entender em vez de vitimizar. Tudo nesta vida está ligado ao amor. O que nos transforma é o amor. É vital amar o que é bom, amar quem proporciona felicidade. Amor de tristezas não compensa. Mesmo que não vá a Paris, Copacabana, Lisboa, Ilhas Canárias, que não vá nem para Varginha, é delicioso amar porque só amando se é pleno. Em Minas Gerais, lógico, agora puxando a sardinha para o meu lado, não tem mar e as mineiras, detalhe, conhecem o que é bão, por isto não deixam de amar. (Notas da autora)
Isso agora é assim? Em tempo, uma pausa para o café.
Novamente, Aima e Maria.
- Digo-te o mesmo e mais uma coisinha, só não fazemos amor mais vezes porque não temos espaço, Maria.
- Sim, eu sei. Ando a planear que nas férias podíamos viajar por alguns dias, mas vamos tentar que seja apenas nós as duas! Com a Fátima vivendo cá por Lisboa, ela pode ficar com as tuas filhas. Confesso que até vou sentir saudades delas. São muito queridas comigo.
- Sim, isto parece-me muito bem pensado. Viajamos juntas e de seguida viajamos com as duas, porque já estou a ver o protesto que irão fazer.
- Então, é claro que viajamos depois com elas. Ficar sozinha contigo também me faz falta. Andar nua dentro de casa, agarrar-te quando me dá vontade, ai, é tão bom, meu amor.
- É para ter esta liberdade que damos nossas fugidas para o teu apartamento.
- Sim. Adoro quando nos amamos lá. Não tenho que ficar preocupada se estou a gemer alto. Hahahaha. Tem muita piada ficar controlando o som dos nossos gemidos. Mais os teus, já reparastes que não consegues gemer baixinho?
- Já, mas por amor de Deus não permita que eu ultrapasse os limites.
- Agora a pouco passaste. Hahahahaha...
- Valha-me Deus! Tu ris, hahahahaha.
- Teve imensa piada e podes deixar que ajudo-te a ficar no limite. Vamos conversar agora, queres?
- Sim, querida. O que tens para me dizer sobre as minhas filhas?
- É assim, tenho sentido a Laura diferente. Está a cada dia mais inquieta e ansiosa. Quero dizer, eu fico ansiosa, tu ficas, é natural com tudo que temos que lidar, mas a Laura? Ela não tem porque estar assim. Foi o que chamou a minha atenção, algo está tirando a tranquilidade dela.
- Não vejo razão para a Laura estar ansiosa e muito menos diferente.
- Então, mas está. Até andou a fazer-me perguntas, olha, são perguntas bem específicas.
- Perguntas? Ela perguntou-me se nós fazemos sexo todos os dias.
Maria ergueu o corpo apoiando-se nos cotovelos atenta.
- Foi?
- Pois foi, não estou a dizer-te? Levei um grande susto.
- O que respondestes a ela?
- Disse-lhe que isto não é assunto para uma miúda. Ainda mais, que a nossa intimidade tem que ser respeitada e que não vou falar do assunto com ninguém.
- Talvez tenha andado a ouvir os nossos gemidos.
- Não, acho que não. Oh! Será?
- É uma hipótese, não sei amor. Podes reparar que a Laura é mais madura que a Viviane.
- Por que achas isso?
- Porque ela está sempre atenta a nós e pega as coisas no ar. Desconverso quando me faz perguntas por que tu é que tens que esclarecer essas dúvidas. Ela está nesta idade da curiosidade e tu tens que ter mais atenção.
- Tu também pode esclarecer algumas coisas, amor.
- Eu acho bem que sejas tu. Penso que isso deve partir da mãe. Todas as miúdas deveriam saber destes assuntos através da mãe. Essa é a minha opinião, só isso.
- Pois, se achas. É estranho que só a Laura esteja pra aí a fazer perguntas.
- É, também acho. A Viviane parece ser mais pura neste sentido.
- Estou a pensar que as duas vão dar muitas dores de cabeça, é o que eu acho.
- Não penses assim, descobrir a sexualidade é uma coisa natural. Como falei, tens que te sentar e dialogar com as duas.
- Fostes tu que falaste que elas só têm 12 anos. Agora queres que eu vá falar sobre sexo, pronto, isto também me assusta. Para mim elas são miúdas, este assunto, eu não sei, só de imaginar-me diante de ambas a dizer certas coisas, perco o fio da meada. 
- Eu sei amor, e eu falei porque é evidente, mas tu não tinhas me contado que a Laura andou a sondar-te sobre nossa intimidade.
- Mas, se ela andou a perguntar a ti na mesma.
- Não amor, Laura perguntou-me coisas relacionadas ao prazer, não sobre nós.
- Dá na mesma, não te parece?
- Sim, mas não encarei como um problema. Tu sabes que se não lhe deres as respostas vai procurar saber com estranhos.
- Não te esqueças de que hoje em dia está tudo na internet detalhadinho. Até demais. É assim que é, aberto para todos os olhos e ouvidos.
- É lá que queres que a Laura esclareça as dúvidas que tem?
- Que tipo de dúvidas é que ela tem, vai, diz-me algo relevante que ela te tenha questionado.
- Perguntou qual é a sensação quando se tem um orgasmo.
- Ui! Como é que uma coisa destas me escapa a mim?
- Pois é assim, por isto quero que tomes atenção ao assunto.
- Eu não devia então falar apenas com a Laura? É ela que está a fazer perguntas desconcertantes.
- Se falares só com a Laura ela pode contar a conversa para a Viviane. Não acho que esteja certo e a Viviane pode sentir-se excluída.
- Está bem e como é que eu vou explicar a sensação de um orgasmo para uma miúda de 12 anos?
- Estás a ver? Tens bom remédio, podes dar um exemplo fazendo uma relação com a comida.
- Desculpa. Isto parece-me meio complicado de fazer.
- Sim, parece, mas é assim, tu podes usar o chocolate como exemplo. Diz que o orgasmo lembra a sensação boa de estar a comer chocolate. Isto deve bastar para que ela não fique a pensar que é algo fora do comum. Se a sensação do orgasmo é a mesma de o comer, a Laura não dará mais tanto valor ao assunto. Será uma coisa banal, meio que algo que ela já sente.
- Pois, parece bem. És boa em psicologia infantil.
- Não sou nada amor, é que é melhor dar respostas criativas do que deixar a conversa ao meio. Tu podes usar outros exemplos, estou apenas a dar-te uma ideia. Pensando bem, chocolate? Não me parece bem, ela pode pensar que és parva.
- Eu parva, já cá faltava.
- Sabes como é a cabeça das miúdas.
- Pois sei. O que mais ela te perguntou?
- Se masturbar faz mal.
- Não posso crer, a sério? Então ela já deve estar a masturbar-se. Ai minha nossa senhora de Fátima!
Aima disse sentando-se na cama aturdida.
- Foi o que me ocorreu na hora que ouvi a pergunta.
- Pronto, ela despertou mesmo cedo. Passei-me.
- Até os seios delas estão a crescer, tu mesma brincaste com elas quanto a isto no domingo.
- Pronto, lá brincar eu brinquei, só não dei-me conta de que a Laura estava tão destravada.
- Ora, com qual idade começastes a tocar-se?
- Eu?
- Sim, tu.
- Eu, acho que foi... Dos 13 para os 14, não me recordo com exatidão.
- Eu comecei aos 13 anos.
- Ah.
- Sim, com 15 anos estava completamente apaixonada por ti.
- É bem verdade.
 - Tem uma coisa eu vejo de positiva nisto.
- O quê?
- Já sabemos que a Laura não é assexuada.
- Pois não é, nisto concordo contigo, mas não resolve a questão. Ela já está a tocar-se. Daqui a pouco pode querer mais coisinhas. Pode querer fazer sexo, por amor de Deus, como é que as mães reagem numa situação destas? Eu não vou permitir que a Laura faça sexo antes dos 16 anos. Podes estar certa que não mesmo! O que uma miúda de 12 anos sabe sobre sentimentos, do certo ou errado, até mesmo do próprio corpo? Imagina se ela engravida? 
- Não sejas assim. Não tens que colocar os carros diante dos bois. Tens que conversar com elas como mãe e amiga. Vão de certeza encher-te de perguntas. Pode contar comigo que vou estar presente para socorrer-te.
- És tão querida, obrigada, meu amor. Deixa que vou conversar com as duas.
- Tens que evitar as proibições. Não podes ser taxativa, tipo: Isto podes isto não podes. As miúdas sentem-se atraídas por tudo que é proibido. Explica com calma que já tiveste a idade delas e soubestes começar a vivenciar tudo no tempo certo, como fiz eu. 
- E achas que isso resulta?
- Pois não sabemos, lembra-lhes que hoje elas têm um corpo de miúdas, e só já lá para o meio da adolescência o corpo passará a desenvolver-se até se transformar no corpo de uma mulher. Os órgãos internos ainda estão se formando, essas cenas, vais te sair bem.
- A ver vamos. Para quem tu perguntavas quando eras miúda?
- As perguntas que fiz à minha mãe, pronto, não obtive respostas. Algumas coisas aprendi lendo e outras uma colega de escola e a Ana Sofia me esclareceram. Também fui a procura na internet. E tu?
- Eu perguntava tudo para a Fátima. Deixava-a doidinha com as minhas dúvidas. Com as minhas outras irmãs era o mesmo que falar com uma porta. São tímidas demais. 
- Eu percebo como é. Sorte têm as tuas filhas que estão a crescer nesta época em que as coisas estão às claras.
- Estão às claras, mas ainda necessitam de respostas.
- Os questionamentos são da Laura.
- Seja como for, vou ter que dizer tudo que precisam ouvir.
- Pois vais. Agora me abraça-me. Quero dormir de conchinha.
- Hum, que bom colar meu corpo assim no teu. Não queres fazer de novo?
- Acabastes de lembrar-me das horas. São quase três da manhã querida.
- Ai, Deus! Como somos escravas do relógio.
- Somos, mas prometo-te uma coisa.
- O quê?
- Faremos amor antes de ir trabalhar. Gostas da ideia?
- Sim, muito.
- Está bem. Vai, dá-me um beijo de boa noite bem gostoso.
Beijaram-se e dormiram abraçadas.  

Branca estava com o fone no ouvido escutando atenta a linha telefônica da Juíza. Durante todo o dia o telefone da juíza Wilma tanto recebeu ligações como ela fez mais ligações sem a menor relevância. Sentia pela voz dela o quanto parecia estar tensa. Imaginou que a mensagem que Aima mandou no começo da tarde explicava seu estado. Leonor já estava no aeroporto para embarcar com a juíza Telma.
Anoitecia quando uma nova ligação chamou sua atenção.
- Estou?
- Acabo de desembarcar no aeroporto de Lisboa. Voltei no mesmo voo em que as duas.
- Espero que não o tenham visto. Fique atento para ver se elas irão separar-se. Se permanecerem juntas pode agir. Traga-me algo da Leonor para provar que deu cabo dela.
- O que deseja que eu leve para que o comprove?
- Qualquer coisa homem! Uma orelha, um dedo, o nariz, o que lhe apetecer. Não me canse com pormenores, tenho mais o que fazer!
- Terei mesmo que dar cabo dela porque agora a Leonor conhece a minha cara.
- Lógico, foi burro! Devia tê-la abordado usando uma máscara. Nem a magoaste, mas devias ter magoado. Foste um incompetente deixando-a simplesmente fugir. Não tenho paciência para patetas fracassados.
- Não podia usar uma máscara, teria chamado à atenção para a minha pessoa.
- Não faça mais burradas. A partir de agora não me ligue mais. Faça um trabalho limpo. Depois desapareça com o corpo de Leonor Canelas sem deixar vestígios!
- Será feito como a juíza deseja.
- Ótimo! Adeus!
- Adeus.
Renata entrou na sala vendo Branca pegando a arma na gaveta, arrumando a mala preparando-se para sair.
- Vamos tomar um copo?
- Não posso.
- Por quê? Tens um compromisso?
- Não, preciso terminar de ler.
- Ler? A sério?
- Sim.
- O que estás a ler de tão importante que não podes deixar para depois?
- Não, eu não posso deixar Clarice para depois, ela renova os meus sonhos. Desconecto da realidade, transcendo. É tão bom, devias experimentar. 
- Com certeza eu devia, pois devia, mas, Clarice? Estás a falar de Clarice Lispector?
- Evidentemente que estou.
Branca sorriu pegando o livro sobre a mesa mostrando-o a ela, guardando em seguida na mala.
- Estou a perceber e até acho que Clarice pode esperar, é só um livro. Tu o deixas guardadinho e depois lês. O mulherio anda a perguntar por que desaparecestes.
- Desde quando dou confiança para o mulherio? Onde estás com a cabeça para pensar que eu quero algo com aquelas mulheres que andam a cada dia com uma diferente?
- Não percebi. Toda gente anda com alguém.
- Pronto então desejo que toda gente seja feliz em grande. Desculpa, mas estou sem tempo para estes assuntos agora. Ainda vou apanhar trânsito até a casa. Tenho que terminar de ler e depois dormir. Amanhã cedo vou estar em campana na porta da casa de uma advogada que tenho que proteger. A coisa vai esquentar.
- Posso ir contigo? Estou a precisar de ação.
- Se o comandante permitir apareça lá em casa antes das sete.
- Está combinado. Vou já lá ter com ele.
- Força. Até amanhã!
- Até amanhã! Ah, e obrigada por permitir que eu vá contigo.
- Tudo bem. Cuida-te.
- Deixa comigo.

Leonor beijou Telma dentro do carro lançando um olhar apaixonado para ela quando descia do mesmo. O motorista levou as malas até a porta do prédio. Leonor acenou destrancando a porta, entrando no prédio. O porteiro aproximou-se pegando as malas cumprimentando-a.
- Olá, senhorita Leonor! Teve uma boa viagem?
- Sim, muito boa, obrigada, Vasco! Tudo bem por cá? Alguém me procurou?
- Procurou sim, aquela senhora que frequentava a sua casa tem vindo todos os dias. Já deve estar para aparecer porque tem vindo sempre a esta hora.
- Está a minha procura? Que eu saiba ela frequenta o andar abaixo do meu.
- Já lá não frequenta mais.
Ele respondeu fazendo uma cara engraçada.
- Hum. Isso não me interessa. Olha, não a deixe entrar para falar comigo, não me apetece ver-lhe a cara na frente.
- Eu não deixo, mas ela ainda tem a chave da porta cá de baixo.
- Então não há nada a fazer. Pode deixar, se ela aparecer eu resolvo. Mais ninguém me procurou?
- Não, mas a senhorita chegou a ver dois homens rondando o prédio? Já faz alguns dias, eu andei até a pensar que não era nada, mesmo porque eles desapareceram por alguns dias, mas olha, lá está um deles de volta. 
Leonor voltou os olhos vendo o homem que a atacou em Paris encarando-a com a mesma cara de inimigo que ele fazia questão de mostrar quando olhava para ele.
Encarou o porteiro comentando:
- Já vi, não se preocupe, estão atrás de mim.
- Atrás da senhorita? Mas isto é inadmissível! Por quê?
- É uma longa história, mas pode ficar descansado, já falei com a polícia. Estou a rezar para que se resolva rapidamente.
- Assim também espero eu. Qualquer coisa pode me chamar. Não devem de ter bom fundo.
- Amigos meus é que não são nem os conheço de lado nenhum.
- Então, mas vamos subir, vou ajudá-la com as malas até ao seu apartamento.
Saíram os dois do elevador e o porteiro deixou as malas diante da porta. Neste momento a porta do outro elevador abriu-se. Leonor se voltou vendo a ex se aproximando.
- Olá, Leonor! Tenho vindo à tua procura.
Leonor a olhou sem o menor interesse dizendo apenas:
- Oi.
- Com licença! Preciso voltar para a portaria.
- Está bem, obrigada mais uma vez, Vasco! Boa noite!
- Disponha. Boa noite!
O porteiro respondeu descendo pelas escadas. Leonor voltou os olhos para a ex que estava em pé examinando as malas de maneira indiscreta.
- Viajastes para a França? Muito bem! Foste sozinha?
- Não, fui com a tua mãe! O que queres aqui?
- Não sejas mal educada, foi só uma pergunta.
- Apetece-me tudo, menos olhar para a tua cara de pau.
- Ei Leonor, calma lá!
- Anda, diz logo o que queres!
- Queria que soubesses que estou solteira. Não estou mais com a...
- Estás a falar sério? Não sabia que tu eras louca! Isso não me interessa para nada!
- Olha, eu sei que errei contigo. Traí-te e vim-te pedir perdão. Se tu me puderes dar uma nova oportunidade eu juro que nunca mais vai acontecer.
- Só faltava! Não quero saber de ti pra nada!
- Leonor?
Leonor destrancou a porta colocando as malas para dentro rapidamente.
- Deixa que eu te ajude...
- Vai embora e não voltes! Tem várias da tua laia por aí. Procura por elas porque pra mim morrestes!
Respondeu fechando a porta na cara dela. 
 - Leonor? Lembras-te quando me dizias que eu devia perdoar as pessoas, que devia perdoar os meus pais, que eu devia escusar de magoar-me tanto com toda gente? Recordas-te? E agora tratas-me assim? Apenas ouve-me!
Leonor deixou as malas onde estavam trancando a porta. Foi até a cozinha onde bebeu um copo de vinho. Seguiu para a sala tirando os sapatos. Ligou o som pegando um CD de Ana Moura para colocar, mas mudou de ideia deixando o CD de lado pegando outro de Kizomba. Queria dançar, dançar muito por ter voltado inteira para casa. Aumentou o volume dando um sorriso. Ao som do ritmo delicioso começou a dançar dando boas mexidelas pela sala inteira, ignorando os gritos que vinham da porta. Além de não conseguir distinguir nenhuma palavra, não lhe interessava o que aquela mulher dizia. Estava viva, era só aquilo que lhe importava. Algum tempo depois o incomodo na porta terminou e tudo ficou em paz novamente. Leonor continuou dançando extravasando assim toda a tensão que vinha sentindo. Sabia que não estava livre do louco que a ameaçou, entretanto aquilo não importava naquele momento. Só a dança importava.
Continua...
Notas da autora: Chegamos àquela parte em as personagens já estão a viver juntas. Pronto, já está, acaba-se a história. Geralmente quando tudo se resolve na vida das personagens aquela palavrinha chata que ninguém gosta vem à tona, FIM. É bem verdade que eu como autora sinto um grande alívio quando digito a palavra fim. Só que a palavra fim, reprime. Assim que eu a digito guardo vivências das personagens que poderiam ser ainda contadas. É agradável mostrar mais do cotidiano dos casais. A vida não é um transbordar de alegrias todos os dias, os problemas aparecem nas vidas das personagens como aparecem na vida de toda gente. Escrever uma história só com cenas de amor seria o mesmo que escrever ilusoriamente. Seria escrever fantasiosamente. Eu morreria de tédio mergulhada na fantasia e na ilusão, que embora possa parecer delicioso em meio a pressão da vida de muita gente, e até na minha própria vida, seria comodismo. Entretanto, e graças a Deus, a realidade faz parte da vida das minhas personagens.
Há dias que quando termino de escrever um capítulo penso que ele está chato, até tolo, e ainda assim, não dou ouvidos as minhas impressões. Pois, se for escutá-las acabarei por ficar insatisfeita comigo mesma. Quando na verdade não escrevo para me satisfazer, antes fosse, escrevo porque é o que eu faço.
Vivendo eu entendi que tenho que agradar só a mim mesma e se não agrado-me com um capítulo, acho graça, acho mesmo piada e ponho-me a sorrir de mim mesma. Digo-me baixinho: Deixa de ser perfeccionista, não existe perfeição, você está apenas escrevendo um capítulo. Então, vem uma voz que me diz: “Se é para fazer que seja bem feito.” Sim, também acho, só que discordo um pouco, porque essa voz que me diz isto não escreve nem uma linha. Não escreve cartas enamoradas; ainda para mais agora que não se escrevem mais cartas, e essa voz, nunca deve ter escrito nem uma poesia, quanto mais um capítulo. Portanto, porque logo eu iria escutar uma voz que não tem rosto e está apenas escondida entre tantos rostos ou no meu subconsciente? Pois é, eu não levo a sério uma voz que fala sobre o que não prática.
O que a Portuguesa ainda tem para contar os próximos capítulos revelarão. O ponto final, o fim derradeiro poderia ter sido digitado lá pelo capítulo 50, talvez antes. Em um capítulo poderia ter assentado a vida de todas as personagens, as situações, tudinho. Não o fiz porque a rapidez com que se lê um capítulo ou toda a história, não é a mesma em que ela é escrita. Escrevendo sinto as palavras, sinto as emoções das personagens e oiço o que elas ainda querem que eu as permita viver. E é ouvindo-as que nascem as cenas seguintes.
Continua...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Jessie Ware - Say You Love Me

Grace Jones - I've Seen That Face Before (Libertango)

A Portuguesa. - Capítulo 57.


Corina despertou às dez da manhã vendo Branca adormecida ao seu lado. Deixou a cama indo até à casa de banho. Tomou um duche voltando ao quarto. Branca ainda dormia enquanto ela se vestia-se admirando o corpo nu descoberto.
Logo depois Corina foi para a cozinha onde ficou entretida preparando o pequeno almoço. Abriu a porta descobrindo que dava para uma varanda. Saiu olhando tudo ao redor. Tinha uma xícara de café nas mãos. Admirou as casas sentando numa das cadeiras que encontrou. Sorveu o café pensando em Branca. Neste momento ouviu a voz dela e a viu surgindo de roupa interior.
- Bom dia, Corina.
- Bom dia, Branca.
- Fizeste o pequeno almoço, boa. Acordei cheia de fome. Depois da nossa maratona sexual sou capaz de comer tudo que encontrar pela frente.
Branca estava sorrindo. Estava cheia de vida. Corina ergueu-se entrando com ela na cozinha.
Branca puxou uma cadeira sentando, enchendo uma xícara de café cheia de energia.
- Tomaste o pequeno almoço sozinha?
- Não, tomei apenas um pouco de café. Estava a esperar por ti.
- Pois não tens mais que esperar. Senta-te e vamos comer juntas.
Corina sentou também servindo café na xícara.
- Sabe há quanto tempo que não tomo o pequeno almoço com uma mulher na minha casa?
- Não faço ideia.
- Já faz mais de três anos.
- É mesmo muito tempo.
- Não me digas nada, eu sei. Tenho uma prima que me goza a dizer que eu devia visitar alguns conventos para ver se entro para um deles. Consegues imaginar-me como uma freira? Tem piada, pois tem.
- Realmente não consigo te imaginar como sendo uma.
- Claro que não, isto não faz o menor sentido. Dormistes bem?
- Sim, obrigada e tu?
- Bem, estive a dormir muito bem. Não dormimos de conchinha, pronto, nem percebi quando adormeci.
- Também é necessário dormir, e nós, pronto, abusamos ontem.
- Ainda bem que abusamos. Não estranhaste a cama?
- Um pouco, mas dormi muito bem.
- Como eu. Vais trabalhar ainda hoje?
- Trabalhei a dobrar e hoje estou de folga.
- Entendi.
Corina observou como Branca estava vibrante. Realmente a noite de sexo fez bem a ela. Parecia uma criança que ganhou um presente que muito esperava.
- Pela tua cara satisfeita nossa noite te deixou realizada.
- Achavas que não deixaria? Tu és muito boa de cama e deste conta do recado como imaginei que darias. Fazes ideia do quanto é difícil encontrar uma mulher que aguente transar a noite toda?
- Estás a falar sério?
- Claro que falo sério. Estou com cara de quem está a gozar contigo?
- Não esperava ouvir outros elogios de ti. Os orgasmos que tivestes são mais importantes do que outras impressões que poderias ter tido da minha pessoa.  
 - Desculpa lá, Corina, eu não vou ter essa conversa contigo.
- Não, não vais e eu sei por quê. Ficou evidente que desejas tudo, menos algo mais.
- Passamos uma noite juntas, não vejo porque falar sobre algo mais. 
- Não importa, o facto é que tu querias transar, eu também.
- Sim, eu quis transar contigo.
- Não há nada a fazer, o sexo foi ótimo, obrigada.
- Não sejas assim, porque está a agradecer, não vejo por quê.
- Agradeci porque me deste satisfação e bons momentos.
- Agora me fizeste sentir como alguém que te atendeu bem em uma pastelaria.
- Lamento. Eu percebi que querias apenas sexo no minuto que coloquei os pés nesta casa. Fiquei porque tu me atrais. Atrais demais. Olha que fujo das cantadas porque não quero que a minha vida se resuma a isto, uma noite com uma mulher hoje, amanhã com outra, pronto, mas é só o que se acha quando não se sabe esperar por algo melhor. 
- Espera lá, gostas de ter problemas, é? Porque envolvimento só leva a complicações e chatices. Para que iríamos querer isso? Não penso que devamos fazer figuras parvas. Eu queria te comer. Queria sim transar muito contigo, não me envergonho disto. Nós duas queríamos sentir prazer. Pareces ter-te arrependido, mas na hora que estavas a gozar não te arrependestes, não é? 
- Tu estás a perder a compostura, não acho necessário ouvir nada disto. Já me vou embora. Prometi almoçar com o meu pai em Alfama. Não gosto que ele fique à minha espera.
Corina avisou erguendo-se aparentemente calma.
- Sim. Claro. Ver-nos-emos novamente?
- Talvez, não interessa agora.
- Olha lá, sei que estou longe de ser a melhor pessoa do mundo.
- Também não me pareces ser a pior. Vá Branca, não faças filmes. Entendi o que fizemos, somos adultas. 
- Devo ficar a pensar que não satisfiz todas as tuas necessidades na intimidade?
- Minhas necessidades estão muito longe de serem apenas sexuais. Não te preocupes, tu és foda, mas existem outras coisas além de ser foda na cama. Já conheci mulheres fodas e tu não chegas nem perto delas.
- Agora perdeste o respeito falando desta maneira.
- Só quis te responder à altura das tuas palavras insensíveis.
- Não me digas. Olha Corina, eu penso que entendestes mal. Não fui insensível, fui sincera. Acho melhor a deixar-te sair daqui enganada a pensar que vamos começar a namorar amanhã.
- Isto não passou pela minha cabeça em momento nenhum. Sei que fui só um engate para ti. Até mais, Branca!
- Espera. Dá cá um beijo antes de saíres.
Corina sorriu respondendo.
- Pensas que te quero dar um beijo? Pois não quero. Desculpa, preciso mesmo ir.
- Podias pelo menos dar-me o número do teu telemóvel?
- Desculpa!
Corina disse voltando-se para ela sem esconder a surpresa.
- Para que queres o número do meu telemóvel? Vais ter a ousadia de ligar-me?
- Calma! Precisas ficar ofendida. Só estou a pedir o teu número. Não te esqueças de que tivemos uma noite excitante. Foi não foi? Gostastes tanto quanto eu. Confessa, não gostastes?
- A noite terminou. Não estás a perceber o sol brilhando lá fora?
- Então, mas não queres mais falar comigo? Por amor de Deus, Corina, também não é assim. Não me podes condenar por ter sido sincera contigo.
- Sim, fostes sincera. Esmagadoramente sincera.
Corina sorriu neste momento com o pensamento que lhe ocorreu.
- Já viste o filme Matrix Revolutions?
- Sim, fui ao cinema na altura do lançamento, por quê?
- Recordas-te do que o agente Smith disse para o Neo quando eles estavam lutando?
- Então, mas a minha memória é boa, mas não para tanto.
- Ele disse: “Apenas a mente humana pode inventar algo tão insípido como o amor.”
- O amor... Insípido? Não me recordo disso.
- Pronto, as palavras não chegam a todos os ouvidos.   
- Pois, toda gente vive a queixar-se que só ouvem mentiras e eu estou a dizer-te a verdade e pronto, não gostastes, estás aí a falar de uma conversa em um filme. Não era para ter mal nenhum, mas passaste-te, é assim. Não gostaste da verdade, já percebi. Preferias que eu tivesse derramado um monte de mentiras na tua cara. Lógico que preferias. E eu, parva que sou fiz o certo e tu odiastes. 
Corina cruzou os braços percebendo a expressão perturbada de Branca a olhar para ela.
- Não precisa falar mais nada. Vou já dar-te o número.
Abriu a bolsa anotando. Entregou o papel inclinando a cabeça em despedida, virando em seguida na direção da porta.
- Obrigada!
- Vou agora.
- Corina? Só mais uma coisa.
- Diz, Branca.
Branca observou a expressão indecifrável de Corina parada diante dela.
- O que tu queres?
- Desculpa. Em qual sentido estás a perguntar isto?
- Eu explico. O que tu desejas de uma mulher?
- Ah.
Corina quase sorriu, mas não o fez. Seus olhos baixaram-se por uma fração de segundos. Depois fitou Branca respondendo.
- Quero fazer amor e adormecer em paz sabendo que não vou dizer-lhe adeus pela manhã.
- Então, é isso que queres?
- Isto já seria algo bem próximo de um começo. Está passando da minha hora.
Branca ergueu a mão dizendo apenas:
- Até mais, Corina.
Corina não respondeu, apenas saiu decidida fechando a porta suavemente. A porta não bateu como Branca imaginou que aconteceria. Sentou na cadeira servindo-se de um pouco mais de café. Olhou para o número do telemóvel no pequeno pedaço de papel sentindo uma sensação boa. Sorveu alguns goles pensando na conversa que tiveram. No entanto, seus pensamentos voaram para a noite quente que tinha vivido com ela. Corina não era mulher para uma noite só, não era mesmo. Devia estar seguindo pela rua à procura de um táxi e sentiu uma vontade quase incontrolável de correr atrás dela. Caiu em si olhando as horas. Tinha que ir trabalhar. Foi para o quarto parando ao lado da cama desfeita. Lembrou-se de tudo caindo sentada na cama. A pergunta que martelava dentro de sua cabeça era como Corina conseguia mexer tanto com ela. 

Em Paris Leonor e Telma almoçaram em um gostoso restaurante seguindo para um passeio. Telma a levou até a nova ponte dos cadeados. Leonor sorriu comentando encantada.
- Pelos vistos o que mais há são apaixonados visitando Paris. É emocionante ver tantos cadeados assim juntos.
- Pois é, antes ficavam na “Pont dês Arts”, conhecida como a “Ponte dos cadeados.” Lá já não há nenhum.
- Já vi a foto da ponte cheia de cadeados em filmes. Então, por que foram retirados?
- Alegaram motivo de segurança. O excesso dos cadeados acabou por se transformar em toneladas que sobrecarregavam a ponte, colocando a própria e os barcos que navegam pelo rio em risco. Sabes como é, já estavam a imaginar a ponte desabando.
- Ah, pois, faz sentido.
- Sim, mas Paris sem uma ponte dos cadeados parece desnuda. As pessoas trataram de passar a prender seus cadeados aqui na “Pont Neuf.”
- Fizeram muito bem. Pena não termos um cadeado para prender a mesma.
- Achas? Estou a ver que ainda não me conheces.
Telma sorriu abrindo a mala. Tirou um cadeado novinho entregando a ela.
- Aqui tens o nosso, meu amor. Podes prendê-lo.
- Não acredito!
Leonor comentou tirando o cadeado da embalagem. Telma mandou gravar seus nomes nele. Estava escrito: Em motivo do nosso amor, Leonor e Telma.
- Ainda mandastes gravar? Que lindo! Foste muito querida.
Leonor inclinou-se a beijando na boca bem ali. Pessoas passavam e se perceberam a troca de carinho não demonstraram. Ao se afastar para prender o cadeado Leonor viu o homem que a seguia tirando fotos delas. Estava misturado no meio de vários turistas. Controlou-se abrindo o cadeado para prendê-lo. Telma pegou o telemóvel tirando fotos dela enquanto o fazia. Assim que terminou, Telma abraçou-a tirando uma selfie delas segurando o cadeado.
- Pronto já está. Vou colocar esta foto na sala de casa em um lindo porta retratos como lembrança da celebração do nosso amor em Paris.
- Sim, e a foto nos fará recordar destes dias intensos. Vamos indo, amor?
- Sim, tu já realizaste a minha vontade. Deixamos a nossa mensagem em Paris. Que o nosso amor seja mais importante do que qualquer bobagem que o tente diminuir.
Qualquer bobagem, talvez aquele homem a seguindo a mando de Wilma fosse qualquer bobagem. Sorriu pegando a mão de Telma caminhando com ela.
Telma apontou um café algumas ruas depois comentando.
- Disseste que querias fazer algumas compras, meu amor. Podes ir, fico aqui à tua espera.
- Não queres ir comigo?
- Apetece-me ler o jornal bebendo um café. Importas-te?
- Não, claro que não. Então não demoro.
- Não te apresses e fica no terceiro arrondissement. Segue por aquela rua que vai dar na área comercial por onde já te levei. Estarei bem aqui à tua espera.
- Pode deixar, já estou bem situada depois de já lá ter ido consigo. Até mais.
- Até mais, querida.
Leonor sorriu caminhando até chegar numa das ruas tranquilas da aérea comercial. Entrou em uma loja onde comprou algumas lembranças para levar para Portugal. Escolheu um presente especial para Aima por ela ser sempre tão querida. Depois foi a outras lojas. Andou distraída a ver tudo entusiasmada. Assim que deixou a última loja viu o homem que a perseguia parado ao lado da vitrine da loja ao lado. Apertou o passo seguindo por outras ruas andando cada vez mais rápido. Olhou para trás vendo o homem andando atrás dela. Para sua infelicidade começou a correr entrando em uma rua estreita, onde não havia ninguém. Acabou tropeçando esparramando-se ao chão. Os sacos espalharam-se enquanto ela erguia-se já disposta a fugir, mas o homem alcançou-a agarrando-lhe o braço com violência. Leonor o encarou pedindo assustada:
- Deixa-me me paz!
- Deixar-te em paz? Não percebestes que tudo que não terás é paz?
- Me solta e deixa-me passar!
- Tenta passar, vá lá, tenta!
Ele estava colado a ela impedindo que desse um único passo. Apertava-lhe o pulso com imensa força.
- Vê? Não tem para onde correr.
- Cobarde!
- Cala-te cabra!
- Socorro...
- Grita de novo cabra! Grita que te arranco a língua!
Ele a desafiou sorrindo do pavor que via no semblante dela. Enfiou a mão no bolso do casaco tirando uma navalha. Leonor deu um passo atrás temerosa, mas ele ainda estava colado a ela.
- Oh, não! Não faça isto... O que é que queres? Não lhe fiz nada.
- Cala-te e ouve!
- Está bem, mas não me magoe.
- Quanto a isto só vai depender de ti. Tu vais terminar a tua relação com a juíza. Logo que voltares para Portugal nunca mais vais voltar a vê-la. E não contes a ninguém sobre essa nossa conversa, pois se contares nem o teu corpo vão encontrar. Tás a entender, cabra?
- Oh...
A navalha estava colada à garganta e Leonor mal conseguia falar.
- Tás a entender ou não?
Leonor balançou a cabeça em resposta e neste momento ele afrouxou a pressão da navalha sobre o pescoço dela. Percebendo que ele não iria machucá-la, Leonor jogou toda força do corpo sobre o braço direto atingindo-o com o cotovelo. Apanhado de surpresa, pois, não supôs que ela reagiria, o homem gemeu soltando-a instintivamente. Leonor se voltou chutando o pênis dele. Viu-o cair de joelhos levando a mão ao membro gemendo de dor. A navalha caiu ao lado dele no chão. Ela pegou os sacos correndo sem olhar para trás.
Apareceu no café esbaforida, com os cabelos em desalinho, completamente suada, com a respiração totalmente descontrolada. Puxou a cadeira sentando diante de Telma. Esta, ficou a olhá-la totalmente surpresa e chocada com o estado em que se encontrava.
- Por que estás assim toda desfeita? O que te aconteceu? Foste assaltada?
- Não, foi... Foi aquele homem...
- Que homem?
- Aquele que estava a seguir-me em Lisboa.
- Está doida, Leonor? Aquele homem, aqui? Olha querida, eu pensei que tinhas te esquecido deste assunto. Trouxe-te para a França para tirar isto da tua cabeça e me vens dizer que...
- Não estou doida, olha pra isto. 
Leonor pediu mostrando o pulso avermelhado e o pescoço marcado da navalha.
- Vês as marcas no meu pulso? No meu pescoço?
- Oh, meu Deus! Então é verdade! Ele veio atrás de ti. Isto é inacreditável!
- Sim.
- Como escapastes dele?
- Dei-lhe uma cotovelada e o chutei lá em baixo. Então apanhei os sacos e corri sem olhar para trás.
- Não pediste ajuda?
- Eu gritei, mas ele calou-me ameaçando com navalha. 
- Foi a primeira vez que o viste? Já o tinhas visto? Conta-me os pormenores.
Leonor contou desde o primeiro momento que tinha percebido o homem em Paris. Quando terminou de contar Telma pediu a conta decidida.
- Por que não me contaste no primeiro dia em que o viu em Paris?
- Eu estava tentando te poupar, Telma. Tu não gostavas quando eu falava sobre este assunto em Lisboa.
- De certo que eu não gostava, não gostava de ver-te tão aflita. Devias ter me dito antes. Agora chega! Vamos já a polícia dar parte deste facínora. 
- Estás certa disto? Ele ameaçou-me de morte.
- Por certo que ameaçou, estou a ver o teu pescoço. Temos que acabar com isto. Falei ao secretário de segurança em Lisboa, mas disse-me que se o meliante nada te tinha feito não poderia tomar nenhuma atitude. Agora tudo mudou, o homem quase cortou a tua garganta.
- Eu sei, espera. Vamos embora amanhã, acho melhor não irmos à polícia.
- Temos que ir à polícia e é agora que lá vamos. Deixa-me levar os sacos e anda comigo. Não te preocupes, temos que fazer o que é certo.
- Está bem, mas depois vamos para o hotel. Só estou com vontade de deitar-me.
- Pois, eu percebo, é claro que iremos para o hotel, meu amor.
Tomaram um táxi indo até a polícia. A queixa que fizeram não resultou em nada, porque Leonor não sabia o nome do homem e muito menos onde poderia ser encontrado. O policial que as atendeu recomendou que se voltassem a ver o homem deviam contatar a polícia imediatamente.
Voltaram para o hotel, onde Leonor se jogou na cama desfeita.
- Que alívio! Aqui sinto-me mais segura.
- Oh, meu amor! Custa-me tanto ver-te assim arrasada sem nada poder fazer por ti.
- Podes deitar-te comigo e abraçar-me. Gostava de estar melhor para ir ao teatro contigo a noite. Prometo.
- Se não estiveres bem ficamos quietinhas cá no quarto.
Telma respondeu deitando ao lado dela, abraçando-a carinhosamente.
- Agora descansa nos meus braços. Tenta dormir um bocadinho. Quando acordares vais estar a sentir-te melhor. Se estiveres boa iremos ao teatro. Vai ser até bom para distraíres a tua cabeça.
- Sim, a ver vamos.
- Pois, pois meu amor. Será tudo como quiseres.
Telma disse beijando os cabelos de Leonor trazendo-a mais para junto do seu corpo.  
Leonor despertou melhor e acabaram por ir ao teatro assistir o musical “The Phantom of the Opera.” Assim que entraram no quarto do hotel Leonor a beijou apaixonadamente.
- Adorei ir ao teatro contigo, mas agora anda cá, estou louca para amar-te.  
- Também eu meu amor. Tens a certeza de que estás bem? Depois do que passastes talvez queiras apenas receber carinhos e mimos meus.
- Estou bem, amor. Quero fazer amor contigo, é só o que eu quero, o que me basta. 
Leonor voltou a beijá-la enquanto a livrava das roupas, no que Telma ajudava tão excitada quanto ela. Foram para a cama trocando beijos fogosos.
Na cama nuas seus corpos enroscaram-se numa procura mútua. O desejo dominou-as levando-as para uma relação sexual quase selvagem. Chuparam-se gozando logo. Leonor virou o corpo de Telma comendo-a por trás.
- Aiiii... Leonor... És tão ousada...
- Sou porque me deixas assim, louca. Mexe tuas ancas para mim...
Leonor pediu no ouvido dela enquanto deliciava-se entrando e saindo do ânus. A outra mão chegou ao clitóris friccionando-o com urgência. O orgasmo veio explodindo no gemido de Telma.
- Oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
Leonor a puxou sobre seu corpo. Telma deitou sobre ela deslizando os dedos para dentro da buceta. Beijava-a na boca enquanto a comia louca de desejo. Não demorou em que Leonor gozasse na mesma.
- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Ficaram abraçadas por alguns instantes. Telma sorriu comentando:
- Adoro quando me pegas de quatro.
- Há dias que não penso em outra coisa.
- Pois eu sei, és deliciosa quanto está a arder de desejo por mim.
- Amo-te. 
- Eu te amo demais, querida. 
Leonor deitou a cabeça dela sobre seu ombro comentando:
- Estes dias por cá foram perfeitos. É pena que amanhã iremos embora.
- Pois, também tenho pena, mas logo que possível podemos voltar. Gostas da ideia?
- Claro, será delicioso. 
- Estavas tão linda com o vestido novo. Quase te agarrei no teatro.
- Teria sido bom.
- Terias adorado, foi o que imaginei. Já está a ficar com sono?
Leonor sorriu acariciando os cabelos dela.
- Ainda não. É a nossa última noite, vamos aproveitar.
Respondeu passando a mão pelos seios de Telma.
- Hum, tão sugestiva. Adoro.
- Mata a minha fome de ti, mata, Telma.
- À se mato, é para já.
Telma respondeu virando para beijá-la, e recomeçaram a se amar.
Continua...