sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Portuguesa. - Capítulo 4.


Bruna despertou sentindo a cabeça pesando uma tonelada. Tentou erguer-se caindo novamente na cama. Sentiu cheiro de café no ar. Mal conseguia abrir os olhos. Ouviu passos no quarto e a voz de Graça soou ao seu lado.
- Bom dia, Bruna! Sei que estás mal. Coitadinha! Nem penses em te levantar. Vais acabar caindo.
- Oh, bom dia. Estou destruída. Minha cabeça está pesando como um chumbo.
- Tu sabes que não era para menos. Não merecias, mas também onde estavas com a cabeça ontem? Tomaste poncha pensando que era água. Para além do que aquilo não é uma bebida para se tomar às garrafadas. Por isso correu mal e está partida.
- Correu mal demais. Ai meu Deus! Tem algum comprimido para dor de cabeça? Tenho que melhorar para ir trabalhar.
- A, pois tenho. Vou já lá buscar. Tens ai uma chávena de café. Bebe um pouco. Vai-te fazer bem. Quanto a trabalhar, esquece. Hoje não vais a parte alguma. Estás horrível, minha amiga!
Graça foi buscar o comprimido enquanto Bruna ergueu-se com dificuldade pegando a chávena. Bastou o primeiro gole para dispor do estômago. Graça a encontrou chorando tamanho o desconforto que sentia.
- Oh! Não fiques assim. Não chores. Vou limpar agora mesmo. Anda lá. Deita-te aqui na poltrona enquanto dou um jeito em tudo.
Graça ajudou-a a ir para a poltrona, pois Bruna estava mesmo muito mal.
- Não estou acostumada a beber assim. O que fui fazer a mim mesma?
- Pois, sei bem. Eu disse-lhe.
- Disse-lhe? Falou com Ana Sofia?
Bruna perguntou abrindo os olhos assim que deitou.
- Falei, pois! Por acaso ela sabia bem o que estava a fazer.
- Ela não fez por querer...
- Não te faças de parva. Tu não percebes que as raparigas estavam planeando deixar-te embriagada? Tenho pena, Bruna. Tenho pena porque não merecias. Digo mais, tem cuidado com a Ana Sofia. Aquela história dos despedimentos na fábrica deixou-a enervada contigo. Só estava a vingar-se de ti. O facto é que precisas ter atenção.
- Se foi isto mesmo elas conseguiram derrubar-me.
- Completamente. De quem é a culpa? Toda tua. Mas pronto, só queria que soubesses. Eu aviso-te, tem mais cuidado. Toma o remédio. Vamos lá ver se o consegues aguentar no estômago.

Na fábrica, Ana Sofia voltou do almoço mais agitada. Andou pela sala de um lado para o outro completamente inquieta. De repente sentou-se ao lado de Manuela. Olhou para ela dando um sorriso sem graça.
- Parece que a Bruna não veio mesmo trabalhar. Mas, pronto. Se calhar passou mal.
- Coitadinha, deve estar acamada. Certamente de rastos...
- Não fales assim! Sinto-me ainda pior.
- Fostes muito cruel com a brasileira. Esqueceste que ela não tem a tua idade?
- Pois fui, pronto, isso já não se muda! Estou aqui desesperada e tu não paras com essas lembranças. Não faço a mínima ideia de como ela está a passar.
- Muito mal com toda a certeza.
- Oh Manuela, escuta lá, tu queres me desgovernar de vez?
- Só falei umas coisitas, pá. Tu estás de cortar a faca. Tenho lá eu culpa deste fracasso? Valha-me Deus! 
- Pois, e Deus o que pode fazer agora que já desenrolei o novelo todo? Que suplício! Oh! Tive uma noite que... Mal preguei os olhos! Seria bom saber alguma coisa.
- Vais ficar nestas consumições? A coitadinha só deve estar a andar assim meio engatinhando. Mas, até amanhã, ficará melhor.
- Ainda pra mais, nem quero pensar nesta situação.
- Que remédio? Já se deu a trapalhada. Não fiques assim.
- Como querias que eu ficasse? Se calhar aquela Graça teve que lhe acudir e levá-la ao hospital.
- Não olhes para mim. Fiquei quietinha lá como vistes.
- Ouve com atenção. Vai falar com a secretária dela, faz favor. Pergunta, como quem não quer nada, sobre o paradeiro dela.
- Eu? Estás louca ou o quê, Ana Sofia? Então, pá!
- És atrasada mental? Quem mais? Tu foste cúmplice, já te esqueceste?
- Oh! Tens a certeza? Fui e sei, mas arrependi-me quando a vi toda desgovernada.
- Arrependeste-te tarde! Tu não vês a minha aflição? Assim é que eu não posso ficar! Deixa de ser cobarde e vai lá saber notícias.
- Eu já lá vou.
- Vai. Vai e sê discreta.
- Oh, boa! Discreta é que tem piada.
- Tu não te armes em engraçadinha. Gostava que fosses, sem piadas, faz favor!
- Pronto, fui!
Manuela respondeu saindo apressada da sala. Ana Sofia ergueu-se voltando a andar apreensiva pelo recinto. Passado uns quinze minutos, a Manuela entrou correndo com os olhos arregalados.
- Consegui uma resposta! Nossa Senhora dos sofrimentos, se é que ela existe que nos ajude!
- Acalme-te! Então, o que conseguistes? Anda, conta lá!
- Está acamada. Segundo a secretária comeu algo indigesto. Quem ligou foi a amiga dela, tão ruim que ela está. Está a passar muito mal. A dispor do estômago e pior, não paraaaaaaa!
- Pronto, dei cabo dela! Valha-me Deus! Não podia ser mais desastrada. Que seca! Uma catástrofe inimaginável!
- Pelos vistos deste, porque ela está um lixo. Se calhar, quando conseguir sair da cama vamos receber a carta do despedimento.
- Uma coisa de cada vez, faz favor! Temos de ter calma.
- Por que não vais visitá-la?
- O que vou lá fazer? Se fui eu quem a nocauteou?
- Se calhar salvavas o nosso pescoço.
- Ora queres saber? Fartei-me! Chega! Não tenho paciência.
Ana Sofia decidiu pegando na mala para sair.
- Onde é que tu vais?
- Vou-me embora que não estou para estas agonias.
- Ainda falta muito tempo para irmos...
- Quero lá saber? Que descontem as horas. Até amanhã!
Ana Sofia entrou em sua casa meia hora mais tarde. A mãe estava varrendo a sala.
- Filha? Já cá estás? Aconteceu...
- Olá mãe! Não aconteceu nadinha. Necessito formatar aqueles portáteis antes que comecem a cobrar. Dê cá a vassoura. Faço isto para a Senhora.
- Tens a certeza que não aconteceu nenhuma situação?
- Tenho sim. Descanse mãe.
- Pois, então eu vou ligar para a tua tia.
- Faça isso.
Enquanto varreu a casa, Ana Sofia não parou de pensar se a Bruna já estaria melhor. Depois foi para o quarto trabalhar nos portáteis para ocupar a cabeça. Estava por demais apreensiva. Assim passou a noite. Mal pregou os olhos.

No dia seguinte entrou na fábrica mais ansiosa ainda. Para seu alívio deu de caras com a Bruna quando seguia pelo corredor. Olhou-a com atenção. Estava um pouco abatida, mas estava viva. Bruna inclinou a cabeça falando completamente séria.
- Bom dia, Ana Sofia!
- Bom dia!
Bruna não parou. Apenas a cumprimentou seguindo em frente. Ana Sofia suspirou sentindo se aliviada. Entrou na sala sorrindo para Manuela.
- Bom dia, Manuela!
- Bom dia, Ana Sofia! Estás boa? Parece que as nossas cabeças serão poupadas.
- Hum, vá lá, esquece isso. Sofri tanto à toa por duas longas noites! Já está cá de volta pronta para os despedimentos. Não a matei, pois não?
- Chegou perto. A coitada mal andava.
- Deixa de tontices. Mal acredito que hoje é sexta-feira. Dois dias inteiros para descansar desta tensão constante. A novidade é que passei nos recursos humanos para assinar os papeis das minhas férias. Na quarta-feira já não venho cá. Irei para o Funchal com a mana e a nossa mãe. Não vejo a hora de lá estar.
- Oh, mas e eu?
- E tu o quê? Surtaste?
- Ficarei cá, só a morrer de medo todos os dias?
- Tens um bom remédio. Tens as horas extras que não pagaram. Pede em folgas. Se quiseres faço um comunicado solicitando-as para ti.
- Farias isto?
- É óbvio, pois somos amigas! Deixa que eu trato disso num instante.
- Pois quero imenso. Quanto ao Funchal, tenho tanta vontade de conhecer aquela ilha das flores. Achas que posso ir contigo?
- Será que a Tereza vai querer ficar só?
- Falo com ela para dar um jeitinho. Quero tanto! Deixa, Ana Sofia!
- Vá, está bem! Podes ir. A casa da tia tem bastante espaço.
- Obrigadinha! Vou amar!
- Também eu. Agora chega, vamos trabalhar!
O dia foi tranquilo e passou rápido para a felicidade das funcionárias.

A paixão aflorando.
Maria do Carmo foi à missa das seis. Estava ajoelhando para rezar quando viu a mulher que lhe tinha dado boleia. Bruna estava concentrada nas palavras do padre. Observou como estava bem vestida. Desviou os olhos passando a fazer as orações.
Estava saindo da igreja ao final da missa quando Bruna aproximou sorrindo para ela.
- Olá! Como vai a Senhora?
- Olá! Vai-se andando, muito obrigada!
- Está indo para sua casa?
- Pois estou. Gosto de vir à missa da sexta-feira, porque aos domingos não me apetece. Prefiro passar um cadinho com as minhas filhas. Trabalham tanto e sabe bem fazer-lhes uns agrados. Uns mimos. Percebes?
- Sim, claro! A minha mãe também era assim.  
- Era? Faleceu, foi?
- Faleceu há dois anos.
- Oh! Tão triste! Deus sabe o que faz! Foi bom revê-la. Adeus!
- A Senhora não quer uma carona? Vou na mesma direção.
- Pelos vistos moras por cá.
- Acabo de alugar uma casa a algumas quadras daqui.
- Oh, pois! Uma nova moradora aqui no bairro. Isso é que é.
- Vamos, levo a Senhora.
- Vou aceitar a boleia porque estes joelhos já não me levam longe sem que se ponham a doer.
Bruna abriu a porta para ela. Depois deu a volta dando partida no carro. Quando chegaram a casa, abriu-lhe a porta com sua gentileza de sempre.
- Muito obrigada!
Maria do Carmo agradeceu olhando para a porta da casa e para Bruna novamente. Recordou que Ana Sofia não gostou que tivesse aceitado boleia de uma estranha. Seria bom se a filha conhecesse aquela mulher gentil para ficar descansada.
- Aceitas uma chávena de café? Tens sido tão gentil a dar-me boleia. Não me custa nadinha.
- Se a Senhora quiser me dar aceito sim, obrigada!
- Pois, anda cá. Vamos entrando!
Ana Sofia entrou em casa às dezenove horas. Tinha um livro nas mãos que colocou sobre a mesa. Estacou surpresa ao ver Bruna sentada diante da mãe na sala de estar.
- Olá filha! A Bruna foi a pessoa que me deu boleia no outro dia. Deu-me hoje novamente. Fomos à mesma missa. Quis que ela ficasse para que tu a conhecesses.   
Ana Sofia estava emudecida olhando para Bruna atônita. Ela de fato a estava rondando. Do contrário o que estaria a fazer ali? Por causa dela tinha perdido praticamente duas noites de sono, preocupada com a bebedeira que lhe deu. Então, ela estava simplesmente sentada no sofá como se fosse a coisa mais natural. Viu uns fios de cabelos brancos na têmpora dela imaginando pela primeira vez quantos anos ela deveria ter. Parecia lhe ter uns quarenta anos. Não estava mais com a expressão abatida. Ela era de facto uma delicinha. Nem tentaria mais negar. Tinha vindo de tão longe. Do outro lado do mundo e estava justamente à sua frente. Engoliu em seco desviando os olhos dos dela. Fitou a mãe abrindo um sorriso que não estava com a menor vontade de dar.
- Olá mãe! Fez bem! Trouxe a tosta e os cacetes que recomendou.
Só então voltou-se novamente para Bruna cumprimentando-a.
- Boa noite! Mãe? Sabias que ela é a presidente da fábrica agora? Ela contou-lhe? Que é a minha nova chefe.
Maria do Carmo fitou Bruna boquiaberta.
- Não posso acreditar! É mesmo verdade? Não fazia ideia! Por isso andavas por cá à procura de uma casa.
- Sim, Dona Maria do Carmo! Ia ainda contar que sou a nova presidente da fábrica. Começamos a conversar e a Ana Sofia chegou. Não tive tempo.
- Oh, mas foi Deus que a mandou para cá neste momento. Diga-me, não vais colocar as minhas filhas na lista dos despedimentos, pois não?  
- Não Senhora! Suas filhas estão com os empregos garantidos. Aliás, as demissões terminaram. Ninguém mais será.
- Que benção! Mas, espere! Então, sabias que eu era a mãe da Ana Sofia?
Ana Sofia percebeu o desconforto de Bruna com aquela pergunta. Pensou que ela iria mentir,e ela assim o fez.
- Não fazia a menor ideia.
- Pronto, então temos cá tudo esclarecido. Volte a sentar-se, faz favor. Fica para jantar conosco? Será uma honra. As minhas filhas vão adorar.  E eu também.
Bruna olhou de Maria do Carmo para Ana Sofia sem saber se aceitava.
- Espero que não tenhas a intenção de ficar mesmo para jantar.
Ana Sofia falou sem se preocupar por estarem na presença da mãe.
- Vá Ana Sofia. Coloque as compras na cozinha e traga uma garrafa de vinho aqui para tomarmos com a Bruna, faz favor!
- Xiiiiiiiiiii, está bem!
Maria do Carmo fechou a cara para a filha enquanto ela deixava a sala.
Então sorriu numa forma de se desculpar.
-Não ligues, os jovens são todos assim. Percebes?
Perguntou piscando para Bruna como se fossem velhas conhecidas.
- Percebo. Claro que percebo dona Maria do Carmo. Está tudo bem.
- Assim é que é. Podes tratar-me como Carmo! Fica à vontade. Estás em casa de conhecidas. Logo a minha Catarina também chegará. É a mais difícil, meio rebeldizinha. Dezanove anos é uma idade tinhosa. Ana Sofia é o contrário. É um amor de filha! Tão boa, tão carinhosa, meiguinha! Tenho sorte pela forma como cuida da minha saúde, de mim, da irmã e da casa. Olha, preocupa-se mais do que eu com tudo. Tenho pena, é bem verdade que não devo ser egoísta, mas qualquer dia acabará encontrando um homem para casar e nos deixará. Mas é assim, criamos os filhos para o mundo. És casada?
- Não.
- Nunca casaste? O que aconteceu? Não encontraste um bom partido no Brasil? Vejo pela televisão tão lindos homens no teu país.
- Sim! Existem homens lindos de facto no Brasil. Não é uma questão de beleza. O casamento ainda não fez a minha cabeça.
- Pois não? Olha que para teres filhos a idade conta. Conta demais, nem te digo! O corpo da mulher depois dos quarenta, oh, fica assim um cadinho inapropriado para procriação! Não, não! Aconselho que penses imenso sobre o assunto com a máxima urgência.
Bruna ficou muda imaginando se Maria do Carmo a estava achando muito velha. Neste momento Catarina entrou ao mesmo tempo em que Ana Sofia entrava com a garrafa de vinho e as taças.
- Olá mamãe! Olá Ana Sofia! Temos convidados? Que novidade! Boa noite! A Senhora não é a nova diretora da fábrica?
Catarina perguntou estendendo a mão ao reconhecê-la.
- Sou sim. Muito prazer, Catarina!
- O prazer é todo meu...
- Vá Catarina, deixa de salamaleques e traz uma taça para ti da cozinha.
Ana Sofia interrompeu cortando a irmã.
- Ana Sofia? O que tens minha filha? Nunca falaste assim com tua irmã!
Ana Sofia baixou a cabeça respondendo para a mãe.
- Desculpe mãe. Não tenho nada.
- Assim é que é. Vem te sentar conosco. Serve o vinho, faz favor. A Bruna estava a contar que nunca se casou.
- Então? Decidiste ficar para titia, foi?
- Ana Sofia, mas o que se passa contigo? Vem cá para o meu pé e para de falar tontices.
- Podem ir conversando que fica bom assim.
Ana Sofia respondeu servindo as taças de vinho, sentando-se em seguida ao lado da mãe.
- Sua mãe estava explicando que depois dos quarenta anos o corpo da mulher começa a ficar inapropriado para gerar filhos. De facto, concordo, pois a queda da fertilidade despenca. O ovário das mulheres já nasce com um número de óvulos pré-definido. Exceto, nas mulheres inférteis. Os riscos para a saúde com uma gravidez se tornam acentuados. Eu certamente não terei filhos e se vier a ter será através de uma adoção.
Ana Sofia comentou em resposta sorrindo ironicamente.
- Olha que pena! É preciso tomar atenção à idade. Ainda pra mais com quarenta já não se anda lá tão fértil como acabaste de afirmar.  
Bruna sustentou seu olhar suspirando tão baixo que não puderam ouvi-la. Achava cada vez mais que ela não sentia interesse por pessoas mais velhas. O que lhe confundia era a forma profunda como Ana Sofia a olhava. Parecia-lhe, que tudo o que ela não falava dizia com os olhos. Naquele momento estava olhando fixamente para seus lábios. Bruna sentiu-se mais quente com aquele olhar fixo. A vontade que sentia aumentando em seu ser era de mostrar-lhe, que no alto dos seus quarenta anos, estava em plena forma. Não para ter filhos, mas para levá-la à loucura de tanto prazer.
Bruna ficou com a ideia apenas no pensamento, pois, Catarina uniu-se a elas. Passaram a conversar de assuntos variadíssimos, até que Maria do Carmo perguntou a Bruna:
- Já conheceste os lugares maravilhosos de Lisboa?  
- Não. Ainda não conheci nada.
- Oh que sacrilégio! A Torre de Belém e o jardim tão lindo. O espelho d’água do Rio Tejo, o oceanário de Lisboa, o panteão Nacional, o mosteiro Dos Jerónimos, o pavilhão dos descobrimentos, o convento do Carmo, o parque das nações, o elevador de Santa Justa, o miradouro da Senhora do Monte, o Bairro alto, o miradouro da graça, o castelo de São Jorge e Alfama. Alfama deveria ser o teu primeiro destino. Vais amar! Tens que conhecer. Ana Sofia?
Chamou Maria do Carmo fitando Ana Sofia neste instante.
- Oi mãe?
- Porque não levas a Bruna nestes passeios? Ela precisa ser guiada já que não conhece nada.
Ana Sofia abriu mais os olhos pensando em recusar na hora. Bruna, no entanto falou rapidamente percebendo a expressão de desagrado no semblante dela.
- Não é preciso se incomodar, Ana Sofia. A Graça prometeu que vai começar a mostrar toda a cidade nos próximos dias.
- Não tenhas dúvidas que a Ana Sofia irá te levar com imenso gosto!
- Calma mãe...
- Farão umas saídas juntas sim, Ana Sofia! Qual é o problema? Em vez de sairés por aí para beber uns copos podes muito bem orientar a Bruna. A pobrezinha está perdida não percebes?
- Isso é que é. Não se prega prego sem estopa.
Ana Sofia respondeu bebendo um gole do vinho com um suspiro.
- Está decidido! Amanhã se quiseres a Ana Sofia começa a levar-te para conheceres estas maravilhas. Pois não filha?
- Como queiras mãe!
- Começando por agora. Levarão Bruna à casa de fados convosco. Não estou disposta para ir aos fados hoje.  
- Na verdade...
Ana Sofia tentou falar, mas a mãe segurou no seu braço, explicando séria.
- Ouve-me! Eduquei-te para mais. Não te esqueças.
- Boa! É o que quer? Levamos a Bruna, então!
- Pois assim está melhor. Venha para a cozinha! Vamos tratar de servir o jantar. Depois terão uma noite agradabilíssima de fados. Com licença, Bruna!
- Tem toda!
Bruna respondeu se erguendo enquanto elas deixavam a sala.
- Senta-te!
Catarina ofereceu olhando-a em pé sem entender. Bruna sorriu para ela explicando.
- Sim, vou sentar. Só quero dar uma olhada neste livro.
O livro que Ana Sofia deixou sobre a mesa a fez aproximar para ver o título. “O Guardião de Rebanhos.” Pegou-o descobrindo que era um livro de poemas. Poemas? Ana Sofia lia poemas? Achou estranho imaginá-la lendo poemas. Abriu-o na página que estava marcada com um separador de páginas. Leu com atenção o poema:
"Quem Me Mandou a Mim Querer Perceber?
Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo..."
Alberto Caeiro.
Fechou o livro, virando-o para ler a contra capa. Era uma seleção de poemas de Alberto Caeiro.
Voltou-se indo sentar-se novamente.
- Estava apenas olhando o livro que a Ana Sofia está lendo. Também gosto de ler.
- Gostas? Não me apetece.
- Sim, mas para ler é preciso realmente gostar...
Na cozinha Carmo ligou o forno apontando os pratos para Ana Sofia.
- Fazes favor de trazer os pratos para levar para a mesa.
- Sim mãe.
- O que se passa entre vocês as duas?
- Não percebi.
Ana Sofia respondeu fitando a mãe. Seu coração estava apertado só de imaginar que levaria Bruna para conhecer a cidade.
- Não percebeste? Temos aqui uma situação. Ficastes vermelha como um pimentão quando batestes com os olhos na tua chefe. Pareceste-me por demais surpresa.
- Assustei-me ao vê-la aqui, pois não estava à espera.
- Tens a certeza? Fizeste de tudo para te esquivares de acompanhá-la para conhecer a cidade. Como não gostaste da ideia de levá-la à casa de fados. 
- Acha? Veja lá, não pense demais. Não há nada para explicar. Entendeu mal...
- Entendi bem, filha! Tu não te ponhas a medir forças com ela. Ela é a tua superior! Então, não cries casos. É recém chegada à cidade e não te custa ser gentil. Podes ganhar com isto o respeito dela, que mal não tem nenhum. Estavas ai toda preocupada em perder o teu trabalho. Já não há essa hipótese.  
- Eu não sou babá de ninguém. Muito menos puxa saco!
- Já percebi! Não gostas dela, pois, está na cara! Achas que precisas gostar? Isso passa ao lado. Se não gostas tens bom remédio. Não te armes em grosseira. Não há nada que justifique tratar mal a mulher. Não te eduquei assim.
- Está bem. Já não se fala mais.
- Então é melhor não falarmos. Anda lá. Prepara a mesa que eu lá já vou ter e levo a janta. E não te esqueças, quando saírem, porta-te bem.  
Ana Sofia entrou na sala com os pratos e os talheres. Tirou o livro da mesa sem olhar para a Bruna. “Porta-te bem”, dissera a mãe. Sentia calafrios por todo o corpo só de olhar para a Bruna. Mal podia pensar em como iria se portar. Desde a primeira vez em que a viu que sentiu ímpetos de fugir dela. Mas no fundo, ah, no fundo queria agarrá-la. Essa era a verdade que a assustava tanto.
- Ana Sofia você gosta de poemas? Vi o livro que está lendo. É interessante?
- Por acaso não terminei de ler.
- Claro, tem razão.
- Ana Sofia?
- Sim mãe!
- Segura aqui na salada.
Enquanto Ana Sofia ajudava a mãe a trazer a comida para a mesa, Catarina convidou Bruna para se sentar. Depois jantaram no mesmo clima animado com Carmo contando sobre as belezas de Lisboa. Prometendo que Ana Sofia levaria Bruna para conhecer cada uma delas. Completamente muda Ana Sofia não participou da conversa. Quando terminaram de jantar, Ana Sofia e Catarina foram se vestir para sair. Bruna ficou na sala conversando com Carmo.
Trinta minutos depois quando as duas apareceram prontas, Bruna ficou olhando encantada para Ana Sofia. Ela estava usando um terninho vermelho com um corte feminino. Calçava mocassins da mesma cor. O perfume dela chegou até Bruna.
Neste momento Carmo se ergueu colocando as mãos na cintura encarando Catarina.
- Vais sair assim toda descascada? Não tens juízo? Ainda pra mais vais a uma casa de fados! E não me olhes assim! 
- Então mãe, não precisa cortar assim a faca.
- Preciso! Preciso porque és uma assanhada! Passa já lá pra dentro. Põe-te mais composta! Mas onde já se viu uma coisa destas? Esta tua irmã Ana Sofia ainda me levará à loucura!
- Pois eu sei mãe.
Voltando-se para Bruna, Carmo justificou.
- Desculpa lá, mas esta minha filha saiu ao tio. Parece que não tem miolos. Ir assim vestida a uma casa de fados, duvido que a deixassem entrar.
Ana Sofia permaneceu silenciosa olhando fixamente para Bruna. Aqueles olhos azuis eram uma loucura. Não conseguia parar de admirá-los. Naquele instante estavam mais lindos e brilhantes. E os lábios? Eram tão convidativos... Não conseguia esquecer o gosto do beijo que trocaram. Oh, aquilo era para lá de uma provocação que tentava ignorar. Olhou para o lado, vendo a mãe voltar-se na sua direção.
- Ana Sofia vocês vão ao “Faia”?
- Sim. Marquei lá com Manuela e a Tereza. Já estamos atrasadas. 
- Então vai lá e ajuda a tua irmã a escolher uma roupa decente. Vai filha!
Ana Sofia entrou no quarto da irmã recomendando séria.
- Não enerves a nossa mãe.
- Tu vistes? Mamãe quer que eu vá vestida como uma beata. Se calhar como uma freira. Já nem posso sair como me apetece. Que seca!
- Pois é, mas anda logo. Vou ficar à tua espera.
- A mãe arranjou-te uma boa.
- Pois foi. Estou sem palavras. Só tu para me tirares desta enrascada.
- Não fiques assim. Que posso eu fazer?  Essa Bruna é tão charmosa que nem sei como vais aguentar.
- Nem eu. Charmosa é pouco. É uma loucura de delicinha. Ainda assim, vais sair conosco quando for com ela a estes passeios.
- Eu? Vou segurar vela?
- Não tem nada de vela. Tu sabes que não existe nada entre nós.
Ana Sofia respondeu agitada. 
- Então não te enerves. Só não percebi o que ela veio cá fazer.
- Não percebeste? Nem queiras perceber. Eu é que imagino e fica certa que ela não está aqui de boa fé.
- Achas que quer te fazer algum mal?
- Hahahaha, não sei se podemos classificar como fazer-me mal. Despacha-te! A Manuela e a Tereza já devem estar por lá à nossa espera.
- Não reservaste mesa?
- Pois reservei, mas já são horas!
- Certo já estou terminando.
Catarina terminou de se vestir e foi para a sala com ela. Carmo olhou para o vestido, desta vez mais comprido e o casaco que ela usava por cima, sorrindo.
- Isso é que é. Divirtam-se minhas filhas. E não abusem dos copos! Até logo!
Despediu-se vendo-as sair.
                                                    Continua...

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

lucilia do carmo - maria madalena

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Trecho do novo conto.


Novo conto em Setembro!


Conchita Wurst - Rise Like A Phoenix (Austria) 2014 Eurovision Song Contest

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A Portuguesa. - Capítulo 3.


Graça jantou com Bruna percebendo que ela estava muito calada. Recolheu a mesa quando terminaram indo para a cozinha. Cuidou da loiça voltando para a sala. Bruna estava sentada olhando para a televisão que nem chegou a ligar.
- Anda lá, o que te deu? Por que estás assim?
Bruna olhou para ela acabrunhada.
- Só me aborreci hoje com Ana Sofia. Foi tão estranho. As mulheres são iguais em qualquer parte do mundo. Ah, só podem ser!
- Gostava de saber do que estás a falar. Diz lá.
- Ah! Foi chato demais. Eu criei coragem e confessei que queria beijá-la.
- Hum. Então? Beijaste?
- Beijei sim, mas ela reagiu fugindo do beijo depois. E...
- E?
- Sentou dois tapas sem a menor compaixão. Poxa, doeu na hora.
- Eu falei. Avisei-te que ela é uma mulher séria, caramba!
- Ora, mas um beijo é algum pecado? Nunca vi isto na minha vida. Dou o beijo e tomo duas bolachas? Foi daquelas estaladas mesmo, sabe? Ta de um lado e ta do outro. Que situação! Confesso que fiquei sem saber o que falar. Só se ela não gosta de ser beijada. Tem este problema aqui? As portuguesas não gostam de serem beijadas?
- Não sejas dramática! Isto não tem nada a ver com as portuguesas. Todas as mulheres gostam de beijar. Ela pode não ter gostado do teu beijo. Pode ter achado um imenso atrevimento. Pode ter variadíssimas razões. Ocorreu lá na fábrica?
- Sim, foi! Ela chegou muito cedo e eu já estava lá. Então não resisti e aproveitei para beijá-la.
- Deste-te mal. Não foi por falta de aviso. Não tem outra hipótese. Uma mulher bem orientada impõe respeito. É assim, estás a ver? Digo-te que existem outras mulheres que não reagiriam da mesma forma.
- É, talvez você tenha razão. Acontece que ela não sai da minha cabeça e eu não quero outra. Quero a Ana Sofia!
- Nem sempre a pessoa que queremos também nos quer. Leva isso em consideração. Vamos tomar um copo. Precisas distrair. Ver mulheres diferentes. Anda cá, ainda é cedo.
- Então vamos, mas só quero beber. Não quero conhecer mulher nenhuma.
- Vamos ver.

Ana Sofia estava com a Manuela e a Tereza no barzinho quando viu Bruna entrando com a Graça. Desviou na hora os olhos comentando:
- Este bairro anda, hum, já nem sei!
- Então, o que foi?
Perguntou Tereza começando a rir.
- Andas muito nervosa. Devias dar uns amassos. Sabes? Uma mulher faz falta e sabe bem. Não é Manuela?
- Disse-lhe isso, mas ela não me ouve.
- Sei o quanto uma mulher sabe bem. Então, mas não é assim qualquer uma.
Respondeu olhando no fundo do bar. Os seus olhos encontraram os de Bruna. Ela já a tinha visto e estava devorando-a com aqueles olhos azuis famintos naquele instante.
- Faz tempo que não namoras. Aquele teu namoro acabou mal. Também aquela mulher não era nada de jeito para ti. Há hipótese com aquela Dora.
- A Dora? É para rir? “Dora rainha do frevo e do maracatu?”
Ana Sofia perguntou sem achar a menor graça, porém as duas caíram na risada da expressão entediada que ela fez. Enquanto na sua mente, a música passou a tocar. Na voz de Maria Bethânia e de Dorival Caymmi. Quase sorriu, pois as músicas de facto soavam em sua mente nos momentos mais inesperados. A “Dora” da canção era uma mulata. A Dora que falavam era uma loura e a mulher a qual não conseguia tirar os olhos era Bruna que bebia encostada na parede. Viu neste momento duas mulheres se aproximando dela e da outra que estava com ela. Viu como uma delas acercou-se da Bruna. Sentiu um incômodo desviando os olhos agitada.
- A Dora é gira. Por que não lhe dás uma chance?
Manuela perguntou chamando atenção de Ana Sofia.
- Faz favor, isso não tem o menor cabimento!
A Ana Sofia respondeu sorrindo para as duas.
- Pois, não falo mais. Quando é que vais lá a casa beber um copo?
Manuela perguntou pegando na mão de Tereza por baixo da mesa.
- Não sei. Logo se vê.
- Está bem. Quando quiseres basta avisares.
- Vou a casa de banho.
- Não demores.
Tereza recomendou sorrindo para ela.
Ana Sofia entrou na casa de banho sentindo-se completamente sufocada. Porque razão o simples facto de ver aquela mulher se aproximando da Bruna a tinha deixado tão descontrolada? Nem a conhecia e não lhe agradava sentir nada com relação a ela.
- Você está bem?
Estava em pé com as mãos apoiadas na pia quando a voz dela soou nas suas costas. Ergueu a cabeça fitando-a através do espelho.
- Pois estou.
Foi a única coisa que respondeu virando e fechando a porta. Bruna encostou-se na parede respirando fundo.
- Você parecia perturbada quando entrei.
- Achas?
- Não estava?
Não obteve uma resposta. Algum tempo depois a porta abriu e Ana Sofia aproximou da pia abrindo a torneira passando a lavar as mãos.
- Ana Sofia?
Ela voltou se a olhando fixamente.
- Por que não conseguimos conversar como duas pessoas normais?
- Devíamos conversar?
- Por que não deveríamos? Podemos falar sem que você fique tão armada comigo?
- Não estou armada, pá. Não me apetece. É tão simples quanto isto.
- Está armada sim.
- Olha lá, eu vim aqui espairecer. Não vim conversar. Não vejo por que.
- Porque gosto de você. Nem eu entendo, mas você me atrai. Atrai demais e não poder aproximar é muito ruim.
- Estás a procura de uma mulher para te satisfazer e acha que me prestarei a isso?
- Não é nada disto. Não quero só ficar com você...
- Ficar? Isso é coisa do teu país. Ficar? Tem muita piada em ficar. Não vais ficar comigo. Guarda isso na tua cabeça!
- Está vendo? Você não abre a guarda. É uma mulher muito difícil.
- Cuidadinho com o que falas. Não sou obrigada a ouvir desaforos teus.
- Mesmo não entendendo sua reação ainda sinto aqueles tapas.
- Não sejas parva. Com licença!
Ana Sofia respondeu saindo na hora. Chegou a mesa sentando-se na cadeira. Manuela viu a Bruna deixando o banheiro e voltou-se para ela perguntando.
- Então? Estás assim irritada por causa da brasileira?
- Achas? Por acaso foi algo que me incomodou.
- Diz lá.
- Dei-lhe duas cacetadas hoje.
- Valha-me Deus! O que aconteceu?
- Chamou-me de cabra! Provocou, levou! Depois ficou com uma cara de quem não entendeu nada. Disse novamente na casa de banho que não entendeu porque os ganhou.
- Espera lá. Ela não é brasileira?
Tereza perguntou confusa.
- De certeza que é.
- Achas que ela sabe o que significa a palavra cabra aqui em Portugal?
- Se não soubesse não teria me chamado. Não te parece óbvio, Tereza?
- Pois, isto é que eu não sei Ana Sofia. No Brasil cabra é só a fêmea do bode. Já aqui...
- É verdade.
Manuela concordou observando a expressão confusa de Ana Sofia nesse momento.
- Então ela é uma distraída que usa uma palavra sem saber o significado?
- Não dás outra hipótese. Bateste injustamente. Estás a perceber?
- Se calhar foi.
Ana Sofia respondeu balançando os ombros.
- Pois, se falou sem saber, as cacetadas ficam pelos despedimentos. Não me arrependo e pronto. Ela pensa o quê? Que sou parva? Agora sabe muito bem do que sou capaz.
Ana Sofia desabafou olhando o tempo todo para Bruna. Ela estava no mesmo lugar olhando-a da mesma forma. A mulher que tinha se aproximado estava diante dela falando alguma coisa. Porém, a Bruna não lhe dava atenção. Ana Sofia sorriu nesse momento da cena. A mulher estava fazendo um papel de tonta naquele momento. Bruna estava literalmente babando olhando na sua direção.
- Pronto, tem coisas que não mudam.
Ana Sofia comentou olhando para as amigas.
- Do que estás a falar?
- É assim, quando se pega um peixe no anzol ele fica preso, certo?
- Pois, como é lógico! Não estou a perceber.
- Então, é só isso. Vamos à casa de fados amanhã. A minha mãe anda com uma dor no braço e acho que vou levá-la. Assim vou despreocupada. Se ela quiser ir como é lógico!
- Deves levá-la afinal ela adora fados.
Tereza respondeu observando a Ana Sofia.
- Tu estás interessada na brasileira? Não tiras os olhos dela.
- O que sei é que ela é uma melga com aquelas tretas lá na fábrica.
- Uma melga que anda a chamar demasiadamente a tua atenção.
- Achas? E qual é o problema? Não estou morta, pois não? Não andam todos por ai namoriscando uns com os outros? Sei perfeitamente o que a brasileira quer. Cá dentro de mim sei que não deve existir nada melhor do que apreciar o amor. Essa brasileira deixa-me com muita vontade de comer um bolo de mel. Que é para ter assim um gostinho de orgasmo na boca.
- Ficastes logo com outra cara falando assim. Pá vá lá, há quanto tempo não dá uns beijos?
- Foi quando namorisquei com a Valeria.
- Lembro-me bem e porque terminaram?
Tereza perguntou.
         - Ela teve assim uma pequenina coisa que não achei piada. Quis conhecer a minha ostrinha muito cedo. Sabes assim, pá aí três dias e tais. E eu fiquei sabendo, porque basta engatar um namorico que se põem todas a falar por todos os poros, que ela é, ah, já perceberam?
- Não percebi! É o que?
Manuela perguntou curiosa.
- Ora, não vamos falar mal que é feio. O nosso relacionamento foi deitado ao lixo quando... É que... Ela tem um pormenor bem comum hoje em dia, corta dos dois lados. É assim um giletinho bem afiado, e filha, não dá para mim!
- Giletinho? Hahahahahaha...
Manuela dobrou-se de tanto rir do giletinho. 
- Pá, é lá coisa dela. Longe de mim é que é. Sabes, é complicado namoriscar assim com essas correrias. Não sabem nem a delícia de ficar de mãos dadas. A mão vai logo agarrando nas partes íntimas, pois, não dá nada de jeito. Coitadinha, eu não estava a me ver nestas cenas. Vá lá, é que sem fogo a roda travou. Além do que, apanhar o resto de macho não me apetece. Se gostasse não seria lésbica.
- És uma romântica, isso é que é. Vai ser difícil, hein?
- Pois sou. É uma chatice estar com uma mulher sem querer devorá-la. Para mais é assim, o meu bom senso vive ligado no máximo. Se a mulher não me deixa em brasas, não consigo namoriscar. Se calhar, nem beijos sabem bem. É assim.
- Uiiii...
- Não achas?
Ana Sofia perguntou olhando na direção de Bruna. Como se o seu desejo estivesse para se realizar, ela caminhava na direção da sua mesa naquele instante.
Bruna aproximou sorrindo para todas elas.
- Boa noite! Posso beber uma bebida com vocês?
- Boa noite! Está bem, pronto.
Tereza respondeu olhando para Ana Sofia.
- Não olhes para mim.
Ana Sofia falou olhando para a Bruna enquanto ela se sentava ao seu lado. Os seus olhos mergulharam naqueles lindos olhos azuis. Que olhos! Pensou aproveitando para admirá-los por alguns segundos. Imaginou-se acordando ao lado dela. Estaria encostada na janela olhando a imensidão do mar. As cortinas da janela esvoaçando enquanto na cama próxima da janela, a Bruna estaria despertando, abrindo aqueles olhos lindíssimos. Não saberia dizer qual era o mais belo, o mar ou os olhos dela. Enquanto Ana Sofia fantasiava aquela cena, a Bruna encostou a perna na dela. Roçou a perna contra a dela um segundo depois. Ana Sofia deu uma olhada para a perna junto da sua achando-a atrevida por demais. Este atrevimento deu-lhe uma ideia. Acenou em seguida para a mulher que atendia as mesas.
A mulher aproximou se da mesa e a Ana Sofia pediu-lhe:
- Traga uma garrafa de poncha e quatro copos, faz favor!
Bruna olhou para Ana Sofia perguntando.
- Poncha? Não conheço.
- Boa. Precisas conhecer. É a minha bebida preferida! É típica da Ilha da Madeira. O dono deste sítio é madeirense e não deixa faltar o stock. Não faz sentido estar aqui em Portugal e não conhecer as bebidas especiais que temos por cá.
- Será? Estou bebendo vinho. Não sei se faz bem misturar.
- Ouve lá, é tão bom. Vocês não concordam?
A Tereza e a Manuela sorriram concordando sem falar. A Tereza olhou à volta e a Manuela fez se de desentendida. Ana Sofia observou que elas perceberam o que estava decida a fazer.
- Está bem. Se você está dizendo. Vocês duas são namoradas?
Bruna perguntou olhando para as duas.
Ana Sofia percebeu na hora que ela estava apenas sondando para saber se uma das duas tinha algum envolvimento com ela. Achou estranho porque a pergunta era pessoal e a Bruna nem as conhecia para tanto. Certamente no Brasil as pessoas faziam perguntas pessoais a pessoas estranhas mesmo sem ter intimidade com elas.
- Somos sim.
Tereza respondeu olhando em seguida para Ana Sofia.
- Pronto! Cá está a nossa poncha. Vais ver o que é uma bebida de verdade.
Ana Sofia comentou pegando na garrafa que a empregada colocou sobre a mesa com os copos.
- Não sou muito de beber. Bebo socialmente.
Bruna explicou sorrindo para Ana Sofia.
- É mesmo? Por cá todas nós bebemos socialmente, pronto, não era pra menos, se calhar, temos que parar para trabalhar.
Explicou sorrindo da cara admirada que Bruna fez.
- Ah, não sabia!
- Boa. Podes beber. É como um sumo. Não tem mal nenhum.
Bruna provou a poncha achando-a saborosa. Roçou novamente a perna na de Ana Sofia como se não fizesse nada. Ana Sofia desceu a mão afastando a perna dela. Olhou-a nos olhos em seguida avisando.
- Cuidadinho com a tua perna. Não queres ganhar outra cacetada, pois não?
Bruna não soube o que responder, já que as duas amigas de Ana Sofia escutaram e olhavam para ela nesse instante.
- Estou gostando muito de Portugal. Não conheci muitos lugares aqui em Lisboa. Graça não teve muito tempo para levar-me por ai ainda.
- Graça?
Ana Sofia perguntou olhando-a com atenção.
- É! Minha amiga que está aqui comigo. Estou hospedada na casa dela. Amanhã vou ver outra casa para alugar. Não gostei das quatro primeiras que vi.
- Acredito. Existem casas ótimas para arrendar. Estás por cá há pouco tempo, mas já comeste uma cabra?
- Cabra?
Bruna perguntou pensando rapidamente tentando recordar se tinha comido cabra. Cabra parecia-lhe um prato tão incomum. Não era como o carneiro ou outras carnes as quais estava acostumada.
- Não, que eu saiba não comi cabra. Tenho almoçado no restaurante próximo a fábrica. Naquele que almoçamos. À noite Graça faz o jantar e tem feito pratos deliciosos. Fez bacalhau à Brás, achei divino. Arroz de pato, bacalhau com natas, cozido à Portuguesa, salada de camarão, açorda de mariscos, caldo verde, alheira de Mi... Mi alguma coisa. Conhecem?
- Mirandela. Boa! Tens comido de jeito. Pronto!
Ana Sofia comentou completamente séria.
- Bacalhau no forno. Como vocês comem bacalhau aqui! É muito saboroso. Ah, adorei tarte de pastel de nata. Só pela comida não consigo pensar em ir embora de Portugal.
Ana Sofia olhou para Tereza dando um sorriso.
- Pois então não comeste mesmo uma cabra. Assim é que é. Boa menina!
- Por quê? Este prato de cabra é tão saboroso assim?
As três caíram na gargalhada deixando Bruna completamente confusa quanto ao que elas estavam achando tanta graça.
- Por que estão rindo tanto? Falei alguma bobagem?
- Não, não! São parvalhices. Não ligues.
Tereza respondeu depressa.
- As brasileiras são mesmo uma graça. Têm um jeito especial. Pronto, estás a ver? Temos cá em Portugal imensas delícias culinárias. Tens mesmo que apreciá-las.
Ana Sofia comentou ainda sorrindo enquanto servia mais poncha para Bruna animada.
- Vá, bebe! Não estás apreciando, pá? Toma lá!
- Sim, claro! Está gostoso! Isto não sobe rápido para a cabeça? Não quero ficar bêbada. Passo muito mal no dia seguinte. O álcool demora muitas horas para sair do organismo.
- Achas? Não, não, não! Não sejas dramática! Isto não é nada. Olha Bruna? Estás a apreciar também as nossas músicas? Temos cá lindas canções. Já foste a uma casa de fados? Deverias ir.
Bruna sorriu, pois era a primeira vez que Ana Sofia pronunciava seu nome. Adorou ouvi-lo dito por ela.
- Não fui ainda, faz poucos dias que estou aqui.
- Então e em tão poucos dias tantos estragos já fizestes. Não há nada a fazer.
- Bem, quanto às canções ouvi algumas. Gostei bastante.
- Ah, pois! Também não estamos cá de olhos fechados. As músicas brasileiras sabem bem, como não? Tens variadíssimos talentos. Estás a ver o que conseguistes? Estamos cá conversando como velhas amigas. Bebamos a isto!
Seguido de uma agradável conversa beberam por mais de duas horas. Tempo em que Bruna encantada por estar se dando tão bem com Ana Sofia nem percebeu que mais uma garrafa chegou até a mesa. Também não se deu conta que elas bebiam bem menos do que ela. Quando se deu conta estava completamente embriagada.
- Desculpe, não quero mais... Bebida. Já bebi o suficiente... Acho que preciso ir... Embora...
Bruna falou vendo três de Ana Sofia diante dela enquanto tentava ficar em pé.
- Calma! Não vamos a lado nenhum.
Ana Sofia respondeu segurando o braço dela para que ela não caísse.
Neste momento a Graça viu a cena de onde estava distraída conversando com uma mulher e aproximou se rapidamente olhando para as três admirada.
- O que se passa aqui? Ela está completamente embriagada!
- Achas? Coitadinha.
Ana Sofia respondeu fazendo cara de inocente.
- Não sejas tonta! Sabes que está e fizeste de propósito!
- Estás parva ou o quê? Lá tenho culpa se ela foi uma coisita descuidada?
- Pois foi e sei perfeitamente que coisita a fez descuidar-se. Ela está totalmente descompensada.
- Está bem, pronto. Mas se calhar não é assim para tanto.
Ana Sofia comentou percebendo que a Bruna estava mesmo ruim. Isso a fez sentir-se mal. Mas não era de demonstrar as suas emoções, por isso aguentou firme apenas olhando para a Bruna penalizada.
- Era melhor nem falar mais. Não vale mesmo a pena. Só gostava de saber o que ganhastes com isto?
- Desculpa lá, isto já passa.
- Bruna? Querida? Abre os olhos...
Graça chamou vendo Bruna apagando na cadeira.
- Podem ao menos ajudar-me a levá-la ao carro? Isto está que é uma desgraça! Como puderam?
- Vamos ajudar.
Tereza interviu levantando-se com a Manuela. As duas ajudaram a levar a Bruna para o carro. A Ana Sofia ficou olhando a cena com uma expressão indecifrável no rosto.
Assim que colocaram a Bruna dentro do carro, a Tereza falou para a Graça.
- Vá lá, pronto. Esquece Isto. A Ana Sofia ficou chateada com os despedimentos. Não pensou no que estava a fazer. Foi uma tontice.
- Que remédio? Muito obrigada pela vossa ajuda. Preciso ir.
Graça agradeceu olhando fixamente nos olhos de Tereza.
- Fostes muito gentil. Adeus!
- Adeus!
Tereza respondeu voltando com a Manuela para o bar. Assim que se sentaram, a Tereza ia falar, mas a Ana Sofia a cortou falando primeiro.
- Não é necessário que fales, já percebi. Não imaginei que ela ficaria desarmada a tal ponto.
- Por tua causa, Ana Sofia! Não falei nada, mas não aprovei nadinha!
- Bebeste junto, então não venhas agora! Tem graça! Foi assim só um deslize meu.
- Um deslize? Achas? Tenho pena que...
- Foste uma Maria vai com as outras, Tereza! Também tu, Manuela! Admito que fui parva. Agora já não se pode mudar nada. Fui eu que armei, deixem que eu assumo, caso haja consequências. Fazem o favor, de não me voltarem a criticar. Só tenho pena de...
- De quê?
- De não ter imaginado que ela apagaria.
- É agora que dizes isso? Já estás armada em arrependimentos? Pois, sabia pá!
Manuela comentou assustada.
- Temos aqui uma situação. Foram duas garrafas. Isto era para tombar a brasileira.
- Que seca!
- Vá lá, esquece isso. Só não faças mais.
Tereza respondeu sorrindo para a Ana Sofia.
- Vamos tratar de ir embora que é o que fazemos melhor. Eu peço desculpas a vocês.
Ana Sofia respondeu tirando o dinheiro para pagar a conta. Depois saiu com as duas do bar.

Ana Sofia entrou em casa vendo a mãe sentada diante da televisão.
- Filha?
- Boa noite, mãe!
- Por onde andaste?
- Estava bebendo uns copos com a Tereza e a Manuela.
- Olha que bem, divertiste-te? Então, como correu?
- Correu bem. Ficamos lá a conversar, a Senhora sabe como é. O ambiente de sempre.
- Então, como sei.
- Pensei que estaria adormecida há estas horas. Quer ir para a vossa cama?
- Pois quero, gostava antes de falar contigo um cadinho, com muita pena minha.
- Está bem. Sou toda ouvidos.
- Estou preocupada com essa gravidez da tua irmã. Gostava que isso não acontecesse convosco.
- Não me digas isso mãe.
- Então não digo? Pois digo! Sei que és cuidadosa. Desde sempre te vejo comprando os tais preservativos. Bem pensei que isto não aconteceria já que os dás também à tua irmã.  Deu no que deu. A Catarina está carregando um filho. Tenho pena sendo tão nova.
- Também eu, mãe.
- Mas é assim, não me faças uma coisa destas. Não te percas. Seria bom que usasse os tais preservativos com mais cuidadinho. Não me deixe entre o Carmo e a Trindade.
- Pois é claro que não deixarei, mãe.
- Uma mulher com juizinho na cabeça é que é. Ande com os olhos nos tais preservativos. Quem carrega o peso de um filho é sempre a mulher. Não quero vos ver a chorar por uma parvalhice impensada. A tua irmã perdeu-se. Não estou nada confortável como deves imaginar. Não demora muito e toda a gente estará deitando o nome dela abaixo.
- Pois, imagino. Não fique assim. Hoje em dia essas histórias de gravidez não são lá tamanha novidade.
- Não são o quê filha? Toda gente malda e criticam até perderem as contas. Perguntam logo: Quem é o pai? Seria bom tu não ficares. Achas mesmo que eu consigo aceitar sem protestos? Uma bomba assim? Como isto é possível? Falei tanto com vocês, que os homens são uns aproveitadores e, no entanto, estamos aqui a viver esta vergonha.
- Isto já não tem mais remédio, mãe.
- Remédio tenho eu em fazer-me de calma. Eu não sei o que a Catarina está a pensar da vida.
- Pois, nem eu.
- Basta! Vou me deitar que isto já não muda. Só não faças como a tua irmã.
- Não farei. Acredite mãe.
- Filha? Tu não tens um namorado ou tens?
A Ana Sofia levou um grande susto lembrando-se na hora do beijo que a Bruna tinha lhe roubado.
- Ficastes vermelha filha? Não percebi.
- Eu? Vermelha? Só pode ser do calor. Claro que não tenho ninguém.
- Ainda bem por hora, assim não ficarás a morrer de saudades, quando formos de viagem para a Madeira. Agora vou me recolher. Dorme bem, filha. Boa noite!
Despediu-se beijando a Ana Sofia com carinho no rosto.
- Boa noite para a senhora também. Durma com os anjinhos.
A Ana Sofia foi para o quarto pensando naquela conversa. Aqueles preservativos que comprava eram todos para a Catarina. Mas pelos vistos a mãe pensava que ela também os usava. Que remédio? Pensou em conta-lhe na hora que não gostava de homens, mas como? Aquele seria o pior momento. Logo depois da notícia da gravidez da Catarina? Só se fosse para matar a mãe. Ainda para mais, a mãe estava sempre reclamando da cena das duas lésbicas na telenovela. Teria que contar algum dia. Isto teria de facto.
                                         Continua...