sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Uma Mulher Misteriosa. - Capítulo 5.


Quando Carmem entrou em casa a mãe estava à sua espera. Não negava que vinha evitando ter aquela conversa com ela. Sabia o quanto devia estar curiosa. Ela não era a única, afinal, todos tinham curiosidade quanto a Marcela.
Parou fitando-a com um sorriso.
        - Mãe? Boa noite! Ainda está acordada?
        - Boa noite! Estou sim, estava a sua espera. Não acha que temos que ter uma conversa? Encontrou-se com aquela mulher e não vai me contar como foi?
        - Prefiro não falar sobre este assunto, mãe. Até amanhã!
Respondeu subindo rapidamente para o quarto fechando a porta. A mãe apareceu em seguida entrando sem bater.
        - Estou morta de cansada. Só quero descansar.
        - Imagino que deve estar mesmo cansada depois de alimentar o desejo torpe daquela mulher. Estava transando com ela não estava?
Carmem despiu-se sem olhar para a mãe. Depois sentou na cama pensando no que iria falar. A mãe sentou ao seu lado procurando os seus olhos.
        - Não vai me contar como ela é?
        - É só mais uma mulher.
        - Não tente me enganar, e as coisas que dizem dela? Tem mesmo cicatrizes?
        - São bobagens, não tem nada.
Carmem respondeu sorrindo sem querer sorrir. O que falavam sobre Marcela era tão absurdo e inconcebível que mal podia acreditar na capacidade que as pessoas tinham para inventar infâmias sobre quem não conheciam.
        - Tem certeza disto?
        - Tenho.
        - O que ela fez com você? Vocês transaram? Como foi para você?
        - Por favor, mãe!
        - Carmem? Eu sou a sua mãe, não me esconda nada. Fez sexo com ela não fez?
        - Ah, mãe, só me faltava essa.
        - Só faltava nada! Fez ou não fez?
        - Claro que fiz! Sou amante dela, já se esqueceu? É para isto que ela me chama, para transar! Não me sinto confortável falando sobre este assunto com a senhora. Agora me deixe dormir, por favor. Boa noite!
        - Mas...
        - Não estou vivendo uma história de amor. Colabore poupando-me de perguntas íntimas.
        - Está bem. Boa noite, filha!
A mãe saiu sem ouvi-la respirando resignada. Não queria falar sobre Marcela. Ainda mais, o que poderia contar? Que não conhecia seu rosto? Que se encontravam no escuro? Como explicar que estava participando de algo surreal? Contar que transar com ela era bom? Que tinha orgasmos, orgasmos que estava adorando? A mãe não entenderia. Dificilmente alguém entenderia. Estava vivendo uma loucura sem explicação.
Tomou um banho jogando-se na cama esgotada. Começou a lembrar dos momentos vividos com Marcela. Não podia negar que a cada vez que a encontrava se sentia mais vibrante. O corpo dela devia ser bonito, não o via, mas sentia. Que importância teria se era feia agora que sentia tamanha vontade de transar com ela? Engraçado conhecer um corpo só pelo toque. A pele dela era deliciosamente macia. Por que não a beijava? Estava sentindo falta de beijos. Que gosto teriam os lábios dela?
Suspirou rolando na cama. Por que estava pensando tanto nela? Não podia se envolver. Aquilo deveria ficar apenas no âmbito sexual. Será que Marcela iria exigir que fosse fiel a ela?

No dia seguinte desceu mais animada para o café da manhã. Sentou percebendo a expressão estranha do irmão. Olhou para ele confusa vendo-o abaixando a cabeça para a torrada com geleia que estava comendo.
        - Bom dia! O que aconteceu? Por que está com essa cara esquisita?
Carmem perguntou desconfiada.
        - Você vai se irritar quando souber.
        - Eu? Nem sei o que aconteceu, fale logo. Já estou me acostumando com as más notícias.
        - Eu bati o carro ontem.
Carmem abriu a boca chocada.
        - Você se machucou? Como foi que isto aconteceu?
        - Estava fazendo racha com os meus amigos e sabe como é, entrei mal numa curva.
Explicou sorrindo divertido.
Carmem virou mais café na xícara falando enquanto o olhava fixamente.
        - Dê graças a Deus por estar vivo! Não vejo onde está a graça! Você sabe que fazer racha é ilegal, não é?
        - Deixa de ser antiquada, Carmem! Todos os meus amigos fazem e acidentes acontecem a todo instante. Dá para contar nos dedos quem ainda não capotou.
        - E daí? O que você quer? Aplausos? Uma hora dessas poderíamos estar no seu funeral.
        - Mas não estão! Estou aqui são e salvo como pode ver. O problema foi o carro que acabou. Deu perda total, por isto mamãe me mandou falar com você.
        - Falar comigo por quê? Fui eu que capotei o carro? É isto que dá achar que é um piloto de Fórmula 1. Agora não posso fazer nada por você, muito menos pelo seu carro, coitadinho dele!
A mãe entrou neste momento. Beijou os dois sentando, servindo uma xícara de café.
A ficha de Carmem caiu neste instante. Encarou o irmão questionando admirada:
        - Você está achando que eu vou te dar outro carro?
Olhava para o irmão e para a mãe sem acreditar que era exatamente aquilo que esperavam dela.
        - Por que não? Carros acabam e você está cheia da grana! Qual que é?
O irmão respondeu num tom arrogante.
        - Quer outro carro para destruí-lo também? Qual que é digo eu!
Explodiu nervosa.
        - O que está pensando da vida? Se você acha que tem idade para dirigir deveria começar a trabalhar para comprar um carro novo! O tempo que ganhava tudo de mão beijada acabou!
        - Você não é meu pai nem manda na minha vida!
Ele rebateu empurrando a xícara irritando-se com Carmem.
Carmem explodiu soltando os bichos irritada pelo fato do irmão achar que comprar um carro era praticamente uma brincadeira. Ainda mais no caso dele que não tinha a menor responsabilidade.
        - Muito menos sou a sua mãe, seu desaforado! Papai está vegetando naquele hospital e as coisas mudaram. Eu nunca entendi como ele pode te dar um carro sabendo que você é menor de idade. Nós quase perdemos tudo que tínhamos. Faz ideia de quanto estávamos devendo? Quando cheguei aqui estávamos a um passo de perder a empresa e ainda estou tentando salvá-la. Vocês mal tinham o que comer nesta casa! Sou alguma idiota para você? Sou? Homem folgado para mim é o fim!
        - Qual é! Mãe, a senhora ouviu o que Carmem falou? Vai deixá-la mandar em mim agora?
A mãe olhou para ele colocando a xícara sobre o pires pacientemente.
        - Sua irmã tem razão. As coisas mudaram e você precisa entender que ela está tentando salvar a empresa e nos manter dignamente.
Dignamente? A palavra soou na cabeça de Carmem com estranheza. Lembrou na hora da boca de Marcela entre suas pernas enquanto gozava.
        - Mudaram droga nenhuma! Não vou ficar andando a pé se posso ter um carro novo! Ela tem dinheiro para comprar um...
        - Cale essa boca agora!
A mãe ordenou batendo na mesa perdendo a complacência.
        - Deixe a sua irmã tomar o café da manhã em paz! É a única que se mata de trabalhar nesta casa! Por que não procura ajudar para variar?
        - Foi a senhora que me mandou falar com ela.
        - Mandei sim, se ela falou que não tem carro, não tem carro! Agora me deixe a sós com sua irmã!
Pediu olhando para Carmem preocupada. Ela estava rodando a xícara no ar com o olhar distante. Nem viu o irmão saindo de cara fechada. Telma percebeu o quanto a filha estava distraída.
        - Isto está tirando a sua paz, não é Carmem?
O que tirava a sua paz não era a batida de carro do irmão, era Marcela. Sorriu balançando a cabeça meigamente.
        - Só um pouco. Só até me acostumar.
        - Pelo amor de Deus, nem pense em se acostumar com essa situação.
        - Realmente não penso.
        - Está sendo assim tão penoso?
Penoso? Estava sendo delicioso, pensou suspirando. Marcela não lhe saía da cabeça, pior, não parava de senti-la como se ainda tocasse seu corpo.
        - Não. Não é isso.
Carmem sorriu brincando com o dedo na borda da xícara. A sensualidade estava tão exaltada que se notava nos gestos. Há tempos que Carmem não se sentia tão à flor da pele.  
        - Então o que é? Ela está te forçando, é isso?
        - Claro que não!
Respondeu levando um choque com a pergunta.
        - Então você está gostando de se encontrar com ela?
        - Se ela fosse um homem estaria odiando.
Respondeu erguendo-se.
        - Filha? Você está gostando de fazer sexo com aquela mulher odiosa?
Telma perguntou incrédula enquanto Carmem não se dignava a responder.
        - Isto não é possível. Não se esqueça de que ela te obriga! Você não pode gostar desta situação, é inconcebível! Não suporto nem imaginar as mãos daquela mulher tocando o seu corpo.
Carmem olhou ao redor respirando profundamente.
        - Pois é mãe, é por isso que prefiro não conversar sobre isto com a senhora. Porque as mãos dela tocam no meu corpo mesmo. É uma realidade que a senhora não vai mudar nem eu, não por agora. Tenho que ir trabalhar. Ainda vou passar pelo hospital. Sobre o carro não vou comprar outro. Não posso esbanjar dinheiro. Quanto mais rápido juntar para pagar a dívida, melhor! Até mais!
Passou no hospital para ver o pai que não apresentou melhoras. Aquela rotina de ir ao hospital era a parte triste do seu dia. Depois seguiu para o trabalho resignada. Realmente a empresa estava se recuperando a olhos vistos. Naquela manhã quando saiu com o encarregado geral para uma vistoria, sentiu um grande bem-estar. Uma satisfação íntima que só ela podia experimentar por ver a vida que voltava a inundar aqueles galpões. Antes as máquinas estavam parando uma a uma. Andou com ele decidindo algumas mudanças e dando ordens a amanhã toda.
Quando subiu, recebeu os recados referentes aos telefonemas que recebeu enquanto esteve fora. Retornou a todos resolvendo habilidosamente.
Quando conseguiu respirar voltou a pensar em Marcela. Sabia que não devia ficar lembrando-se dela a toda hora. Tinha que ver outra mulher para tirá-la da cabeça. Pegou o telefone discando para Paula, um antigo flerte do passado que retornou para o Brasil fazendo logo contato com ela.
        - Paula? Recebi seu recado informando que está no Brasil. Quando regressou?
        - Ontem! Liguei na parte da manhã para você. Sua secretária foi muito gentil anotando meu recado. Que bom que me retornou. Como vão as coisas? Ainda está solteira?
        - Estou sim.
        - Ainda não encontrou a mulher que vai colocar uma aliança nestes teus dedos lindos?
        - Por acaso essa ideia nem passou pela minha cabeça.
Carmem respondeu confiante.
        - Quer jantar comigo esta noite?
        - É lógico. Você está no seu antigo apartamento?
        - Sim, morria de saudades deste meu cantinho.
        - Eu apareço lá pelas nove. Beijos!
        - Beijos, Carmem!
Desligou sorrindo intimamente. Por que não transar com Paula? Tinha sido uma boa companhia no passado. Trabalhava feito uma louca e podia muito bem encontrar uma velha amiga sem sentir mal estar com aquilo. Aquela pressão a deixava fora de si. O pai no hospital, a dívida exorbitante, as futilidades do irmão adolescente, as perguntas da mãe e Marcela que não conseguia ver, ainda assim não conseguia tirar da cabeça. E se saísse e cruzasse com ela sem saber quem era? Seria possível? Esperava que não. Será que Marcela era a mulher que viu no restaurante toda de preto?
Solange entrou com uma expressão séria naquele momento.
        - Está aí a empresaria que marcou uma reunião com você. Lembra-se?
        - Sim, como é mesmo o nome dela?
Carmem perguntou voltando à realidade.
        - Maria Dantas! Mando-a entrar?
        - Claro! Ah, mande trazer água e café. Obrigada!
Solange abriu a porta convidando a mulher. Carmem se ergueu para recebê-la. Surgiu ali uma mulher charmosa. Estava toda vestida de preto. Caminhou para Carmem apertando a mão dela sem sorrir.
        - Senhorita Santiago? É um prazer conhecê-la!
        - Digo o mesmo. Sente-se, por favor!
Carmem convidou apontando a cadeira sentando também. Seus olhos percorreram o decote ousado da blusa de botões. Os dois primeiros estavam abertos deixando entrever o colo bonito. Cruzou as pernas estendendo uma bota de bico fino maravilhosa, à sua frente. Carmem sorriu apontando para a bota.
        - Imagino que a sua bota seja italiana. 
        - É sim.
Maria concordou fitando a bota que calçava por um segundo.
        - São deliciosamente confortáveis.
        - Acredito. Bem, vejo que estamos na mesma área.
Carmem comentou voltando ao assunto de negócios.
        - Eletrônicos! Bom, muito bom!
Maria se manteve olhando-a atentamente. Imaginou que Carmem a estava avaliando. Os olhos dela percorriam seu rosto com muita atenção.
        - Você deveria fabricar computadores.
Maria recomendou muito tranquila.
        - Computadores, sim.
Carmem repetiu rodando uma caneta entre os dedos.
        - Eles são a janela para o futuro, Carmem.
        - Exato! O momento é ideal para a computação! Estou me dando conta desta realidade.
        - Estes aparelhos eletrônicos que continua fabricando sairão do mercado em breve. É preciso se antecipar aos concorrentes.
Maria explicou animada.
        - De fato tenho estudos aqui que indicam que a informática irá causar uma revolução no futuro.
        - Exatamente, por isso é preciso ter essa visão expandida. Tenho aqui o esboço de uma proposta que talvez seja do seu interesse.
Carmem pegou a pasta começando a ler zelosa. Quando terminou ergueu os olhos percebendo que Maria a observava atentamente.
        - É uma proposta muito interessante. Eu diria até, tentadora.
Comentou impressionada.
        - Posso modernizar sua empresa num piscar de olhos.
Maria declarou confiante.
        - Para isto me propõe uma sociedade.
        - Certamente! Faremos um contrato de seis meses. Caso você não goste dos resultados pego a minha equipe e vou-me embora. Se aceitar poderá vir a ser uma mulher rica, se é que quer ser rica.
        - Quem não quer?
Carmem perguntou sorrindo suavemente e acrescentando.
        - Meus problemas se agravaram justamente pela falta de dinheiro.
        - Nesse caso o que me diz?
        - Terei que pensar. Vou reunir minha equipe e sondar a viabilidade. As coisas andaram mofando por aqui. Ainda estou jogando o lixo fora.
Maria pegou uma cigarreira tirando um cigarro. Acendeu oferecendo a Carmem. Ela recusou sem deixar de observá-la.
Sorrindo charmosamente Maria olhou ao redor comentando:
        - Muito bem. Então deve mesmo ponderar. Gosto de lidar com gente sensata. O que acha de jantar comigo hoje?
Perguntou gentilmente. Era de fato um convite para consolidar aquela aliança e também porque a sua chefe lhe tinha pedido que o fizesse. 
Entretanto, Carmem sentia-se uma nova mulher. Sua sensualidade estava à flor da pele. Não fazia sequer a ideia do quanto seus olhos adquiriram um brilho novo. 
Jantar com aquela mulher charmosa? Não, Maria não lhe dizia nada e só pensava em Marcela. Lembrou-se de Paula sorrindo sensualmente imaginando que iria usá-la para parar de pensar em Marcela.
        - Adoraria, mas já tenho um compromisso hoje.
        - Ah, sim! Pensei que era uma mulher livre.
        - Sim. Quero dizer, ainda sou.
Respondeu agitando-se porque recordou de Marcela novamente. Seria mesmo livre? Perguntou-se mentalmente confusa.
        - São negócios inadiáveis.
        - Compreendo perfeitamente, Carmem. Sendo assim, ligarei para saber da sua resposta. Se aceitar só terá a ganhar. Passe bem e tenha uma boa noite!
        - Obrigada! Boa noite!
Assim que Maria saiu Solange entrou chamando-a para almoçar. Foi com ela andando como se pisasse em nuvens, porque estava contemplativa, estava mesmo distante em pensamentos.
Solange sorriu comentando quando chegaram à calçada.
        - Você está tão diferente de quando chegou. 
        - Diferente? Diferente como?
        - O seu jeito de andar, de olhar, de sorrir, está assim com um ar meio fatal.
Carmem sorriu levando a mão ao peito e ao fazer o gesto, Solange comprovou o quanto ela estava mesmo fascinante.
        - Não me faça rir, isso não se encaixa a mim. Eu com um ar fatal? Acho-me tão comum, sabe?
        - Ah, mas você não é comum de jeito nenhum. Pode ser que ver a empresa como estava e o seu pai no hospital tenha te deixado abalada. Isso pode ter ofuscado a sua luz por algum tempo, mas isto passou. Você agora é outra mulher. 
        - Realmente você me fez rir. Obrigada! Vamos logo, tenho muito que fazer ainda hoje.
        - Vamos, claro!
Voltaram quase às duas da tarde. Algum tempo após ter recomeçado a trabalhar, Solange comunicou que tinha uma chamada telefônica. Pegou o telefone naquele instante distraída, pois estava analisando um novo pedido de aparelhos eletrônicos.
        - Alô?
        - Como foi o seu almoço com a sua encantadora secretária?
Marcela perguntou direta.
Carmem arregalou os olhos indagando surpresa:
        - Você está me seguindo?
        - Não. Acha que eu deveria, digo, seguir você?
Questionou sorrindo de uma forma provocante.
        - Se não está me seguindo como é que ficou sabendo? Tem uma bola de cristal?
        - Apenas sei tudo que você faz. Tenho meus artifícios.
        - Isto é um absurdo! Quem você pensa que é?
        - Eu? Só consigo pensar que sou Marcela Alvarez!
        - Ainda assim sabe que não tem este direito!
        - Será? Tenho um ponto de vista diferente.
        - Se está pensando que eu vou fugir está muito enganada. Não sou uma covarde.
        - Já reparei que não é. Gosto da sua coragem, me excita.
Carmem não respondeu. O que poderia dizer? Alteraria alguma coisa quanto ao que viesse a exigir dela? Marcela a desconcertava facilmente quando falava daquele jeito.
        - Venha jantar comigo hoje.
Convidou num tom sedutor.
        - Estou louca para abrir as suas pernas. Penso em te chupar e quase tenho um orgasmo mental.
Carmem perdeu a fala por alguns segundos.
        - Desculpe... Tenho um...
        - Se você transar com outra mulher as coisas vão se complicar. Digamos que não vou querer mais te fazer gozar. Muito menos vou desejar colocar a minha boca onde a boca de outra esteve.
Avisou num tom afetuoso.
        - Não costumo ser ciumenta, Carmem. Confesso que a sua companhia me agrada muito. Posso sair com outra mulher. Você gostaria disto? Gostaria de me chupar sabendo que outra mulher o fez?
Carmem ignorou a pergunta respondendo novamente dona de si mesma.
        - Na verdade é uma amiga que chegou de Londres e quer me reencontrar.
Explicou mentindo sem se sentir culpada.
        - Uma amiga, claro, imagino mesmo que seja. Esqueceu-se de frisar que é uma ex.
        - Não pensei que fosse relevante, mas na verdade ela não é uma ex. Se fosse não seria da sua conta!
        - Não contou a ela da nossa amizade?
        - Contar? Não vejo por que, não tenho orgulho nenhum em contar uma coisa destas. Especialmente porque não somos amigas.
Respondeu sincera.
        - Você está certa, não somos amigas, muito menos somos inimigas, somos apenas amantes. Eu jamais contaria também. Espero você às nove! Estou ansiosa, muito mesmo. Você sabe, para abrir as suas pernas.
Marcela concluiu desligando.
Carmem sentiu a buceta encharcando engolindo em seco. A calcinha ficou toda molhada incomodando-a. Teria que começar a andar com calcinhas na bolsa como as mães andavam com fraldas para os bebês. Aquilo era apenas sexo, ah, mas era mesmo! Não existia nada além de uma entrega física, alucinada e envolvente entre elas. Marcela sabia como excitá-la e abusava naquele sentido. Era suposto que ficasse estudando cuidadosamente o que iria falar para deixá-la totalmente excitada.
Continua...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Eduarda Fernandes. - Capítulo 1.


Sinopse: 
Eduarda Fernandes é uma prostituta de luxo diferente de muitas. Poderosa e inteligente vive sozinha em busca de si mesma. Voltada para o seu conveniente mundo interior, recebe a proposta de tirar algumas fotos nua para uma mulher. Embora considere a proposta uma ofensa, a mesma acaba transformando a sua vida. Por mais que não queira, Eduarda quebra as suas próprias regras envolvendo-se com essa mulher. Porém, continua em busca de si mesma e do amor.

                                              Parte 1.

Tudo parecia rodar à sua volta, sentia o cheiro dos diversos perfumes que se confundiam na atmosfera. Parecia uma guerra de fragrâncias com aromas de todos os tipos e de todas as partes do mundo. O olfato era uma coisa maravilhosa, sentia também além do perfume no ar, todos os olhares que vagavam por seu corpo. Olhos em sua maioria de cobiça. Do local onde estava podia se ver refletida em um imenso espelho que ocupava parte de uma parede. Observava a si mesma dos pés à cabeça. O vestido caríssimo, comprado na véspera moldava-lhe o corpo escultural. Branco! Sumariamente branco para destacar o tom moreno de sua pele. Um colar de pérolas no pescoço, na orelha brincos também de pérolas, nos dedos três anéis de ouro, no pulso um relógio delicado, também de ouro, nos pés um sapato de salto alto do tom do vestido, no rosto bonito uma maquiagem impecável.
Observando-se atentamente, um sorriso surgiu em seus lábios. Estava estupenda, nada destoava ou estava fora do padrão que necessitava expor aos olhos dos cobiçosos. Parou naquele lugar estratégico, justamente para ser vista por todas aquelas pessoas. Reconhecia sua beleza com uma satisfação desmedida. Poucas pessoas sabiam ser belas e conviver tão bem com sua beleza. Eduarda sabia! Não necessitava de elogios, não para perceber o que já sabia. No entanto, os elogios faziam parte do seu dia a dia. Estava tão acostumada a eles que sentia falta quando não recebia nenhum. Sua resposta a eles era um sorriso límpido, um sorriso que derretia os corações.
O seu um metro e oitenta realçava sua beleza, pois possuía pernas longas, como os braços. Os lábios eram carnudos, o nariz pequeno e fino, os olhos negros, as orelhas delicadas e o rosto angelical.
Eduarda voltou a sorrir. Podia perceber que certos homens se aproximavam cada vez mais de onde estava. Entretanto, os dois homens que desejava ainda não tinham aparecido.
Pegou a piteira, colocando nela um cigarro. Uma piteira de ouro, com um isqueiro também de ouro. Os dois itens brilhavam intensamente com o reflexo da luz.
Seus olhos se iluminaram ao ver o homem que lhe interessava entrando no salão. Calculou quantos minutos demoraria até que ele a notasse. Era um homem rico, de poses que não podia deixar escapar. Imaginou trinta minutos, no entanto, ele a viu dez minutos após a sua chegada. Quando seus olhos caíram sobre ela, deu-lhe em troca o melhor de seus sorrisos. Bastou para que viesse ao seu encontro. Aquele era seu.
Todos os homens eram assim escolhidos por Eduarda. Não admitia ser escolhida. Conhecia todos os homens importantes da cidade. Acompanhava a vida deles através das colunas sociais. Praticamente os estudava através do mundo financeiro. Todas as suas caças eram impreterivelmente milionários. Aqueles homens imploravam por ela. Seriam capazes de perecer para ter uma noite que fosse com Eduarda Fernandes. Ela o sabia. A cada dia sua fama era maior e seu nome mais comentado entre os milionários cariocas e paulistas.
Cansada após uma noite dura de trabalho, Eduarda entrou em casa às sete da manhã. Dedicou-se primeiramente a um banho de espuma. Em seguida, vestiu um robe seguindo para a cozinha. Preparou uma vitamina de frutas, e fez uma salada de legumes, a qual comeu com imenso prazer. Depois foi para a sala ligando a televisão. Relaxou no sofá entre as almofadas, suspirando cansada. Seus olhos vagaram pela mesa, onde havia uma pilha de convites e propostas dos seus pretendentes. Havia convites de homens que já tinham tido a honra de gozar da sua companhia e também, outros convites de homens que ansiavam por serem escolhidos. Estendeu o corpo pegando o monte de convites. O primeiro que rasgou foi do seu acompanhante da noite passada, dificilmente repetia um encontro em tão pouco tempo que antecedia o último. Era uma tática para nunca ser esquecida. Por sinal uma tática que dava grandes lucros. Continuou passando os convites, rasgando uns, que eram mais cartas de amor. Outros convites ela separou e por fim, pegou o último, que por sinal já havia sido lido, voltando a ler com mais atenção.
“Estou disposta a pagar qualquer preço para ter umas fotos suas. Informo que nestas fotos deve estar completamente nua. Segue meu cartão pessoal. Aguardo um contato”.
Guardou o cartão dentro do envelope jogando-o sobre a mesa. Ficou olhando para o envelope tentando conter a irritação. Mulheres não faziam parte da sua lista de pretendentes. Podia ter descido muito em sua vida, mas mulheres não! Vendia seu corpo sem o menor pudor. Sua regra eram dois encontros por semana, nas terças e quintas. Disto somente ela sabia. Nos outros dias aproveitava para ir ao teatro, a ópera, ao cinema, a exposições de artes como pintura, escultura e também desfiles de moda. Toda a manhã lia os jornais de maior circulação no país. Algumas coisas ela fazia por prazer, e outras, para estar por dentro dos acontecimentos. Quando estava com algum homem, ele se orgulhava de ter uma acompanhante tão culta. Sabia de variados assuntos, pois tinha horror a ser taxada de burra. Sua vida era uma constante preparação. Para chegar aonde chegou teve que lutar muito, de uma simples prostituta de calçadão, chegou a uma mulher de classe. Não mais esperava por clientes, era caçada por eles, contudo, a escolha era decisão exclusiva dela. Aquele convite de mulher entre os outros a humilhou profundamente, principalmente sendo para fotografar nua. Era um ultraje. A única coisa que não tinha feito ainda era aquilo, ter uma relação de qualquer espécie com outra mulher. As mulheres não eram suas amigas, todas sentiam inveja de sua beleza. Perdeu a mãe com quinze anos, então foi para rua vender o corpo. Viveu numa pensão por quatro longos anos, um pardieiro nojento do qual não suportava lembrar. Quando saiu de lá foi para uma casa própria que comprou com seu dinheiro. Juntou tudo que pode, o restante conseguiu com os dois primeiros milionários com que esteve. Aprendeu que não era fácil se olhar no espelho após uma noite de sexo. Aquelas noites deixavam marcas em seu rosto, marcas que só ela via, marcas profundas de indignação. Na verdade, estas marcas não estavam na pele, Eduarda as via na alma, podia ver sua alma aberta como uma ferida. A solidão causava aquela ferida e a entrega sem sentido e a doação de si para pessoas estranhas a devastava. Pessoas que não lhe tinham afeto, pessoas que necessitavam pagar por ela. Homens que perdiam o juízo sonhando com seu corpo, o corpo que ela cuidava e apreciava. Seu corpo que era seu trabalho, sua fonte de comércio. Sentia-se muito mal algumas vezes. Sentia muito nojo de si mesma. Tinha que superar aquele sentimento de repulsa sempre que se sentia assim. Aceitava o fato de ser uma prostituta, mas não era capaz de deter o incomodo que costuma sentir.
Ninguém frequentava a sua casa, ali só entrava o empregado. Era uma espécie de faz de tudo que cozinhava, limpava, fazia compras, cuidava dos depósitos bancários e dos pagamentos das contas. Era um rapaz de vinte e cinco anos. Escolheu um homem, justamente porque não confiava nas mulheres. Carlos se tornou indispensável na vida de Eduarda, recebia um ordenado considerável. Eduarda exigia respeito e discrição. Deu a ele um quarto na casa, uma espécie de apartamento que ficava nos fundos. Era também seu motorista particular. Não gostava de dirigir, por isto o seu confortável Mercedes, presente de um amante, não lhe despertava interesse. Se não o tivesse ganhado, teria comprado um, no entanto, os pretendentes lhe adivinhavam os desejos. Quando pensava em comprar já ganhava de presente.
De alguma forma, sua vida era boa. Não era feliz, isto não, faltava amor, exclusivamente, mas o amor não podia existir para ela. Amor dava trabalho. Haveria cobranças, ciúmes, brigas e tantas outras coisas que preferia viver só. Não podia se envolver.
Eduarda tinha vinte anos e era amarga em se tratando de sentimentos. Uma mulher só, triste e exuberante. De sua tristeza, talvez só o empregado tivesse conhecimento. Se o sabia era por conviver diariamente com ela. Não se mostrava, vivia presa numa casca como os caracóis porque não podia se deixar atingir nem se mostrar frágil. Tinha que ser forte e dura e com isto, acabou por se tornar fria. Isso se refletia até mesmo no lado sexual, não fazia sexo por prazer, fazia para sobreviver. Conseguia se transformar quanto estava com um cliente. Tinha o poder de enlouquecer qualquer homem. Fazia qualquer coisa na cama, só não admitia sexo com mais de um parceiro. Preferia não perder o controle das coisas. Também não aceitava drogas regularmente. Somente em situações muito especiais. Dependendo do valor em dinheiro que iria lucrar concordava em usar droga com seu acompanhante, mas poucos lhe pediam isso, porque com droga no meio, Eduarda cobrava em dobro, porque dava muito valor a sua saúde. Comia somente vegetais, carne branca e frutas. Sua alimentação era toda natural, às vezes, preferia até evitar a carne branca. Tudo que sangrava lhe dava aversão. Tomava vitaminas recomendadas por seu médico particular. Ia uma vez por mês ao ginecologista. De três em três meses procurava seu dentista. Tinha uma agenda cheia de anotações, pois costumava se esquecer da data certa em que esteve com um cliente que precisava deixar à sua espera. Quanto mais os homens esperavam, mais dispostos a enfiar a mão no bolso ficavam. Os homens adoravam dar presentes. Gostavam de gastar dinheiro com amantes e mulheres que desejavam, mas não gostavam de gastar com as esposas em casa. Tiravam da companheira para dar a estranhas. Eduarda reconhecia o absurdo daquela situação, mas era a realidade da vida. Tinha seus conceitos e nunca tentava mudar ninguém. Seguia sua cabeça. Dormia em média nove horas por noite. Sentia-se indisposta quando dormia menos que isto. O sono era um fator importante em sua rotina.
Quando pensava nas coisas que gostava, sabia que uma delas era os prazeres da vida. Gostava de se divertir, ir ao teatro e mais tarde ir jantar sozinha. Adorava aqueles momentos, porque ficava só consigo mesma. Pensava na sua vida, era quando se colocava numa balança, estava sempre em busca de equilíbrio. Sabia que só ela era capaz de encontrar o balanceamento que necessitava. Não podia contar com mais ninguém no mundo, não tinha amigos, se tivesse um amigo ele teria que ser como uma continuação dela própria, teria que completá-la e salvá-la, seria um amigo. Um amigo! As pessoas usavam aquela palavra, enchiam a boca para glorificar os amigos. O que era um amigo afinal? Seria a mãe? Seria o pai ou um irmão? Pensava na ligação de sangue quando pensava em amizade. Nunca teve um amigo e não acreditava que alguém no mundo tivesse um.
Sentia-se feliz vivendo sempre só desde que deixasse a angústia de lado. A angústia que por certo alguns imaginavam que veriam em seus olhos. Por que tinha que mostrar para alguém? Que importância teria para qualquer pessoa sua dor, sua agonia? Quem salvaria sua alma perdida? Talvez o Deus do mundo, apesar disso, não tinha crenças, nenhum credo merecia seu respeito. Por que as pessoas necessitavam crer numa força maior? Não ansiava por nenhuma força. Toda força que buscava era dentro de si. Por isso valorizava os momentos em que se perdia mergulhada em si mesma, às vezes, ocorria-lhe que era a coisa mais especial que tinha. O capacidade de crer que perdida em si, poderia encontrar tudo o que necessitava para viver. Suas viagens interiores eram ricas, vitais, profundas, todas as respostas tinham que estar ali.
Supunha que tudo começará ainda na sua infância. Seu pai mal parava em casa, ficava só com a mãe, ele estava sempre em viagens de negócios. A mãe vivia desculpando sua ausência, entretanto, sentia o desligamento dele. Quando estava em casa afundava-se numa poltrona. Seu mundo era uma cerveja e a televisão. Seria por isso que odiava futebol? Por que todo homem ignora sua família por um jogo qualquer? Por que ignoram o pedido de socorro da esposa carente? Por que ignoram o choro do filho pequeno? Por que ignoram a casa, se está limpa, se está suja? Não sabem de nada, nem olham para nada, apenas retornam pensando numa fuga, uma maneira de fugir da mulher em seu egoísmo. Acreditava que seu pai era este tipo de homem. Ele nunca ligou nem para ela e muito menos para a mãe. Então quando fez dez anos e ele se foi, deixou-a com um beijo, ficou da janela ouvindo o choro desesperado da mãe. Cinco anos depois sua mãe morreu e seu pai foi ao enterro. Depois disto a levou para uma pensão. Pagou dois meses adiantados, deu-lhe seu endereço, contou que não podia levá-la, que vivia com um amigo. Sim, a lembrança dos amigos dele estava viva em sua lembrança. Um deles sempre ia buscá-lo quando dizia que tinha nova viagem. Sempre um amigo diferente. Sua mãe maldizia aqueles amigos que o tiravam dela e não entendia por que. Por que um homem iria preferir os amigos a ficar com sua esposa e a filha?
Então quando a deixou na pensão contou que o amigo era uma boa pessoa, que se davam bem. Tinha quinze anos e ouvia o pai falar que não podia levá-la porque tinha um amigo. Que eles viajavam muito, que emprestavam a casa para outro amigo e tantos amigos dele a impediam de ser sua filha ou seria ela que o assustava? Temia que o amigo acabasse gostando dela ou que ela gostasse deste amigo tão importante que o fazia renegar sua própria filha. Então o pai se foi. Vencido os dois meses pagos por ele mudou de pensão. Já estava se vendendo. Tinha onde dormir, mas faltava o que comer, talvez tivesse escolhido aquele caminho porque era mais fácil, gostava de sexo, não podia negar. Seu corpo se desenvolvia rápido, ficava se olhando no espelho, sonhando com um corpo de mulher, sonhando com a beleza que via florescendo a cada dia. E seu corpo implorava por um toque, talvez um carinho, nunca soube de fato. Foram tantas mãos que lhe apalparam que se perdeu nas sensações. Talvez ansiasse por um carinho de pai, quem sabe fosse aquilo mesmo. Era o único fato que explicava tê-lo procurado mais tarde, logo que comprou sua casa. Nunca jogou fora o endereço, guardou dentro de suas coisas. Aconteceu uma coisa espantosa, seu pai ficou feliz em vê-la, queria ir a sua casa, queria vê-la mais vezes. Usou uma desculpa, disse-lhe que estava mudando de uma pensão para sua casa. A verdade é que não queria um pai indo vê-la, não queria um freio, um controle, um homem repreendendo seus atos. Nenhum homem tinha direito sobre ela, era livre, dona de seus passos, dona de muitos homens e da sua consciência pesada. Os olhos do pai tinham que estar longe de sua consciência. Colocou-o numa posição que só ela podia conduzir. Uma vez por mês fazia-lhe uma visita. Conheceu o amigo, um rapaz novo, de uns vinte e sete anos e soube a verdade. A verdade que a mãe engoliu com seu pranto. Ela sempre chorava, padeceu, definhou, faleceu. Após a saída do pai ela foi enfraquecendo cada vez mais. Viveu por cinco anos muito doente. Como se ele lhe tivesse levado a sua vida. Como se a cada dia o fato dele não voltar, não se redimir lhe roubasse um sopro a mais de vida. Diante do corpo inerte no caixão da sua mãe, ele não derramou uma lágrima sequer. Usava um terno branco, aquele terno branco foi uma triste visão. Segurou todo o tempo uma rosa vermelha, rosa que jogou com um suspiro quando a terra começou a devorar sua mãe. A terra levando sua mãe, os olhos de medo do pai sobre ela cuspiam pânico. Soube naquele dia que tudo se acabara para eles. Toda sua mágoa caiu sobre ela, aquele olhar de pesar dele, como que se ressentindo de tê-la colocado no mundo. Ressentindo-se por ter cometido aquela loucura, ter feito uma filha. O olhar dele foi como um punhal cravando em seu peito. O próprio pai a matava com seu olhar de desgosto. Talvez por isso, porque ele a matava se sentiu sendo jogada naquela cova e foi engolida pela terra. Ficou olhando o caixão sendo coberto vendo-se sobre ele. Sua boca aberta, os olhos na figura do pai e ele com uma pá jogando toda a terra sobre seu corpo com um sorriso nos lábios. Ele a sepultou naquele dia junto com a mãe. Junto com suas esperanças de ainda ter alguém, alguém que se importasse com ela, que lhe estendesse a mão. Depois do enterro, ele a jogou naquela pensão horrível, e assim, jogou-lhe na vida. A atirou na jaula dos leões e Eduarda teve que aprender a lutar. Tinha que escapar dos leões, não podia ser devorado por eles. Foi aprendendo a se salvar das garras de aço. Salvar-se das feras que tentavam devorá-la. Os homens tinham necessidade de devorá-la viva ou morta. Preferiu que fosse vida. A lembrança da terra a sufocava, fazendo-a perder o ar. Queria esquecer aquela lembrança, precisava esquecer.
Que direito tinha de culpar alguém por sua desesperança? Só lhe restava o pai. Fazia questão de não necessitar dele para nada, mas alguma coisa a forçava a procurá-lo. Uma vez por mês lhe bastava. Ele morava em um apartamento elegante e o amigo era bonito. Era a mulher de seu pai ou seria seu pai a mulher dele? Não sabia quem era quem. Eles a tratavam como se ainda fosse uma menina. Parecia que o pai tinha acordado para o fato de ter uma filha. Mostrava-se orgulhoso por vê-la bem, talvez acreditasse que salvou sua vida quando lhe pagou dois meses numa pensão. Ao menos ele proporcionou um começo com teto. Tinha para onde levar seu corpo cansado após as noites de sexo com estranhos. Abriu um negócio com seu corpo, era ele que lhe dava o pão de cada dia. Venceu na vida abrindo as pernas. Sim, de alguma forma o pai tinha feito algo por ela, afinal. Não pode lhe dar abrigo, mas sustentou por dois meses. Razão suficiente para Eduarda acreditar que ele fez alguma coisa por ela. Quando ia vê-lo, ficava ouvindo enquanto falava de sua esposa, de seu homem, namorado, amigo, companheiro ou companheira? O que seria afinal aquele homem para o seu pobre pai? Seu pai era um homem angustiado, via a dor e tristeza em seus olhos. Seu amigo os deixava à vontade, ia para cozinha preparar um café, de outras vezes trazia uma garrafa de uísque e servia para ela e seu pai. Recusava a bebida, não fazia uso de bebidas fortes, eram broxantes, atrapalhavam seus negócios. Ficava ouvindo a conversa deles, enquanto contavam as novidades. O pai, representante de uma fábrica de remédios, ganhava muito bem. Queixava-se das viagens, a fazia lembrar que se queixava também sobre isso com sua mãe. E seu homem lhe acariciava no rosto dizendo palavras de consolo. Ele se animava nos braços dele olhando para aquele homem com alegria. Seus olhos sorriam para ele. Eduarda não conseguia deixar de se chocar com aquele fato. Chocava-se cada vez que os via, dois homens sem vergonha na cara. Sentia orgulho de si mesma, porque era uma prostituta sim, mas conservava um mínimo de dignidade. Não se arrependia de nada. Aquela coisa corroendo por dentro, dizendo que aquela vida era errada não lhe importava. Tinha determinação. Era prostituta, mas era digna! Não se desvirtuou nem se desonrou completamente. Dava seu corpo para homens, as mãos eram de homens, o sexo era de homem. Tudo que fundia no fundo de suas entranhas era exclusivamente de um homem. O membro que lhe castigava o sexo... Sentia fazer com certos homens, mas não entendia o que sentia seu pai com aquele homem. Não entendia como podia ser aquilo. A coisa igual, o sexo igual. Seu pai verteu-se por um caminho que ela não entendia. Um caminho que a assustava e que lhe dava repulsa só de imaginar.
Eduarda voltou os olhos para o envelope enviado por uma mulher, incomodada. A coisa que não aceitava batia a sua porta tentando convertê-la. Como podia ver aquilo com bons olhos? Uma mulher que queria ver seu corpo nu só podia ser uma desvirtuada. Uma coisa inexplicável! Uma foto sua, nua, sendo vista por uma mulher? Jamais entenderia aquela coisa. Como uma mulher podia se excitar com a foto de outra mulher nua?
Dados da autora: Eduarda é mesmo muito preconceituosa. Tanto é que eu fiquei apreensiva sem saber como iria trabalhar tamanho preconceito enquanto escrevia essa história. Na verdade a tarefa de curá-la não era minha. Só o amor podia curá-la e ao mesmo tempo, salvá-la.
Continua...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Uma Mulher Misteriosa. - Capítulo 4.


Carmem dirigiu de volta para casa percebendo todo o corpo desperto. Sentia como se as mãos e a língua de Marcela ainda percorressem a sua pele. Entrou em casa dando graças a Deus por estarem todos dormindo. Correu para o quarto onde tomou um banho rápido. Depois deitou fitando o teto. Seu corpo estava se acalmando, mas sua mente estava uma loucura recordando cada segundo em que esteve com Marcela. Custou a pegar no sono, mas acabou adormecendo.
Marcela, diferente dela, ficou sentada na poltrona onde dantes estivera Carmem. Sorvia uma taça de vinho deliciando-se com os pensamentos voltados para os momentos que viveu com ela. Podia sentir seu cheiro, pois parecia estar impregnado em sua mente, no seu rosto, em todo seu corpo. O que Carmem tinha feito para deixá-la tão consumida daquela maneira? Precisava fazer amor com ela. Por mais medo que Carmem sentisse, agora já sabia que não queria feri-la. Queria que Carmem a desejasse e que lhe oferecesse o mesmo prazer que estava disposta a lhe dar.
No dia seguinte, ao despertar a primeira coisa que Carmem pensou foi em Marcela e no encontro que tiveram. Recordar aquele encontro deixou-a altamente quente. O fato de o seu corpo reagir daquela forma com aquelas lembranças assustou-a. A voz de Marcela soou em sua mente: “Da próxima vez você também vai me proporcionar prazer.” Entendeu muito bem o que quis dizer, Marcela queria ser correspondida. Também não lhe pareceu que ela tenha desejado ser tocada naquele primeiro encontro. Intuiu a ansiedade dela para tocar seu corpo. A forma como a chupou sedenta, afoita, desejosa e com fome, foi mesmo como se já conhecesse e estivesse louca para matar as saudades entre suas pernas. Achou impressionante como ela desvendou-lhe a vagina, como a conheceu sem pressa. Ficou evidente o quanto queria simplesmente levá-la ao delírio do prazer. A intensidade de Marcela espantou-a e despertou algo em seu corpo, algo que nunca sentiu e que ao mesmo tempo excitava-a até mesmo por lembrar. O cheiro da pele, o roçar dos lábios quentes, o lamber sensual daquela boca, o som da voz, as mãos delicadas, atrevidas, o jeito dela de tomar posse do seu corpo, a brandura, o desejo contido, sim, a excitação que sentiu queimando-a foi devastadora. Foi o desejo latente em Marcela que a fez excitar-se completamente. Nenhuma estranha com a qual foi para a cama demonstrou desejá-la com tamanha avidez. Ela não precisou confessar que a desejava, sentiu, sentiu de uma maneira inexplicável o quanto a queria. Não recordava de ter ficado após os encontros que teve no passado, assim sentindo a mulher com a qual estivera. Não daquela maneira. Aquelas reações eram completamente novas. Pensava que conhecia todas as emoções, como também as reações do seu corpo, entretanto, percebeu que estava enganada. O que Marcela Alvarez despertou, jamais sentiu antes. 
Carmem dirigiu até o trabalho procurando se convencer de que o que estava sentindo por Marcela era apenas físico. O prazer que sentiu foi abissal. Não percebia como foi capaz de sentir tanto prazer. Não a conhecia e sequer conseguia imaginar sua imagem, e entregar-se daquela forma no escuro, deixar-se levar, aquilo lhe pareceu uma estupidez de sua parte.
Notas da autora: A palavra abissal neste trecho do texto me pareceu mal colocada a princípio, mas depois vi que era ideal, foi isto mesmo que eu quis dizer, abissal de imenso e enorme. É uma palavra que não costumo usar e são tantas palavras saltando na minha mente, mas com o uso dela, experimentei mais forte a sensação do prazer que Carmem vivenciou. 
Quando entrou em sua sala na empresa, Carmem chamou a secretária.
Solange entrou com o bloco de anotações na mão.
        - Esqueça as anotações, quero outra coisa de você.
        - Certo. O que deseja?
Solange perguntou solicita.
        - Consiga uma foto de Marcela Alvarez, por favor.
        - Ouvi dizer que ninguém nunca a viu.
        - Como nunca a viram? Ela vai trabalhar todos os dias. Algum repórter deve ter alguma foto. Uma mulher tão importante, isto é impossível! Os jornais estão sempre noticiando sobre as viagens e negócios que ela faz, procure que vai você encontrar.
        - Vou ver o que posso conseguir.
        No fim da tarde, quando Solange entrou em sua sala, Carmem ficou ouvindo admirada enquanto ela explicava o que o pessoal da imprensa tinha informado.
        - Ninguém nunca a viu. Já cercaram a casa dela, fizeram de tudo e nada. Só anda em carro de vidro fume. Tentam abordá-la no aeroporto e ela desaparece como por encanto. Tem repórter que passa os dias na caça dela.
        - Mas...
Carmem calou-se surpreendida.
        - Quer saber as coisas que ouvi sobre ela?
        - O que você ouviu?
        - Dizem que ela tem o rosto todo deformado.
        - O rosto todo deformado? Tem certeza que ouviu exatamente isto?
        - Tenho sim! Outros afirmaram que tem uma doença rara que provocou a queda dos cabelos e feridas que se espalharam por todo seu corpo. Vive cercada de lobos assassinos no casarão onde mora. Dizem que manda cortar cabeças. Os empregados tremem de medo só de ouvir o seu nome, ainda mais a sua voz. 
        - Mais alguma coisa?
Carmem perguntou olhando-a sem disfarçar o deboche.
        - Vive no escuro e afirmam que só se veste de preto. Arrasta-se pelas sombras, tipo aqueles monstros dos filmes de terror que vemos na televisão. Sabe? 
        - Pelo amor de Deus, você só pode estar brincando!
        - Não, é sério mesmo! Um jornalista confidenciou-me que ela é uma vampira e, acredite, dorme em um caixão.
Solange contou admirada.
        - Claro, onde mais uma vampira poderia dormir?
Carmem perguntou começando a rir.
        - Exatamente! Não acha assustador? Do que está rindo?
        - Assustador? Se fosse verdade, talvez. Estou rindo da situação toda.
        - Acha que não é verdade? Recebi essas informações de jornalistas sérios.
        - Eles admitiram que nunca a viram pessoalmente, correto?
        - Correto!
        - Eu nunca vi um lobisomem, você já viu um?
        - Eu não!
        - Já viu uma mula sem cabeça?
        - Claro que não, nem acredito nestas coisas!
        - Então porque está acreditando nos absurdos que te contaram sobre Marcela Alvarez?
        - Eles passaram com muita confiança essas informações. Eu não falei que acredito, só estou repetindo tudo que apurei. Só não nego que fiquei assustada.
        - Tudo bem. Tem mais alguma informação?
        - Também contaram que é uma bruxa...
        - Pode deixar, já estou satisfeita.
Respondeu apontando a porta.
        - Pode ir. Obrigada, Solange.
Solange saiu deixando Carmem mais ansiosa, andando pela sala pensativa. Que loucura coletiva era aquela? Seria possível que todos acreditassem mesmo naquelas fantasias? Marcela não tinha o rosto deformado e nem feridas pelo corpo. Não lhe faltava nenhum fio de cabelo na cabeça. Também não se arrastava, andava normalmente como qualquer ser humano. Não tinha feras e sim dois cachorros bravos. Não era uma vampira porque se fosse teria bebido todo o seu sangue. De onde teriam saído tantas asneiras?
Passou a mão pelos cabelos agitada. Estava com fome. Saiu de casa sem comer nada.
Olhou para o relógio dando-se conta que já passava das três. Pegou a bolsa descendo rapidamente para o restaurante mais próximo. Sentou pedindo um prato que apreciava. Sentia-se animada por não ter perdido a fome.
Estava distraída comendo, quando seus olhos caíram na mulher que vinha na direção da sua mesa. Estava toda de preto e os olhos ocultos por óculos escuros. Andava com uma sensualidade impressionante. O corpo escultural deixou Carmem surpreendida. Passou ao lado da mesa seguindo para o toalete feminino. Carmem voltou o rosto acompanhando o movimento sensual daquele corpo até desaparecer pela porta.
        - Nossa!
Suspirou retornando a comer com um sorriso nos lábios. Por que Marcela Alvarez não era como aquela mulher? Se fosse tudo séria mais fácil.
Voltou para a empresa, pois ainda tinha alguns documentos para liberar antes de ir para casa. Solange avisou que tinha uma ligação. Girou a cadeira na direção da janela enquanto atendia. Seus olhos acompanharam um helicóptero que passava sobrevoando baixo sem muito interesse. 
        - Alô?
        - Carmem?
Sentiu o sangue correndo mais rápido nas veias, ajeitando o corpo na cadeira. Que voz que ela tinha. Lembrou-se daquela voz sussurrando em seu ouvido na noite passada. Apertou o aparelho respondendo atenta.
        - Sim. Sou eu.
        - Quero te ver hoje.
        - Hoje?
        - Vai começar a ficar ocupada?
        - Não, claro que não. Só me pegou de surpresa.
        - Melhor que não comece mesmo.
Marcela acrescentou sorrindo satisfeita.
        - Não poderia ser em outro lugar?
        - É normal temer o desconhecido, Carmem.
        - Não, não é isto. Só achei a sua casa muito sinistra.
        - Sinistra? Vamos Carmem, você não acredita nas bobagens que falam sobre mim. Achou que estava tocando em um monstro ontem quando acariciou o meu rosto? A minha língua lambendo sua boca, enfiando-se pela sua orelha, minha boca entre suas pernas, minhas mãos nos teus seios, o seu gozo...
        - Oh, por favor!
        - Não percebi acanhamento em você ontem. Agora vai fingir que ficou acanhada?
        - Não. De maneira nenhuma.
        - Devo acreditar? O que parece é que ainda está morrendo de medo.
        - Não estou.
Carmem respondeu baixo.
        - É mesmo? Estou tentando acreditar. Espero você à noite.
        - Pode esperar.
Carmem desligou o telefone lembrando-se dos momentos passados com ela. Será que desta vez iria querer levá-la para a cama? Balançou a cabeça voltando ao trabalho totalmente perturbada.

À noite, os cães não apareceram quando Carmem desceu do carro. Achou curioso como percorreu com mais segurança e rapidez o caminho que a levou até o alto da escada. Seguiu as luzinhas até entrar no cômodo onde tinha estado na noite anterior. Seria mesmo um quarto? Naquela escuridão enervante não sabia de nada ao certo. Aquela situação mexia com seus nervos. Uma casa estranha e escura, uma mulher misteriosa que não conseguia ver e um silêncio irritante que a fazia se sentir cada vez mais impotente. Era fato que estava nas mãos dela, justamente por isto se sujeitava às suas regras, mas até quando teria estrutura para seguir com aquilo?
Não a ouviu aproximando-se, mas sentiu o hálito dela junto de seu rosto. A boca escorregou por sua pele, passando lentamente pelo canto dos seus lábios. Era isto que a sufocava, como ela podia enxergar tão bem naquele breu, quando mal via uma um vulto à sua frente?
        - Sabe onde estamos?
Marcela perguntou.
        - Não sabia nem que você estava aqui.
        - Não sabia que eu estava aqui? Pensou que eu iria me esconder para te dar um susto?
Marcela perguntou lambendo a orelha de Carmem.
        - Não pensei em nada.
Carmem respondeu arrepiando toda.
        - Pensar você pensou, mas não vai me contar, não é?
        - Claro que não.
Era o que faltava, contar seus pensamentos para ela.
Marcela pegou a mão de Carmem guiando-a por um corredor. Acendeu uma lanterna mostrando uma cama de casal.
        - Seu quarto?
Carmem questionou olhando para a cama de casal que Marcela iluminava com a lanterna.
        - Nem sempre. Viu como foi fácil chegar até aqui? Deita comigo.
        - Fácil é para você que enxerga no escuro como os morcegos.
Puxou Carmem com suavidade para os seus braços deitando com ela. Na cama, se afastou começando a se despir. Carmem ficou quieta esperando.
        - O que faz quando leva uma mulher para a cama?
Marcela perguntou num tom meigo.
        - Não entendi sua pergunta.
        - O que faz antes de transar?
        - Tiro a... Roupa? Sim, eu sei, só achei que você preferia me despir.
Carmem explicou confusa.
        - Quero vê-la se despindo para mim. Tire as suas roupas, por favor.
Carmem sempre se sentiu extremamente incomodada quando precisava tirar a roupa diante de uma mulher estranha. Achava desconfortante ser observada, analisada, totalmente avaliada dos pés à cabeça. A mulher podia pensar inúmeras coisas, poderia achá-la feia, sim, talvez a achasse magra, embora não fosse exatamente magra. Tinha coxas firmes e curvas acentuadas, mas não era fofinha, achava seu corpo certinho, mas o que achava, outra mulher poderia não achar. A beleza física era uma ilusão que só aos olhos agradava.
Tirou a roupa tendo consciência de que Marcela estava assistindo pacientemente. Ela seria mesmo tão paciente? Ao menos era calma. Aquilo a deixou um pouco mais confortável.
Quando terminou, as mãos de Marcela começaram a tocar seu corpo. Segurou as mãos de Carmem colocando sobre seus seios.
        - Vamos, conheça-me melhor. Saberá se sou o monstro que afirmam.
Marcela pediu num tom íntimo.
Será que alguma pessoa conseguiria ficar fria naquela situação? Carmem perguntava-se enquanto acariciava os seios dela de forma mais íntima.
        - Ahaaa...
Os dedos de Carmem percorriam os mamilos sentindo como estavam eriçados. Ela realmente estava bastante estimulada. Marcela também acariciava os seios dela.
Os gemidos loucos de ambas se misturaram. Estavam de frente uma para a outra se acariciando mutuamente.
        - Quando fechamos os olhos e tocamos a pele, podemos ver com as mãos. Podemos sentir o cheiro. Se você imaginar poderá sentir tudo. Olhe para mim.
Marcela pediu erguendo o rosto dela.
        - Estou olhando.
Carmem respondeu pensando que ela era louca. Pediu para olhar para ela naquela escuridão. Estava olhando e só via seu vulto.
        - Me vê?
        - Hã, não...
        - Eu sei, mas me sente.
Sussurrou agarrando as pernas dela puxando-a mais para perto de seu corpo. Assim com as pernas abertas sentiu-a deslizando os dedos pelo seu sexo com extrema sensualidade.
        - Ah... Aiiiiii...
        - Isso é uma loucura.
        - É sim e eu vou te comer, Carmem.
Carmem sentiu os dedos deslizando dentro da buceta entreabrindo mais as pernas. Estava se oferecendo para ela, sabia e estava adorando ser comida. Não pensou em outra coisa se não gozar com ela o dia todo. Que loucura era aquela? Seu corpo se dava e não resistiu, buscando a buceta dela tomada pela avidez do desejo. Estremeceu quando percebeu o quanto ela estava excitada. Há quanto tempo não fazia sexo? Só deu-se conta do quanto sentia falta de comer uma mulher enquanto entrava e saía daquela buceta gostosa. Todo o sexo casual que tinha feito até aquele momento não superava o que estava vivendo e sentindo. Com Marcela também não era apenas sexo casual? Achava que sim, mas aquele prazer não se igualava. Marcela a envolvia de uma forma que não sabia explicar. Nem sabia como ela era e estava adorando o que estavam fazendo.
Fechou os olhos deixando o corpo sentir todo o prazer que Marcela lhe dava. Ficaram assim até gozarem intensamente.
        - Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
        - Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
Marcela tombou a cabeça sobre o ombro dela relaxando. Algum tempo depois se afastou acendendo dois cigarros. Entregou um para Carmem perguntando meiga.
        - Por que fala tão pouco?
Carmem tragou olhando atentamente para a brasa do cigarro à sua frente.
        - Não pensei que estava aqui para falar.
        - Ah, então você pensa que está aqui só para transar?
        - Eu não penso muito. Só sei que você quer transar comigo.
        - Sim e você adorou me comer.
        - Não estou negando nada.
        - Nem está admitindo.
        - Por que está tendo essa conversa comigo?
        - É normal conversar depois do sexo.
        - Sim, com uma namorada, mas não somos. Estou aqui porque você me obrigou a ser sua amante.
        - É verdade, não pensei em te pedir em namoro só para transar com você. Deveria ter pedido?
        - Sou mesma obrigada a ouvir isto? Nem sei como não colocou a música “Je taime moi non plus.” Só faltou isto!
        - Por que eu colocaria essa música? Não estou te entendendo.
        - Não é o que você gosta, de gemidos? Criou este ambiente só para me seduzir? Porque se foi, escuridão não me dá tesão.
        - Você não reclamou quando estava gozando.
        - Todo mundo tem necessidades fisiológicas. Não sou diferente de ninguém. Se não percebeu ainda, não estou aqui porque quero!
        - Então você me odeia? Confessa.
Marcela a provocou segurando-se para não rir.
        - Não sei.
        - Talvez não. Acho até que você tentou no início, mas não conseguiu cultivar o ódio.
        - Não costumo odiar ninguém. Quer que eu seja diferente te odiando? Não perca seu tempo. Uma coisa é eu estar aqui e aceitar o sexo, outra é permitir que você se meta no que eu sinto.
        - Não precisa se inflamar. De qualquer maneira, se optar por me odiar será você a carregar o ódio.
        - O que eu venha a sentir também não te diz respeito.
        - Não diz mesmo. Eu gosto de ver como você é dedicada à sua família.
        - Deixa a minha família fora disto.
Carmem pediu agitando-se.
        - Não é por eles que está aqui?
        - Não só por eles, também pelas dívidas, pela conta do hospital e pela empresa.
        - Tudo bem.
Marcela sorriu acariciando a perna dela suavemente.
        - Você já fez sexo casual antes. Não é a primeira vez, eu sei.
        - Não pode saber e muito menos quero falar sobre a minha intimidade.
Carmem respondeu disfarçando a surpresa por ouvir aquilo. Como que ela sabia?
        - Eu sei por que é natural, também sou mulher. Concorda?
        - Bobagem! Onde está o cinzeiro?
Marcela passou para ela apagando os cigarros que chegaram ao fim.
Carmem suspirou virando o rosto para a parede.
        - Fica curiosa tentando saber como eu sou?
Sem querer admitir, Carmem voltou o rosto na direção dela respondendo contrariada.
        - Não vou negar que fico.
Admitiu suspirando. Não conseguia evitar a curiosidade que sentia de ver como ela era.
        - Você é cega, não é, Marcela?
        - Por quê? Se eu for vai perder a vontade de transar comigo?
        - É só uma pergunta.
        - Uma pergunta tão ingênua não necessita de uma resposta.
        - Por que ingênua? As pessoas te descrevem como um monstro e já percebi que fisicamente você é completamente normal. E sim, você poderia ser cega. Minha pergunta não foi ingênua. Isso que você está fazendo comigo parece um jogo.
        - Não é um jogo. Sabe o que é melhor nos seres humanos? Não conseguimos controlar o nosso desejo. Você gostaria de ficar fria, adoraria até não se excitar comigo. Seria uma forma de me castigar. Amaria se o seu corpo não correspondesse aos meus toques. Admita.
        - Está louca...
Carmem rebateu sorrindo sufocada. Como ela percebeu que foi aquilo mesmo que planejou fazer sem sucesso?
Marcela riu comentando sugestiva:
        - Relaxa, não vamos brigar. Veja como eu estou.
Pegou a mão dela colocando em seu sexo novamente.
        - Estamos aqui para sentir prazer.
        - Ooooo...
Carmem gemeu involuntariamente. Seus dedos deslizaram pela buceta sem que pudesse se controlar. Marcela empurrou-a até que se deitasse. Carmem voltou a procurar pela buceta dela sentindo Marcela entrando na sua. Sentia a respiração dela próxima da sua boca. Procurou-lhe a boca desesperada por um beijo, mas Marcela virou o rosto para evitá-lo. Ela afastou-se descendo com a boca roçando o corpo de Carmem sensualmente. Chegou ao sexo abrindo as pernas delicadamente. A boca perdeu-se na buceta quase levando Carmem ao delírio até fazê-la gozar.
        - Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Rápida, deitou-se sobre Carmem pedindo em seu ouvido.
        - Me toca.
Carmem tocou-a excitando-se mais com o pedido. Deslizou os dedos dentro da buceta encharcada sentindo Marcela rebolando desvairada contra seu corpo.
        - Fale coisas no meu ouvido. Adoro ouvir.
Marcela pediu a ponto de gozar. Carmem não fez a vontade dela. O que fez foi abocanhar o biquinho de um dos seios que sentiu roçando seu rosto enquanto ela subia e descia o corpo. O dedo chegou ao clitóris agradando-o com carícias deliciosas até sentir o corpo dela estremecendo todo.
        - Oh... Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo...
Quando Marcela gozou Carmem fugiu do seu corpo.
Sentou na cama pegando as roupas vestindo no escuro sem reclamar. Quando terminou ela estava sorrindo roucamente ao seu lado.
        - Por que toda essa pressa?
        - Não é pressa. Você ainda não terminou?
        - Se você ficasse mais um pouco podíamos ter mais prazer.
        - É o que eu tenho que fazer? Ficar mais tempo?
Marcela não gostou do tom de voz dela ao questionar sobre aquele fato.
        - Já percebi que está louca para ir embora. Que seja. Agora você viu como a gente se acostuma fácil? Encontrou as suas roupas sem a minha ajuda.
        - Sim, encontrei. Obrigada por não me obrigar a passar a noite aqui.
        - Obrigar? Se fosse o caso não te obrigaria. Você não tem vindo aqui obrigada. Vem com as suas próprias pernas.
Carmem se ergueu suspirando sem responder.
        - Estou pronta para ir embora.
        - Boa noite, Carmem!
Marcela respondeu sem se mover.
        - Não vai me levar até a porta?
        - Não. Precisa começar a conhecer os meus caminhos.
        - Então... Vou indo.
        - Vá. Boa noite!
        - Boa noite!
Assim que Carmem deixou o quarto, Marcela permaneceu deitada ouvindo os passos se distanciando. As palavras dela voltaram na sua mente: “Obrigada por não me obrigar a passar a noite aqui.” Seria delicioso dormir com ela. Amou até o fato de pensar sobre aquilo. Ninguém mandou Carmem tocar naquele assunto. A culpa era dela se lhe deu uma ideia maravilhosa.
Continua...